Arrastão

Edu Lobo & Vinícius de Moraes

Surgindo no momento em que o pessoal da bossa nova começava a tomar outros rumos, Edu Lobo escolheu um caminho realista, que misturava protesto social e regionalismo. Era uma linha de certa forma influenciada pelo trabalho de Carlos Lyra no “Centro Popular de Cultura” da UNE, e que introduzia na moderna canção brasileira asperezas da música nordestina.

Requintado em sua simplicidade aparente, o vibrante “Arrastão” pertence à leva inicial das composições de Edu, tendo se sagrado vencedor do 1º “Festival de Música Popular Brasileira”, da “TV Excelsior”, que projetou seu nome e o de Elis Regina.

Curiosamente, a ideia da melodia nasceu numa reunião na casa dos Caymmi, quando era cantada a “História de Pescadores”, do anfitrião. Na terceira parte, intitulada “Temporal” (“Pedro! / Chico! / Lino! / Zeca!…”), Edu começou a improvisar um contra canto, que acabou se tornando a base da canção.

Já a letra, de Vinicius, temperada pelo misticismo que dominava sua produção no momento, focaliza uma cena de pescaria, finalizada com uma puxada de rede repleta de peixes: “Ê… tem jangada no mar / ê, iê, ê / hoje tem arrastão / ê, todo mundo pescar / (…) / nunca jamais se viu tanto peixe assim…”.

“Arrastão” funcionou como uma espécie de divisor de águas entre a bossa nova e um tipo de música inicialmente chamada de “música popular moderna”, ou MPM. Esta sigla depois seria impropriamente trocada por MPB, mas MPB sempre foi e continuaria sendo usada como designativa de música popular brasileira, não importando se moderna ou antiga (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br

 

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“ARRASTÃO” VENCEU FÁCIL O FESTIVAL, MAS OUTRA MÚSICA DE VINÍCIUS, NÃO CONVENCEU

“ARRASTA essa gente aí, Pimentinha.” Elis Regina levou a serio o bilhete que Vinicius de Morais lhe mandou e fez com que “Arrastão”, de autoria do poeta e Edu Lobo, tirasse o primeiríssimo lugar no I “Festival Nacional da Musica Popular Brasileira”, ganhando para seus autores a quantia de 10 milhões de cruzeiros e um “berimbau de ouro”, que Vinicius e Edu vão dispensar para presenteá-lo a Elis.

Para surpresa e desagrado de muitos, a segunda colocada foi “Valsa do Amor Que Não Vem”, de Baden Powell e também com letra de Vinicius que, assim, conseguiu abiscoitar mais 5 milhões e meio de cruzeiros para dividir com seu parceiro, além de um “berimbau de prata dourada”, que também vão deixar com Elizete Cardoso, a interprete da canção. Vera Brasil, a autora, e Claudete Soares, a interprete, diziam poucos momentos antes do concurso que ficariam felicíssimas se “Eu Só Queria Ser” alcançasse um quinto lugar.

Porém a musica arrebatou o terceiro, deixando Vera e Claudete paralisadas de tanta emoção. O quarto lugar foi “Queixa”, defendido por Ciro Monteiro e feito por Zé Ketti, Sidnei Miller e Paulo Tiago.

Wilson Simonal cantou a quinta classificada, que é “Cada Vez Mais Rio”, de Luís Carlos Vinhas e Ronaldo Bôscoli.

Desde que foi cantada em São Paulo, já havia uma nítida convicção de que “Arrastão” iria ser a vencedora. Elis Regina interpretou-a com uma força impressionante, acompanhando cada frase com o seu característico movimentar-se de ombros e braços, dir-se-ia ela própria puxando um arrastão do mar, ajudada por Santa Barbara, Iemanjá e quantas divindades ela evoca na letra de Vinicius (veja e ouça adiante!).

Se o primeiro lugar de Edu e Vinicius foi recebido com o maior entusiasmo, sem nenhuma discordância, nem do júri, nem do público, o mesmo não se deu com a segunda classificação, de Baden e do poeta, que, desta maneira, cercou o bicho por todos os lados. A música foi considerada medíocre. Muita gente se perguntava a razão da premiação, e só a viu na interpretação dessa magistral cantora que é Elizete Cardoso. Para muitos a famosa dupla nunca fez música tão insossa e sem graça, tanto na melodia quanto na letra. Esperava o público que, em lugar dela, fosse classificada a canção “Por Quem Morrer de Amor”, de Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal, cantada excelentemente por Peri Ribeiro. Dois membros do júri nos diziam depois que a desclassificação fora devida a uma parte da letra que tem uma incongruência: “Só vive quem já morreu de amor”. Ora, quem já morreu, mesmo de amor, não pode evidentemente viver. Os terceiro e quarto lugares também foram bem recebidos. Mas em lugar da música cantada por Simonal, que entrou em quinto, todo mundo esperava que fosse “Sonho de um carnaval”, de Chico Buarque de Holanda, defendida por Geraldo Vandré. Também causou estranheza não entrar “Jangadeiro”, de João do Vale, cantada por Catulo de Paula. É curioso, pois ela era, juntamente com “Arrastão”, uma das favoritas ao primeiro lugar.

Simonal não ficou satisfeito com o resultado do Festival. Tanto não ficou que na hora em que Bibi Ferreira chamou ao palco os cinco premiados, Simonal se recusou a comparecer. Simonal tem um ponto de vista muito pessoal. Justificou seu descontentamento com o resultado dizendo que “Arrastão” não podia ganhar porque não era música popular e o concurso era desse tipo de música. “Arrastão” para ele é regional e, sendo assim, não podia entrar num concurso cujas vencedoras devem ser entendidas do Oiapoc ao Chuí. Coisas de artista.

Logo que acabou de receber os cumprimentos, Elis Regina foi para a casa de Vinícius, que ficou assistindo ao desenrolar do certame pela televisão. O poeta estava cercado por um clã de artistas e de gente jovem, entre mil e um copos de uísque, naturalmente. Edu Lobo, seu parceiro, encontrava-se aí em São Paulo, ultimando os preparativos para a estreia de “Zumbi, Rei dos Palmares”. Não foi possível ao poeta localizá-lo para a comunicação de que os dois se tinham tornado milionários da noite para o dia. Da noite para o dia é figura, porque “Arrastão” foi feita em apenas dez minutos de encontro entre os dois.

Apesar de muitas falhas de organização, do comportamento tendencioso de alguns membros do júri, o I “Festival Nacional da Musica Popular Brasileira” foi dos mais positivos. Pela primeira vez firmas comerciais resolveram inverter parte de suas verbas de propaganda numa promoção que premia o esforço de compositores populares, e até, se bem encaminhada, projetará o Brasil no exterior.

Vamos partir agora para o próximo, esperando que o povo se interesse por ele, já que é sua alma e sua poesia que estão em jogo.

Publicado na Folha de São Paulo, quinta-feira, 08 de abril de 1965
Extraído de http://almanaque.folha.uol.com.br

Elis Regina ao vivo(1965)

Elis Regina ao vivo(06/04/1965)

Tags: Arrastão / elis / Excelsior / Festival / Lobo / Vinicius /
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