Drão

Gilberto Gil

Essa música foi composta em 1981 por Gilberto Gil. A letra trata de uma confissão, uma busca por perdão dos erros cometidos e uma reflexão do então relacionamento que havia terminado. Gil foi casado durante 17 anos com Sandra Gadelha, com ela teve três filhos, Pedro, Preta e Maria. Sandra é irmã de Dedé, primeira mulher de Caetano Veloso. Desde os 14 anos de idade que Sandra era chamada carinhosamente por Maria Bethânia e demais pessoas do seu círculo de amizades e familiares pela alcunha de “Sandrão” ou “Drão”, daí temos o significado do título da música e a interpretação do mesmo acaba tendo maior clareza.

Gilberto Gil tinha acabado de se separar de Sandra quando começou o processo de composição da letra. O próprio cantor afirmou que a letra foi pra ele muito difícil por se tratar de um tema denso, o amor e o desamor, a questão do rompimento em si e o final de um casamento de tanto tempo. Ele mesmo se perguntava como iria conseguir transmitir numa letra tantas coisas. Nessa belíssima composição de Gil, uma letra autobiográfica e mais do que isso confessional e de eu lírico arrependido, ele consegue transmitir em cada verso seu sentimento naquele exato momento conturbado de separação.

Na primeira estrofe Gil faz um paralelo e jogo de palavras fantástico entre Drão e grão, usando posteriormente para criar uma metáfora entre o amor sendo uma semente, que tem de morrer (ser enterrada) para germinar, termina ainda numa neologia “caminhadura” que se trata de uma referência a caminhada dura e árdua de um longo relacionamento e também um belo arranjado de palavras para citar a cama de tatame que os dois dormiam no começo de namoro, a “caminha dura”. A segunda estrofe traz o autor mostrando à sua ex mulher que o verdadeiro amor se estende ao infinito, que não haja a separação de almas propriamente dita, onde cita que arquitetura do amor deles é como se fosse um imenso monólito (estrutura geológica a partir de uma só rocha), cita novamente a palavra “caminhadura” e acompanhado de “pela vida afora”. Sandra era sua companheira na época do exílio em Londres, pós o AI5 do período ditatorial brasileiro.

Fechando a música vem a terceira estrofe onde Gilberto Gil fala dos meninos sãos (bens de saúde), os três filhos que teve com Sandra, e num momento de arrependimento dos possíveis erros cometidos se auto julga culpado pelo fim do casamento e que realmente não há o que perdoar, que apenas ele espera dela compaixão pelos seus pecados. Ao final ele deixa uma mensagem que serviu não só para Sandra, mas para todas as pessoas que passam por um fim traumático, numa nova metáfora com grão e o amor, Gil coloca com simplicidade que o amor, assim como uma semente de trigo, morre para assim germinar e ao viver pode ser transformado em pão, uma bela analogia da vida onde o sentimento amoroso é eterno e acaba se transformando com o passar dos anos.

Extraído de http://lounge.obviousmag.org/

 

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Drão – a bela música de separação contada por seus protagonistas

Quando me perguntaram certa vez sobre músicas de separação, as duas que me apareceram foram de Chico: “Eu te amo” e “Trocando em miúdos”. Duas músicas belíssimas, pungentes, contém frases como “se confundimos tanto as nossas pernas, diz com que pernas eu hei de partir”, na primeira, ou “não vou lhe cobrar pelo seu estrago, meu peito tão dilacerado”, na segunda. Mas há um outro lado da moeda. Um desatar de um casamento não como mágoa ou desamor, mas como um amor que muda…

Ainda criança, ouvia “Drão”, de Gil, e a música não me dizia nada. “Drão” foi o apelido dado por Maria Bethânia para Sandra Gadelha, que, na época da composição da música, estava se separando de Gilberto Gil. A música fez mais de 30 anos e continua universal. Hoje, percebo ser uma das mais belas músicas de separação já escritas. Escrita para desmentir a história que a separação é o fim do amor e o começo de desamor, mas de um amor que se transforma e se eterniza.

Por isso mesmo, quis juntar, numa música de separação, os depoimentos de Gil e de Sandra sobre a música e a época. E agradecer aos dois por serem musa e artista de uma das mais belas canções de Gil.

Gilberto Gil, em “Todas as letras” (Cia das Letras, 2000), diz: “Sua criação apresentou altos graus de dificuldades porque ela lidava com um assunto denso – o amor e o desamor, o rompimento, o final de um casamento; porque era uma canção para Sandra [apelido de de Drão – daí o título de música] – e para mim. ‘como é que eu vou passar tantas coisas numa canção só?’, eu me perguntava.”

