Boas festas

Assis Valente

Assis Valente, felicidade é brinquedo que não tem

É paradoxal que “Boas festas”, a única música natalina brasileira que deu certo, tenha sido composta pelo baiano Assis Valente (1911/1958), um dos autores mais atormentados da MPB, que, este ano, teve seu centenário comemorado, embora seja controversa sua data de nascimento. Alguns pesquisadores acham que ele é de 1908. Não por acaso, “Boas festas” é também uma das canções mais tristes entre as que são cantadas nesta época. Não há em sua letra o lirismo, ou bom-humor, e até ingenuidade, das músicas norte-americanas ou europeias. É difícil entender a razão de “Boas festas” competir com “Noite feliz” (Stille nacht, Heilige nacht), “White Christmas”, e outros clássicos do cancioneiro importado. A canção é de 1932, portanto, em 2012 completa 80 anos, e foi lançada, em 1933, por Carlos Galhardo, com acompanhamento da Orquestra Diabos do Céu, regida por Pixinguinha (ouça adiante!).

Enquanto “Noite feliz” (Joseph Mohr/Franz Grüber, adaptação de Alberto Ribeiro), por exemplo, evoca o menino Jesus, paz, sinos bimbalhantes, “Boas festas” é uma crítica social, um desabafo, amarga, que reflete o que se passava pela cabeça de Assis Valente. Ele foi mulato pobre, adotado por uma família de brancos do recôncavo baiano, compositor e protético. Em sua música, sinos não bimbalham, gemem, e o bom velhinho, só é bom para uns: “Já faz tempo que pedi/mas o meu Papai Noel não vem/com certeza já morreu/ou então felicidade/é brinquedo que não tem”.

Numa entrevista de 1936, Assis Valente contou como lhe veio a inspiração para “Boas festas”: “Eu morava em Niterói, e passei aquele Natal sozinho. Estava longe dos meus e de todos em uma terra estranha. Era uma criatura esquecida dos demais no mundo alegre do Natal dos outros. Havia em meu quarto isolado, uma estampa simples de uma menina esperando seu presente, com seus sapatinhos sobre a cama. Eu me senti nela. Rezei e pedi. Fiz então “Boas festas”. Era uma forma de dizer aos outros o que eu sentia. Foi bom, porque de minha infelicidade tirei esta marchinha que fez a felicidade de muita gente. É minha alegria de todos os natais. Esta é a minha melhor composição”.

Mas por que o compositor consideraria “Boas festas” sua melhor canção? Por ela ser tão confessional? Por virar sua alma pelo avesso? Ou mostrá-la pelo lado correto? Por retratar o homem amargurado, cuja vida tinha uma face oculta, o homossexualismo não assumido? Um compositor que quase sempre cantava a alegria, com letras bem-humoradas, e que foi um dos mais bem-sucedidos do seu tempo. São de Assis Valente: “Brasil pandeiro”, “Boneca de pano”, “Camisa listrada”, “E o mundo não se acabou”, “Fez bobagem”, “Maria boa”, “Quero um samba” (com Júlio Zamorano), “Uva de caminhão”, para citar umas poucas. Sua grande intérprete foi Carmem Miranda, mas foi gravado por quase todos os astros da era do rádio.

O cronista do cotidiano, das mazelas dos amores feitos, desfeitos, complicados, nunca foi tão abertamente ele próprio quanto em “Boas festas”. Nada mais incisivo do que o Natal para mexer em feridas da alma. Talvez a outra música em que Assis Valente mais fala de si mesmo seja a engraçada “Pão duro”, uma marchinha lançada, em 1946, por Luiz Gonzaga (que confessou não ter feito nada na música, a não ser sanfonar e interpretar): “Sou pão duro/vivo bem/…não conto anedota/porque não convém/a alegria que tenho/não dou a ninguém”.

Em dezembro de 1968, Caetano Veloso ousou, diante das câmeras, a lendária interpretação de “Boas festas”, com o AI-5 pairando sobre sua cabeça. Foi a derradeira apresentação do programa tropicalista “Divino maravilhoso”, na TV Record. Caetano cantava: “Anoiteceu/o sino gemeu…” segurando um revólver que apontava para a própria cabeça. Assis Valente passou anos, metaforicamente, com um revólver apontado para a cabeça. Em maio de 1941, tentou o suicídio pulando do Corcovado mas, milagrosamente, se salvou, resgatado pelo Corpo de bombeiros.

Em 11 de março de 1958, tomou veneno com guaraná, e teve uma morte de letra de bolero mexicano, tombou na relva da Praia do Russel. O repórter Francisco Duarte, que anos mais tarde escreveria, com Dulcinéa Nunes Gomes, a biografia “A jovialidade trágica de Assis Valente”, passava pelo local, e viu o corpo do compositor, arrodeado por populares. Gomes perguntou a um policial o que havia acontecido. A resposta: “Suicidio. Um protético que tinha laboratório na Cinelândia. Matou-se por dívidas. Parece que se chamava José”.

Extraído de http://jconlineblogs.ne10.uol.com.br. Crônica publicada em 25/12/2011

Carlos Galhardo & Diabos do Ceu(Pixinguinha e Orquestra)(1933)

 

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“Boas festas” foi composta no Natal de 32 por um Assis Valente solitário e saudoso da família, no quarto onde então morava na Praia de Icaraí (Niterói). Lançada por Carlos Galhardo com grande sucesso um ano depois, logo se tornaria nossa canção natalina mais conhecida, uma das poucas no gênero que conseguiram sobreviver. Seu sucesso foi muito importante para Valente e Galhardo (que a regravou várias vezes), ambos em início de carreira à época do lançamento.

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br

Tags: Anoiteceu / Assis / Boas festas / diabos / galhardo / natal / papai noel / Pixinguinha / Valente /
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Paulo Roberto Victer disse:

Cantei em criança essa música e nunca tinha atentado para esse detalhe descrita na Canção Contada. Muito interessante.

Salvador disse:

Curioso a canção ter sido composta em Niterói. Quem de nós sabia disto ?