Chega de saudade

Tom Jobim & Vinícius de Moraes

…mas naquelas férias de1958, em São Paulo, não só comecei a fumar como ouvi num rádio de pilha ‘Spica” – a nova sensação tecnológica, novidade absoluta recém-chegada ao Brasil – João Gilberto cantando “Chega de saudade”. Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido, fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas quanto mais ouvia, mais gostava. Na volta ao Rio comprei o disco…

Extraído de Nelson Motta em ‘Noites Tropicais’

 

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‘Chega de saudade’ é uma canção escrita por Vinicius de Moraes (letra) e por Antonio Carlos Jobim (música), em meados dos anos 50.
Foi gravada pela primeira vez em 10 de julho de 1958, na voz de Elizeth Cardoso, que a gravou com arranjos de Jobim, acompanhada também pelo violão de João Gilberto (ouça adiante!). Mais tarde, esta gravação antológica ficou reconhecida como o primeiro registro fonográfico da bossa nova.

A versão de Elizeth foi lançada em maio daquele mesmo ano no álbum-projeto ‘Canção do amor demais’ pelo selo Festa (LDV 6002), no qual pela primeira vez se ouviu aquilo que receberia o nome de batida da bossa nova.

Alguns meses depois, a canção recebeu novas versões, primeiro pel’Os Cariocas, através de disco Columbia e também por João Gilberto (ouça adiante!), num 78 rotações lançado pela Odeon em julho que tinha, no lado B, a música ‘Bim bom’, de autoria do cantor.

Extraído de https://pt.wikipedia.org

Elizeth Cardoso & Coro(1957)

Joao Gilberto(1958)

 

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Que a canção “Chega de saudade” inaugurou a ‘Bossa nova’, nos idos de 1958, quase todo mundo sabe. Que a música popular brasileira nunca mais foi a mesma depois que João Gilberto gravou essa música, embora a primeira gravação fosse de Elizeth Cardoso, ao som do violão do próprio João Gilberto, também é fato notório. Mas vejamos aqui o depoimento de Vinícius de Moraes, na coletânea de artigos “Samba Falado” (Rio de Janeiro, Beco do Azougue, 2008), quando ele diz como a canção “Chega de Saudade” foi composta.

Nesse mesmo ano de 1956, Tom, depois de preparada a partitura da minha peça “Orfeu da Conceição”, resolveu ir descansar em ‘Poço Fundo’, lá para os lados de Itaipava, onde seu pai tem um sítio. Quatro sambas (os nossos primeiros) haviam saído dessa safra, todos para o “Orfeu”. “Se todos fossem Iguais a você”, “Lamento no morro”, “Mulher, sempre mulher” e “Um nome de mulher”. Minha valsa “Eurídice” seria usada como o tema da mulher amada. Tudo andava sobre rodinha e eu, uma vez escolhido o diretor e os atores, achei-me com direito de ter uma angina de garganta, que me bateu na cama.

Foi no meio dessa angina que Tom, um dia, de volta da montanha, chegou à minha casa, na Rua Henrique Drummond, sentou-se ao meu lado e, depois de um papo manso, pegou meu violão e pôs-se a tocar um sambinha que logo alertou o ouvido.

- Você gosta? – perguntou-me ele ao terminar.
– Faz de novo.

Tom repetiu-o umas dez vezes. Era uma graça total, com um tecido melancólico e plangente, e bastante “chorinho lento” no seu espírito. Eu fiquei de saída com a melodia no ouvido, e vivia a cantarolá-la dentro de casa, à espera de uma deixa para a poesia.

Aquilo sim, me parecia uma música inteiramente nova, original: inteiramente diversa de tudo que viera antes dela, mas tão brasileira quanto qualquer choro de Pixinguinha ou samba de Cartola. Um samba todo em voltas, onde cada compasso era uma nota de amor, cada nota uma saudade de alguém longe.

Mas a letra não vinha. De vez em quando eu me sentava à minha mesa, diante da janela que dava para o Country (hoje a casa foi, é claro, transformada em mais um prédio de apartamentos…), e tentava. Mas o negócio não vinha. Acho que em toda a minha vida de letrista nunca levei uma surra assim. Fiz dez, vinte tentativas.

Houve uma ocasião em que dei o samba como pronto, à exceção de dois versos finais da primeira parte, que eu sabia quais eram, mas que não havia maneira de se encaixarem na música, numa relação de sílaba com sílaba. Eu já estava ficando furioso, pois Tom, embora não me telefonasse reclamando nada, estava esperando pelo resultado.

