Disparada

Theo de Barros & Geraldo Vandré

Em 1966, o compositor Geraldo Vandré participou vitoriosamente de três grandes festivais musicais promovidos pela televisão: em junho, foi 1° lugar na ‘TV Excelsior’, com “Porta estandarte” (parceria de Fernando Lona); em outubro, tirou o 1º lugar na TV Record, com “Disparada” (parceria de Téo de Barros); e ainda em outubro, ficou em 2° lugar na TV Rio (1° Festival Internacional da Canção), com “O cavaleiro” (parceria de Tuca).

Dessas três composições, a de maior repercussão seria inegavelmente “Disparada”, a mais vigorosa canção de protesto surgida até então, um verdadeiro cântico revolucionário. Musicado por Téo sobre uma versalhada que Vandré havia escrito durante uma viagem, “Disparada” é uma moda-de-viola com sotaque nordestino. “A intenção era compor uma moda-de-viola baseada no folclore da região Centro-Sul, porém nossas raízes se infiltraram no processo e resultou uma catira de chapéu de couro”, esclarece Téo na contracapa de seu primeiro elepê.

Para apresentar “Disparada”, os autores escolheram Jair Rodrigues, então no auge da popularidade, entregando o acompanhamento ao Trio Novo — Téo (viola), Heraldo do Monte (violão) e Airto Moreira (percussão) — reforçado pelo Trio Marayá. O Trio Novo atuou na eliminatória e na gravação de estúdio, mas não pôde participar da final (por já ter compromisso agendado para a data), sendo os seus músicos substituídos por Aires (viola), Gianulo (violão) e Manini (percussão) (veja e ouça adiante!).

Mas nas duas fases o resultado foi excelente, com a canção sendo ruidosamente aclamada pela facção mais politizada da plateia — principalmente em trechos como “Mas o mundo foi rodando / nas patas do meu cavalo / e já que um dia montei / agora sou cavaleiro / laço firme, braço forte / de um reino que não tem rei…” — que rivalizava em número e entusiasmo com os partidários de “A banda”. Em vista disso, embora “A banda” tenha ganho pelos votos dos jurados, a direção da Record resolveu considerar as duas concorrentes empatadas na primeira colocação, a fim de evitar um confronto entre os torcedores.

Uma nota pitoresca na apresentação de “Disparada” foi a utilização de uma queixada de burro como instrumento de percussão. A novidade, descoberta por Airto Moreira numa loja em Santo André, emprestou maior rusticidade ao acompanhamento, além de evocar uma visão forte da seca (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br

 

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Geraldo Vandré, 80 anos, e uma história cheia de mistérios

Vitor Nuzzi em 12/09/2015

A música é “Disparada”, parceria de Vandré com o violonista Theo de Barros, nascida durante uma viagem a Catanduva, no interior paulista, em 1966. “Ele pegou a música caipira, juntou Guimarães Rosa e fez uma coisa completamente nova. Como obra de arte, “Disparada” talvez seja a música mais perfeita que o Brasil já produziu”, declarou, em depoimento, o jornalista e pesquisador Alberto Helena Jr., um dos primeiros a ouvir a canção.

Foi o primeiro e único caso de empate na chamada era dos festivais. Naquele 1966, “Disparada” e “A banda”, de Chico Buarque, foram declaradas vencedoras no concurso da TV Record. Na verdade, “A banda” havia vencido, mas o próprio Chico exigiu o empate, por considerar – até hoje – que “Disparada” era melhor. A canção foi defendida por Jair Rodrigues, em interpretação épica, mas que antes de acontecer foi vista com certa desconfiança por Vandré, por considerar Jair muito brincalhão. O primeiro encontro entre eles foi ríspido, mas depois de vê-lo cantando o autor deu um abraço de “quebrar ossos” no intérprete.

Extraído de http://www.redebrasilatual.com.br

 

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“Disparada” é uma canção escrita por Geraldo Vandré e Théo de Barros e interpretada por Jair Rodrigues, acompanhado do Trio Maraiá e do Trio Novo (ouça adiante!). Uma das principais composições da época dos festivais de música popular brasileira, foi a vencedora do Festival de Música Popular Brasileira em 1966, dividindo o primeiro lugar com “A banda” de Chico Buarque de Holanda, quando houve verdadeira “disputa com apostas” em todo o país entre os adeptos de uma e outra composição. A canção foi gravada em língua francesa pela cantora Frida Boccara, sob o título de “Taureau“.

