Conto de areia

Romildo Bastos & Toninho Nascimento

Quando eu criei a letra de “Conto de areia”, os versos iniciais eram: “É lua no mar / é maré cheia, ôi”. Ao musicar a letra, o Romildo mudou para “É água no mar / é maré cheia, ôi”. Eu expliquei pro Romildo que a maré fica cheia devido a proximidade da lua, e que Água no mar é redundância. Não adiantou, ficou É água no mar mesmo.

Extraído de Toninho Nascimento

 

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Basta lembrar qualquer aparição de Clara Nunes na TV – ou mesmo buscar imagens suas na internet – para chegar à conclusão de que há seres insubstituíveis. A presença física de Clara faz muita falta em tempos politicamente corretos e assustadoramente assépticos como os de hoje.

Colocando as entidades todas para dançar em audiência nacional, Clara Nunes encarnava a certeza de que o samba brasileiro tem vela e tem farofa. Ela levou, ao que tudo indica, com calculada dignidade, os orixás para a TV, festejando nossa riqueza amalgâmica: “Jesus de Nazaré e os tambores do candomblé”.

Em ‘Alvorecer’ (1974) Clara Nunes gravou “Conto de areia”, de Toninho Nascimento e Romildo Bastos. A canção fala dos mistérios e segredos guardados nas águas da Bahia (estação primeira da colônia Brasil). Os versos “A noite emprestou as estrelas bordadas de prata e as águas de Amaralina eram gotas de luar” desautomatizam o ouvinte e preparam-no para aquilo que será cantado.

A letra de “Conto de areia” mais parece uma rede: recupera várias filigranas de diversos mitos, contos e lendas, usando-os para tecer o conto cantado. Por exemplo, quando o sujeito diz “desfia colares de conchas pra vida passar e deixa de olhar pros veleiros” retoma a homérica tecelã Penélope, que fiava e desfiava na esperança do retorno de seu amado Ulisses.

No entanto, diferente do herói grego, o sujeito de “Conto de areia” diz: “eu já vou me embora pro reino que esconde os tesouros de minha senhora (…) adeus meu amor eu não vou mais voltar”. Ou seja, ele não esconde sua escolha e predileção pelo “bem do mar”.

E aqui não podemos deixar de relacionar “Conto de areia” com “É doce morrer no mar”, de Dorival Caymmi e Jorge Amado. Nesta canção temos a voz da mulher “morena dos olhos molhados de mar”, que chora a ausência do seu canoeiro levado para o meio das águas de Iemanjá.

Em “Conto de areia” temos um narrador que mistura, resignifica e conta os contos. Na primeira parte temos uma voz que narra distanciado das ações – “contam que toda tristeza”; enquanto na segunda parte temos a voz do homem (do canoeiro) que dá adeus ao “bem de terra” e vai perder-se encantado para o reino das águas. Ter Clara Nunes – sua voz, sua persona artística – como narradora e personagem disso é um luxo dos sentidos.

Extraído de http://365cancoes.blogspot.com.br

 

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Clara Nunes gravou muita coisa sem importância até encontrar nos gêneros afro-brasileiros o rumo certo para a sua carreira. Então, cantando principalmente músicas de compositores ligados às raízes do samba, ela se tornaria a primeira cantora brasileira a ultrapassar cem mil discos vendidos, quebrando um tabu reverenciado pelas gravadoras. Tal façanha aconteceu com o elepê ‘Alvorecer’, lançado em junho de 74, que, tendo “Conto de areia” como faixa de maior sucesso, vendeu 312 mil cópias.

Um belo ponto de macumba estilizado (“É água do mar / é maré cheia, oi… / na areia, oi / na areia…”), “Conto de areia” inspirou-lhe novas incursões nessa área, que resultaram em sucessos como “O mar serenou” e “A Deusa dos orixás”. Mas, além dos sambas de raiz, Clara cultivava também em seu repertório canções de autores consagrados como Dorival Caymmi, Tom Jobim e Chico Buarque (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br/

 

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Samba da dupla Romildo Bastos-Toninho Nascimento, um dos sucessos do sétimo LP de Clara Nunes, “Alvorecer” (Odeon, 1974). Ainda seria o lado B do compacto simples n. S7B-793, e faixa de abertura do duplo S7BD-1303 (ouça adiante!). Uma das melhores interpretações da eterna guerreira, “Conto de areia” é lembrado até hoje, e com justiça. Direitos fonográficos reservados à Universal Music International Ltda. ISRC: BREMI-7400009.

Extraído de Samuel Machado Filho

Clara Nunes & Coro(1974)

 

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Ninguém melhor que o próprio autor, Toninho Nascimento, para descrever “A canção contada

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