Uma manhã, depois da praia, subitamente a resolução chegou. Fiquei tão contente que cheguei a dar um berro de alegria, para grande susto de minhas duas filhinhas. Cantei e recantei o samba, prestando atenção a cada detalhe, a cor das palavras em correspondência à da música, à acentuação das tônicas, aos problemas de respiração dentro dos versos, a tudo. Queria depois dos sambas do “Orfeu”, apresentar ao meu parceiro uma letra digna de sua nova música: pois eu realmente a sentia nova, caminhando numa direção a que não saberia dar nome ainda, mas cujo nome já estava implícito na criação. Era realmente a bossa nova que nascia, a pedir apenas, na sua interpretação, a divisão que João Gilberto descobriria logo depois.

Intitulei-o “Chega de saudade” recorrendo a um de seus versos. Telefonei para Tom e dei um pulo a seu apartamento. O jovem maestro sentou-se ao piano e eu cantei-lhe o samba duas ou três vezes, sem que ele dissesse nada. Depois, vi-o pegar o papel, colocá-lo sobre a estante do piano e cantá-lo ele próprio. E em breve chamar sua mulher em tom vibrante:

- Teresa!

O resto sabemos… a música brasileira jamais foi a mesma depois de “Chega de saudade”.

(Vinícius de Moraes)

Extraído de http://www.eternasmusicas.com

 

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O samba “Chega de saudade” é considerado o marco zero da bossa nova. Apesar do nascimento do gênero ser contabilizado em 1958, com a gravação do violonista e cantor baiano João Gilberto na Odeon, na verdade a gênese é do ano anterior. Em 1957, Tom Jobim produziu para o selo Festa o disco ‘Canção do amor demais’, de Elizeth Cardoso, que trazia apenas parcerias dele com o poeta Vinicius de Moraes. Entre os temas estava “Chega de saudade”. No arranjo, Jobim já dava as linhas mestras do que viria a ser a “batida da bossa” e em meio ao grandioso arranjo de orquestra já ponteava o violão de João Gilberto. Mesmo com “Chega de saudade” figurando em ‘Canção do amor demais’, a bossa nova estabeleceu seus contornos definitivos a partir do disco de João Gilberto. Os sambas-canção lacrimosos davam lugar a versos que falavam de “abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim”. As vozes poderosas de Vicente Celestino ou Silvio Caldas encontravam concorrência nos quase sussurros de João. E havia a incontestavelmente revolucionária batida do violão do baiano, que mesclava marcação rítmica inovadora e preceitos jazzísticos. Alguns pesquisadores alegam que essa batida teria sido inspirada na do norte-americano Barney Kessel ao acompanhar a cantora Julie London na gravação de “Cry Me a River” em 1956. Há similaridades, é fato, mas João Gilberto imprimiu suingue próprio ao tema. Entre os muitos intérpretes que gravaram “Chega de saudade” estão o próprio Tom Jobim, Rosa Passos, Stan Getz, Toninho Horta, Joe Henderson e César Camargo Mariano (confira em ‘O tempo não apagou’).

Extraído de http://rollingstone.uol.com.br

 

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Embora considerada o marco zero da bossa nova, “Chega de saudade” não é, na opinião de Tom Jobim, uma composição bossa nova. Em depoimento ao jornalista Tárik de Souza (para o livro Tons sobre Tom), ele esclareceu:

“Minha mãe criou uma menina, que também se chamava Nilza (nome da mãe do Tom) e me pediu para comprar um método de violão para ela, que tinha boa voz. Comprei o método do Canhoto que trazia (…) aquele sistema antigo (de acordes) primeira, segunda, terceira. (…)

Fui obrigado a explicar para ela naquele método (…) e acabei me envolvendo com aquela sequência de acordes, completamente fáceis. Inventei uma sucessão de acordes, que é a coisa mais clássica do mundo, e botei ali uma melodia.

Mais tarde, Vinícius colocou a letra. De certa forma, sentindo a novidade da bossa nova, do João Gilberto e daquele meio em que a gente vivia, talvez Vinicius tenha sido levado a intitular a música ‘Chega de saudade’. (…) Esse título é engraçado porque a música tem algo de saudade desde a introdução. Lembra aquelas introduções de conjuntos de violão e cavaquinho, tipo regional. (…).

Na segunda parte, passa para maior (modo maior). Acontecem todas aquelas modulações clássicas que você encontra na música antiga. Isso cria um absurdo: o ‘Chega de saudade’ já é uma saudade jogando fora a saudade!”.

Realmente, a bossa nova de “Chega de saudade” está quase toda na harmonia, nos acordes alterados, pouco utilizados por nossos músicos da época, e na nova batida de violão executada por João Gilberto. A novidade rítmica fica muito clara, especialmente sob os versos “dentro dos meus braços os abraços / hão de ser milhões de abraços / apertado assim…”, com o violão indo na contramão da forma institucionalizada de se tocar samba. Aliás, a inovação já está presente na gravação de Elizeth Cardoso, a primeira de “Chega de saudade”, feita para o elepê ‘Canção do amor demais’, que tem a participação de João Gilberto como violonista.