O compositor Geraldo Vandré, nascido na Paraíba mas educado no Rio de Janeiro, vivenciou todo o período do golpe militar de 1964 ainda muito moço e ligado aos meios estudantis do Rio de Janeiro; era época de nacionalismo exacerbado quando os jovens com um pouco de cultura e sensibilidade não se conformavam com as injustiças sociais imperantes no Brasil; os meios musicais e literários, lideranças intelectuais do país, não estavam imunes aos movimentos sociais visando melhorias para as camadas mais pobres da população.

Geraldo Vandré participante dos movimentos estudantis também deu sua contribuição com composições muito significativas como “Disparada” e “Pra não dizer que não falei das flores”, consideradas duas obras primas entre as músicas de cunho social.

Em “Disparada”, Vandré faz uma comparação entre a exploração das classes sociais pobres pelas mais ricas e a exploração das boiadas pelos boiadeiros, entre a maneira de se lidar com gado e se lidar com gente. A música composta por Vandré e Théo de Barros complementou de forma perfeita os versos de Vandré e a interpretação de Jair Rodrigues deu forma final muito bonita aos versos e à música. Logo após os anos de ouro dos festivais Geraldo Vandré isolou-se dos amigos passando a viver espartana e isoladamente; Théo de Barros continuou sua brilhante carreira de músico e arranjador, tendo se dedicado principalmente a jingles comerciais.

Extraído de https://pt.wikipedia.org

Jair Rodrigues & Trio Novo & Trio Maraya(1966)

 

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Análise da música Disparada (1966) – Geraldo Vandré

Por Roniel Sampaio Silva*

Contexto Histórico:

As músicas de Geraldo Vandré fazem parte de uma Brasil marcado pela contracultura juvenil num contexto de contestação política, perseguições, anseios de mudança, num mix de medo e esperança. É impossível desvincular a música Disparada (1966) ao contexto do golpe civil-militar daquela período.

Em linhas gerais, a música se refere a histórico de êxodo rural em que os jovens filhos das elites rurais buscavam de estudos nos grandes centros urbanos. Assim, estes passaram a dialogar mais com outros jovens e conhecer as ideias progressistas que desencadearam um projeto estrutural de mudança o qual não era bem visto pelos setores conservadores:

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar

Pode ser vista também como a experiência particular de Jango que teve irmãos e pai vítimas de enfermidade logo na juventude. A música também pode fazer alusão ao contexto de perseguição de jovens da época e a resistência dos transgressores do regime militar que não se intimidavam com as prisões, torturas e militaram juntamente com os movimentos sociais em favor das reformas de base:

Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo prá consertar

É possível que o protagonista da música seja o presidente Jango, filho de família rica passa a capitanear as terras do pai quando este falece:

Na boiada já fui boi, mas um dia me montei
Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu

Como chefe das propriedades rurais do pai, passou a tornar-se homem influente na região antes dos anos 1930. Ingressou na política logo após a renúncia de Vargas que era amigo pessoal de seu pai, Vicente Vargas. O trecho abaixo revela a habilidade de Jango em lidar com a política e com os negócios. A metáfora da “visão se clareando” pode fazer alusão à percepção de Jango sobre os problemas pontuais da nação naquela época. Foi então que se lançou candidato à vice-presidência da República. Com sua ascenção ao poder, seus sonhos de governar o país e implantar seus projetos de nação foram frustrados pelo golpe de 1964:

Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente, pela vida segurei
Seguia como num sonho, e boiadeiro era um rei
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando
As visões se clareando, até que um dia acordei

Mesmo com seus projetos estruturais e suas contribuições marcantes para consolidação dos direitos sociais no Brasil, havia uma conspiração para tirá-lo do poder, em razão de Jango reconhecer algumas das bandeiras dos movimentos sociais. Infelizmente Jango não conseguiu reconhecimento das suas reformas de base juntas camadas médias da população brasileira…”não pude seguir valente em lugar tenente” . Com o golpe, Jango teve que buscar o exílio e “cantar noutro lugar”:

Então não pude seguir valente em lugar tenente
E dono de gado e gente, porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente
Se você não concordar não posso me desculpar
Não canto prá enganar, vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar

Pra mim há uma forte alusão à destituição do Presidente Jango, um país sem um governante eleito pelo povo e usurpado por forças civil-militares:

Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém, que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu querer ir mais longe do que eu

Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
já que um dia montei agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte num reino que não tem rei

*Reconheço que a canção têm múltiplas interpretações e essa é apenas uma interpretação baseadas na história do Brasil e na biografia dos personagens. A análise feita aqui foi aprofundada a partir de análise feita por  Hyago em 9 de dezembro de 2011 no site http://analisedeletras.com.br