Sandra Gadelha, como inspiradora da canção, conta a história de como Gil lhe mostrou a música, numa reportagem da revista Marie Claire: “Desde meus 14 anos, todo mundo em Salvador me chamava de Drão. Fui criada com Gal [Costa], morávamos na mesma rua. Sou irmã de Dedé, primeira mulher de Caetano. Nossa rua era o ponto de encontro da turma da Tropicália. Fui ao primeiro casamento de Gil. Depois conheci Nana Caymmi, sua segunda mulher. Nosso amor nasceu dessa amizade. Quando ele se separou de Nana, nos encontramos em um aniversário de Caetano, em São Paulo, e ele me pediu textualmente: ‘Quer me namorar?’. Já tinha pedido outras vezes, mas eu levava na brincadeira. Dessa vez aceitei.

Engraçado que Gil mesmo não me chamava de Drão. Antes havia feito a música ‘Sandra’. Já ‘Drão’ marcou mais. Estávamos separados havia poucos dias quando ele fez a canção. Ele tinha saído de casa, eu fiquei com as crianças. Um dia passou lá e me mostrou a letra. Achei belíssima. Mas era uma fase tumultuada, não prestei muita atenção. No dia seguinte ele voltou com o violão e cantou. Foi um momento de muita emoção para os dois.

Nos separamos de comum acordo. O amor tinha de ser transformado em outra coisa. E a música fala exatamente dessa mudança, de um tipo de amor que vive, morre e renasce de outra maneira. Nosso amor nunca morreu, até hoje somos muito amigos. Com o passar do tempo a música foi me emocionando mais, fui refletindo sobre a letra. A poesia é um deslumbre, está ali nossa história, a cama de tatame, que adorávamos. No começo do casamento moramos um tempo com Dedé e Caetano, em Salvador, e dormíamos em tatame. Durante o exílio, em Londres, tivemos de dormir em cama normal. Mas, no Brasil, só tirei o tatame quando engravidei da Preta e o médico me proibiu, pela dificuldade em me levantar.

A primeira vez em que ouvi ‘Drão’ depois que Pedro, nosso filho, morreu [num acidente de carro em 1990, aos 19 anos] foi quando me emocionei mais. Com a morte dele a música passou a me tocar profundamente, acho que por causa da parte: ‘Os meninos são todos sãos’. Mas é uma música que ficou sendo de todos, mexe com todo mundo. Soube que a Preta, nossa filha, chora muito quando ouve ‘Drão’. Eu não sabia disso, e percebi que a separação deve ter sido marcante para meus filhos também. As pessoas me dizem que é a melhor música do Gil. Djavan gravou (Confira em ‘Qual Delas ?’), Caetano também. Fui ao show de Caetano e ele não conseguia cantar essa música porque se emocionava: de repente, todo mundo começou a chorar e a olhar para mim, me emocionei também. E, engraçado, Caetano é o único dos nossos amigos que me chama de “Drinha”.”

Vale a pena escutar….(veja e ouça adiante!).

P.S. Eu podia aqui divagar sobre o “catar feijão”de João Cabral de Melo Neto no processo criativo e falar sobre o elemento confessional na criação artística. Mas isso fica para outra viagem…

Fontes: Gilberto Gil. Todas as Letras (Org. Carlos Rennó). 2ª Ed, Cia das letras, 1996.

Extraído de http://musicaemprosa.musicblog.com.br/

Gilberto Gil & Yamandu Costa ao vivo(2010)

Tags: Drão / Gadelha / Gil / Sandra / Sandrão / Yamandu /
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Ana paula disse:

Eu pensei que fosse cama de tatame pelas brigas. Rs

Hannak disse:

Realmente Drão é a história do amor entre duas almas que se eternizam além do arco iris linda postagem maravilhosa….

Nea disse:

Linda reportagem

Polliana máximo Queiroga disse:

Uma música que emociona e comove, mediante a sua história!

Mana disse:

Tenho meu Drão e Gil soube manifestar magistralmente o que se passa na nossa alma por isso dedico a ele um reconhecimento eterno.

VALMIR SATURNINO DE ARAUJO disse:

Quis entender essa música. Existem tantas canções que ouvimos e gostamos em parte sem entender o todo. Busquei o significado na net e me emocionei ao ler na página “A canção cantada”. O amor que se transforma após a separação…