Esse disco, lançado pela pequena marca ‘Festa’, do produtor Irineu Garcia, é considerado por Tom Jobim (em depoimento a Zuza Homem de Mello, em outubro de 68) “um marco, um ponto de fissão, de quebra com o passado”. No dia 10/07/1958, seis meses depois da gravação da Elizeth, aconteceu a do João, naturalmente repetindo a mesma batida de violão e apresentando o seu estilo bossa nova de cantar.

Este disco histórico, que traz na outra face o baiãozinho “Bim-bom” (classificado no selo como samba), provocaria a pitoresca e mal-humorada reação de Álvaro Ramos, gerente das Lojas Assunção, quebrando o disco, indignado com o que o Rio de Janeiro lhe mandava. Atribuída no anedotário da bossa nova a Osvaldo Gurzoni, diretor de vendas da Odeon em São Paulo (que também não gostara do disco), a verdadeira identidade do autor da façanha (Ramos) seria revelada por Ruy Castro no livro ‘Chega de saudade’. Esse episódio aconteceu em São Paulo, em agosto de 58, às vésperas do lançamento do disco de 78 rotações, que precedeu em alguns meses o elepê homônimo.

Fonte: A Canção no Tempo – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Vol.2 – 1958-1985.

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br

 

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“Chega de saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, é um clássico. Já ganhou várias interpretações, todas valorizando a passionalidade da canção: o canto da separação dos amantes, com vistas para o encontro feliz.

No disco Novas bossas (2008), a união da voz de Milton Nascimento (em tom bastante intimista) com a harmonia e frescor do ‘Jobim Trio’ enchem a canção de luxo e suavidade: fio de certeza que atravessa as sombras da solidão e vai tocar o destinatário, no coração (confira em ‘O tempo não apagou’).

O ‘Jobim Trio’ é responsável pelos novos arranjos das canções deste disco que, além de homenagear a Bossa Nova, valoriza as fibras sonoras que marcaram o movimento.

Destacar a beleza da voz de Milton Nascimento é cometer sempre uma prazerosa redundância. A merencória pulsação de suas cordas vocais torna qualquer canto belo e deslumbrante: há um lamento, uma agonia, um desassossego que infestam as canções interpretadas por ele, levando-as àquele lugar em que o trágico se manifesta: aponta para a beleza terrível da existência.

Há o barulho (arranjado) de um trem no início desta versão de “Chega de saudade”, que logo dá lugar à leveza que a canção exige. O trem tanto faz referência às viagens que o ouvinte experimentou durante a audição do disco, quanto ao trem mineiro de Milton estacionando no Rio, terra de Tom.

“Chega de saudade” sintomaticamente fecha o disco. Uma atitude de espera por estações (e bossas) novas. “Chega de saudade” é o canto que se executa para dizer ao outro que, sem ele, a vida não faz sentido.

A disjunção erótica cantada é o motor da canção e do sujeito que canta. Mas, basta ele imaginar a volta do outro, “dela, para tudo mudar: a voz e a melodia se aquecem na possibilidade, mesmo que apenas no canto (na ficção; na imaginação), da volta: “que coisa linda, que coisa louca”.

A canção “Chega de saudade” se equilibra sobre uma nada sutil complexidade: o deslizamento dos corpos, e suas vozes, dentro da relação de interdependência dos significantes “musa” e “cantor”.
Ela, que povoa a solidão do sujeito – “cirandas voltas de tu em mim”, como diz os versos da poesia “Saudade”, de Amador Ribeiro Neto -, é a musa: promove o canto, movimento de liberdade, mas mantêm o sujeito preso, assujeitado pela paixão.

Extraído de http://365cancoes.blogspot.com.br

 

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Samba clássico da parceria Tom Jobim-Vinícius de Moraes, considerado o pontapé inicial do movimento musical que seria conhecido por ‘bossa nova’. O curioso é que o próprio Tom Jobim não teve nenhuma intenção de renovar qualquer coisa quando compôs esta obra-prima, originalmente em ritmo de choro. Sua primeira gravação foi feita pela cantora Elizeth Cardoso, em 1958, para o álbum de selo Festa “Canção do amor demais”, e cujo acompanhamento ao violão, feito por João Gilberto, introduziu inovações que se tornariam fundamentais. Logo em seguida, a 10 de julho de 58, o próprio João fez este seu registro, que a Odeon lançou em agosto seguinte no 78 rpm n. 14360-A, matriz 12725. Apesar do estranhamento inicial, motivado principalmente pela maneira de cantar de João Gilberto, “Chega de saudade” foi sucesso absoluto, sendo mais tarde faixa-título e de abertura do primeiro LP do artista baiano. Confira também o verso do 78, “Bim bom” igualmente faixa desse LP. Direitos fonográficos reservados a João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira. ISRC: BRPGD-9900848.

Extraído de Samuel Machado Filho

Tags: chega / Elizeth / Gilberto / Jobim / saudade / Vinicius /
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