Extraído de http://cafecomsociologia.com/

 

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Vandré não queria Jair Rodrigues cantando ‘Disparada’

Para o compositor, a alegria do cantor era inadequada para a música; interpretação foi seu maior sucesso

08 de maio de 2014

A energia, alegria e os movimentos no palco de Jair Rodrigues, morto aos 75 anos, quase tiraram do cantor a chance de interpretar ‘Disparada’ no Festival de Música Brasileira em 1966. Geraldo Vandré, compositor da letra, não queria que Rodrigues interpretasse uma composição que conta o despertar da consciência de um vaqueiro do sertão. “…mas o Jair vai cantar esse negócio rindo …” disse Vandré.

O Estado de S. Paulo – 11/10/1966

Jair Rodrigues não só a interpretou como também levou o prêmio de melhor intérprete do festival, e a música foi o maior sucesso de sua carreira. No festival de 1966, ‘Disparada’ dividiu o primeiro lugar junto com ‘A banda’ de Chico Buarque.

Dias depois do sucesso da música e de sua interpretação, Jair Rodrigues deu entrevista ao ‘Jornal da Tarde’ e explicou porque era o cantor ideal para ela: “Meu pai morreu no lombo de um burro. Ele era boiadeiro, o velho Severiano Rodrigues de Oliveira. Acho que o ‘Disparada’ tem muita coisa a ver com ele’. A história dele com ‘Disparada’ é um dos casos clássicos em que música e cantor se tornam indissociáveis.

Bananeira. A preocupação de Vandré até que não era desproposita. A irreverência do cantor era conhecida por todos no palco e nos bastidores da música. Além do gestual, estava sempre vestido com roupas coloridas, e era visto por alguns como artista específico para shows ao vivo. Para aumentar a desconfiança, vivia plantando bananeira como está registrada numa foto feita durante a gravação do disco ‘Disparada’ em 1966.

Extraído de http://acervo.estadao.com.br/

 

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No Festival de 66, empate de ‘A banda’ e ‘Disparada’, na voz de Jair Rodrigues

Música de Chico, interpretada por Nara Leão, e canção de Vandré foram as vencedoras

Gustavo Villela

Em 05/06/16

Outubro de 1966. No dia 10, uma segunda-feira, o Brasil submetido pela ditadura a eleições indiretas para presidente da República era também de aplausos na noite do Teatro Record em São Paulo. Com o teatro superlotado e um público de milhares de pessoas, muitas aglomeradas em ruas próximas, o ‘Festival da Música Popular Brasileira’ chegava à finalíssima.

O vozeirão e o carisma do cantor Jair Rodrigues ajudaram o improvável virar realidade. Defendida por Jair, “Disparada”, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, empatou com a popularíssima “A banda”, de Chico Buarque, interpretada por Nara Leão. As duas músicas vencedoras, desde o início do festival, atraíam a simpatia de todo o público, mas “A banda” era a preferida, a ponto de o disco sumir das lojas do Rio de Janeiro em poucas horas, no dia seguinte à decisão dos jurados.

O júri, composto por nomes como Júlio Medalha, Mario Lago, Paulo Vanzolini e César Camargo Mariano, deu outro prêmio a Jair Rodrigues. O ex-crooner de boates de São Paulo foi escolhido o melhor intérprete do festival. Já o prêmio O GLOBO de melhor letra ficou com Caetano Veloso, para a canção “Um dia”, interpretada por Maria Odete.

Eclético nas suas mais de cinco décadas de carreira, Jair Rodrigues transitou por várias vertentes da MPB, do samba-enredo e da bossa nova até as serestas. Depois do sucesso de interpretações dos primeiros sambas e dos festivais da canção, Jair Rodrigues nos últimos anos incluiu no repertório novas experiências. Parceiro de Elis Regina em vários sucessos, incluindo o programa “O fino da bossa”, na TV Record, ele se aproximou do sertanejo, sempre conquistando plateias.

Para músicos e pesquisadores, o cantor, morto aos 75 anos em 8 de maio de 2014, é considerado uma espécie de “pai do rap”. Com seu estilo brincalhão e a irreverência de um showman, o título vem da gravação original do samba “Deixa isso pra lá”, hit lançado em 1964 e inspirador da nova geração.

Extraído de http://acervo.oglobo.globo.com/

Tags: disparada / Jair / Marayá / novo / Theo / vandre /
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