Berimbau

Baden Powell & Vinícius de Moraes

Em que pese a qualidade de outras composições de Baden e Vinícius, o melhor da parceria são os chamados afro-sambas. Esta série inspirou-se em um elepê sobre sambas de roda e pontos de macumba, gravados nos terreiros da Bahia, que Vinícius ganhara do compositor baiano Carlos Coqueijo.

O primeiro afro-samba a se destacar foi “Berimbau”. Tendo a parte inicial calcada no som monocórdico desse instrumento e em cuja letra ressaltam alguns versos ideológicos (“O dinheiro de quem não dá / é o trabalho de quem não tem”), o samba explode na segunda parte, com um refrão vibrante e agressivo (“Capoeira me mandou / dizer que já chegou / chegou para lutar”), que é sustentado por um ritmo forte de candomblé.

Com tais características, “Berimbau” contrasta com o suave “Samba em Prelúdio”, sucesso anterior da dupla. Frequentemente executado pelos trios instrumentais que proliferavam na época no rastro do Tamba Trio (ouça adiante!), “Berimbau”, cujo sucesso tornou esse instrumento conhecido em todo o país, também recebeu grandes interpretações vocais (confira em ‘O tempo não apagou’), além de algumas gravações do próprio Baden (ouça adiante!), que o executou várias vezes no programa “O Fino da Bossa” (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br

Tamba Trio(1964)

Baden Powell(1963)

 

Berimbau, a genial composição de Baden e Vinícius

Os músicos, os pintores, os escritores, os atores, os bailarinos, enfim todos os profissionais que mexem com arte temperam a vida. Sem esses sensíveis seres humanos o mundo seria feio, cinza, sem graça.

Porque os homens e mulheres sensíveis são capazes de olhar a vida de forma diferente, comunicando: “Um dia, pretendo construir livros nos quais as crianças possam morar” (Monteiro Lobato), “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno aprendiz” (Gonzaguinha), “No momento em que nos entregamos às nossas afeições, a terra se metamorfoseia” (Emerson), “As rosas não falam, as rosas simplesmente exalam o perfume que roubam de ti” (Cartola), “Se eu quiser falar com Deus, tenho que ficar a sós. Tenho que apagar a luz; tenho que calar a voz; tenho que encontrar a paz” (Gilberto Gil) e “Pois há menos peixinhos a morar no mar, do que os beijinhos que eu darei na sua boca” (Vinicius de Moraes).

Eu poderia citar centenas de frases e versos fantásticos, ou falar sobre telas que nos remetem a jardins incríveis, agitando as nossas sinapses e até gritando que a Natureza é linda e merece ser celebrada, como os quadros de Raquel Taraborelli, a pintora sorocabana que seguiu os passos de Monet e valorizou as flores com cores pinceladas em suas obras.

Na abertura da Semana do Escritor, na Fundec – Fundação de Desenvolvimento da Cultura de Sorocaba, Douglas Lara reuniu dezenas de pessoas. E a festa teve a presença marcante do “Madrigal da Uniso”, comandado pelo maestro Cadmo Fausto Cardoso.

O show foi fantástico. Mesmo para um público exigente e que assiste com frequência grandes espetáculos. As vozes, afinadíssimas, ocuparam o espaço. E espalhou-se música de qualidade pela rua Brigadeiro Tobias, no centro de Sorocaba. Os cantores transformaram-se em pássaros, cada qual sincronizado em seu tempo, enquanto o maestro não escondia sua expressão feliz com o resultado final.

Eu fiquei entusiasmado e lembrei-me do maestro Hervê Cordovil, pai do Ronnie Cord, o primeiro roqueiro brasileiro “que entrou na Rua Augusta a 120 por hora”. Recordei o verso de Cordovil na canção em que ele homenageou Walt Disney, nos anos 60: “Eu ouço vozes, ao vento, cantando…” Sai do prédio da Fundec e levei os sons do grupo vocal.

O espetáculo mexeu comigo principalmente por apresentar “Berimbau”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes. A letra é obra prima. Veja só:
“Quem é homem de bem não trai/ o amor que lhe quer seu bem” – estes versos de rara felicidade, mostram a necessidade do comprometimento para se construir o encontro ideal. Uma verdadeira aula de filosofia de vida. E, na sequência, os autores chamam a atenção sobre as falsas promessas: “Quem diz muito que vai, não vai/ assim como não vai, não vem”. Vinicius e Baden continuam a canção, sempre na batida marcante do berimbau, descrevendo a arte de amar: “Quem de dentro de si não sai/ vai morrer sem amar ninguém”. Isso é perfeito, porque todos nós, para amar verdadeiramente, precisamos abrir o coração e desabrochar. Sair de dentro de si é necessário, para compreender, aceitar e viver um grande amor.

Quem se fecha, jamais pode descobrir as delícias do sentimento maior. E “Berimbau” continua viajando em poesia: “O dinheiro de quem não dá/ É o trabalho de quem não tem”. Ou seja: se você não faz seu dinheiro girar e é avarento, apenas provoca desemprego, miséria e sofrimento. E a música se completa exaltando que, no jogo da vida, muitas vezes uma batalha pode ser perdida, mas deve ser perdida com luta, coragem e dignidade: “Capoeira que é bom não cai/ Mas, se um dia ele cai, cai bem”.

O maestro Cadmo chamou a atenção dos presentes para as belezas que a música brasileira contém, mas lamentou que ela esteja cada vez menos presente nas emissoras de rádio e TV. Por isso, fez um apelo: “Desliguem seus aparelhos quando surgirem apenas músicas estrangeiras e usem todas as ferramentas para que a nossa música seja tocada, o que também garante emprego aos poetas, músicos, cantores…”.

A Semana do Escritor de Sorocaba, criada por Douglas Lara, é uma semente plantada com humildade e entusiasmo. Humildade porque, num mundo que a ganância procura acinzentar, Douglas reuniu escritores, poetas, músicos e outros artistas para saborearem a vida. Procurou um por um, dando a cada artista a valorização merecida.

Formou, assim, a realização do sonho comum. O entusiasmo contagiou a todos e esse evento já é sucesso na “Cidade Educadora”. Escritores de cidades distantes prestigiam a festa e promovem o congraçamento, com trocas de experiências. O bem também se espalha.

No encontro, todos saem de si. Transbordam e espalham o que todo ser humano reúne de melhor: o talento.

Com certeza, todos que participaram, expondo talento ou conhecendo, como visitantes, os talentos ali presentes, já não são mais os mesmos. Estão ricos de informações e satisfeitos com o sucesso. Porque como ensina o “Berimbau”: “Capoeira me mandou dizer que já chegou/ chegou para lutar”. E a gente reunida por Douglas Lara não foge à luta.

Texto de 08/08/2006, de Rui Albuquerque
Extraído de http://www.bomdiasorocaba.com.br/index.asp?jbd=2&id=124&mat=37023

Tags: baden / Berimbau / Tamba / Vinicius /
  • Compartilhe:

Escreva um comentário:

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *