Com açúcar, com afeto

Chico Buarque

Com açúcar, com afeto” é uma canção do compositor Chico Buarque (1966), feita por encomenda de Nara Leão que queria uma música que falasse dessas ternuras de mulher.

A música, inserida no álbum “Chico Buarque de Hollanda – Volume 2”, foi gravada por Jane Morais (ouça adiante!), depois, por Nara Leão em 1967 (confira em “O tempo não apagou”) e fala de uma mulher submissa, sofredora, que espera conformada e carinhosa o seu homem voltar do samba e do bar.

“Com açúcar, com afeto” foi a primeira canção em que Chico Buarque interpreta o feminino, talento que se tornaria uma marca registrada do autor.

Jane Morais(1966)


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Quem contou a história foi o compositor, em uma entrevista publicada no site http://www.chicobuarque.com.br/.

Ele confidenciou que a Nara Leão lhe deu o tema com detalhes. “Ela pediu: eu quero uma canção que fala que a mulher sofre, a mulher espera o marido etc. e tal. Eu fiz prá Nara e pro tema exato que ela pediu. Uma canção sob encomenda mesmo”.

Bendita encomenda. O pedido de Nara Leão proporcionou mais um grande clássico da MPB.

Extraído de Dr. Zem

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Com açúcar, com afeto” é uma trova conhecida no jargão poético como “Cantiga de Amigo”. Basicamente é um texto no qual um poeta deseja falar por intermédio da mulher.

Este tipo de poesia se caracteriza por 3 vertentes de intenção do poeta: 1) Quando ele se descreve pela mulher; 2) Quando ele sonha pela mulher e; 3) Quando se assume mulher.

“Com açúcar, com afeto” foi a primeira empreitada de Chico em mergulhar no universo feminino, já que no seguimento de sua obra existem outras de mesma conotação (“Olhos nos olhos”, “Mulheres de Atenas”, etc), e neste texto ele já utiliza pequenos traços de ironia, que viria explorar ao máximo em Mulheres de Atenas.

Chico era fã ardoroso da bossa nova e foi criado no meio de poetas e músicos deste segmento. Como os poetas da bossa nova gostavam de alternar as formas como se referiam às musas, ou mesmo, ao cotidiano social que os cercava, fica claro que “Com açúcar, com afeto” é uma cantiga de amigo, na qual Chico procurou colocar na boca da mulher as impressões que ele tinha do seu próprio comportamento cotidiano, numa autocrítica espelhada no comportamento da companheira.

A ironia fica evidente quando se percebe que mesmo resignada com o descaso do marido, a personagem tem perfeita noção daquelas mentiras ao utilizar os termos: Qual o quê, Sei lá o quê, Comemorar o quê?

O texto também faz uma autocrítica ao comportamento masculino quando o machista transfere para a companheira toda a sorte de tarefas, que se aparentam superficiais, enquanto “vai à caça” argumentando “ir à luta”, com a infantil ideia de que ela o esperará sem questionamentos. Esta ilusão serve para mostrar o quanto este tipo de postura é imbecil e inútil, pois, na verdade, ao perdoá-lo e recebê-lo de braços abertos, fatalmente a mulher irá torná-lo ainda mais dependente dela.

Este frágil procedimento na verdade é uma grande arma: O jeito da alma feminina de perdoar mais.

Extraído de Sérgio Soeiro

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O trovadorismo português continua presente nos dias atuais apesar de ter sofrido e a condicionando aos fenômenos sociais de nossos pais. Muitos autores da cultura popular brasileira fizeram e fazem canções de amigo, dos quais podemos destacar Caetano Veloso e Chico Buarque.

A cantiga de amigo está caracterizada no trovadorismo, pelo fato do eu lírico se tratar de um ser feminino com temas de amores aguçados. É o que se denomina cantiga de amigo lírico-amorosa que retratava essencialmente o amor de uma mulher por um homem. Embora a cantiga de amigo seja escrita por um autor do sexo masculino o eu lírico será sempre feminino. Eu lírico usa a cantiga para declarar os seus sentimentos mais profundos à pessoa amada. É uma forma do autor de camuflar seus sentimentos pela mulher amada.

Em 1966 Chico Buarque grava a canção intitulada “Com açúcar, com afeto”, cuja temática trazia a figura de uma mulher totalmente submissa dada aos cuidados domésticos e especialmente do marido, demonstrando sua devoção sem resistências. Todavia ela consegue manter exímias habilidades como fêmeas, como uma verdadeira “Amélia” que “mais domina que é dominada” por amar demais.

No título da canção fica muita clara a comparativa do afeto desta devota e amorosa mulher com a doçura do açúcar. O que evidencia uma tênue silhueta de responsabilidade e de entendimentos ternos, pois mesmo deixada em angústia enquanto ele vai para os devaneios da vida, ela o espera com os braços abertos.

O trovadorismo buarquiano mostra uma mulher que atrai para si a sensação de controle mesmo que seja pela forte camada de afeto que debruça na relação. A canção de Buarque é uma trova de amigo na qual o eu lírico imprime na figura da mulher os sentimentos tidos pelo poeta a cerca de suas próprias ações, como se num jogo de inversão de valores.

Observamos os versos e vemos o quanto Buarque transforma uma mistura de música e poesias na trova. O eu lírico está marcado de sentimentos pessoais, afeiçoamento a uma pessoa que ama e ao mesmo tempo lhe provoca angústias e mesmo assim é uma mulher intrépida ao abrir-lhe os braços e beijar o retrato, debruçando-se na doçura de um afeto que lhe agrada mais o próprio coração.

Penso que exatamente aí que se traduz o trovadorismo contemporâneo de Buarque, cuja poesia faz uso do eu feminino, seja assumindo tal postura seja mostrando os amores inacessíveis, seja representando o drama da mulher. O certo é que ele consegue fazer, em uma linguagem moderna, um trovadorismo autêntico.

Extraído de Paulo Marcos Ferreira Andrade

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Essa foi a primeira canção composta por Chico Buarque em que o “eu lírico” fala por intermédio de uma mulher. “Com açúcar, com afeto” foi gravada originalmente em 1966, pela cantora Jane, do grupo gaúcho “Os Três Moraes”.  O próprio autor admite que se recusou a interpretá-la com receio de que as más línguas passassem a duvidar de sua masculinidade. No ano seguinte (1967), Nara Leão, de quem Chico disse que recebeu o pedido para escrever a letra da música, gravou com enorme sucesso. Trata-se de uma história de resignação feminina com o descaso do marido na relação a dois, consciente das suas mentiras e sabendo que ausente de casa ele se entrega à farra. No entanto, vendo-o na volta abatido e cansado, se compadece, perdoa e outra vez toma-lhe nos braços. O cotidiano de um contexto social patriarcal, em que a mulher fica em casa esperando o marido chegar para oferecer-lhe todos os cuidados de uma companheira fiel e submissa.

“Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto/pra você parar em casa, qual o que/com seu terno mais bonito, você sai, não acredito/quando diz que não se atrasa… E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado/ainda quis me aborrecer, qual o que/logo vou esquentar seu prato/dou um beijo em seu retrato/e abro os meus braços pra você”.

Carinhosamente, na intenção de lhe fazer um mimo, e assim prendê-lo mais tempo em casa, ela faz o doce de sua preferência. Fica triste quando vê  que ele não deu a menor importância e se diz apressado para sair, alegando que não pode chegar atrasado nos seus compromissos de trabalho. Ela já o conhece bem e não acredita nessas suas afirmações, ainda mais ao perceber que ele veste o terno mais bonito, o que a induz a desconfiar que a programação dele não é exatamente de trabalho, mas de lazer.

Ela sabe que é tudo mentira, mas disfarça e demonstra acreditar que vai à luta pela manutenção do lar. No caminho pára de bar em bar, em comemoração a qualquer coisa, sempre encontrando um motivo para beber.

Sabe que nessa farra se dedica ao bate papo com amigos e a entreter-se na observação das mulheres que desfilam seus corpos bronzeados pelas praias. Enquanto fica em casa, ele se diverte, esquecido da companheira.

Ao anoitecer ainda se encontra na bebedeira, cantando, entre amigos, músicas que trazem lembranças agradáveis do passado. As horas passam sem sentir que tem a esposa a esperá-lo.

Vencido pelo cansaço, já tarde da noite, resolve retornar à sua casa. E ao chegar, vem cheio de atenções, rogando perdão pelo atraso. Pede que ela releve esse seu comportamento e promete, como sempre, após cada orgia, que vai mudar e assumir, com responsabilidade, suas obrigações de marido e de dono de casa. E, numa declaração fingida de amor, diz que fará isso para agradá-la.

A primeira reação ao vê-lo daquela forma, desarrumado, bêbado, fatigado, é de raiva, aborrecimento, contrariedade, mas não consegue. Logo se compadece do seu estado e vai esquentar o seu jantar, alimentar seu corpo e afagar sua alma com carinho. Enfim rende-se a essa paixão que a faz sempre perdoá-lo em tudo, e lhe toma nos braços num aconchego de quem ama verdadeiramente.

Extraído do livro “Um olhar interpretativo das canções de Chico”

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