Folhas secas

Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito

Façamos um pequeno parêntese e escutemos o trecho de um samba de Nelson Cavaquinho. Chama-se “Folhas secas”:

‘Quando eu piso em folhas secas / Caídas de uma mangueira / Penso na minha escola / E nos poetas / Da minha estação primeira / Não sei quantas vezes / Subi o morro cantando / Sempre o sol me queimando / E assim vou me acabando’.

Ao pisar em folhas secas caídas de uma mangueira, folhas mortas, dispostas na terra, o poeta pensa na sua morada, na Mangueira. Ali, junto a terra, e resultado da mesma terra, encontram-se as folhas secas da mangueira. Ao pisá-las, o poeta pensa na sua morada, isto é, traz novamente a sua morada enquanto lugar de realização de sua poesia, de seu samba. Isto só foi possível porque as folhas secas estavam junto a terra. Somente junto a terra, comprimindo as folhas, é que o poeta convoca mais uma vez sua morada. Estando agregado a terra o poeta mais uma vez se faz poeta, invocando sua morada. Mas ainda nos diz o poeta:

‘Subi o morro cantando / Sempre o sol me queimando’.

Ao subir o morro cantando, declamando sua poesia, habitando poeticamente e construindo sua morada, o poeta é tomado pelo calor do sol. Queimando, curtindo a pele, suportando o calor: assim o poeta canta seu samba. Do céu vem o aceno dos deuses, através dos raios solares, que esturricam o homem, cortando-lhe a pele. Do céu também vêm as tempestades, que alagam as ruas e arrastam os casebres e barracos. E eis que a resposta do poeta frente ao divino é cantar seu samba, construindo sua morada. Cantar, para o sambista, é superar a dor proporcionada pelo apelo do divino (“Nossos barracos são castelos / Em nossa imaginação” !?). Rasgando o corpo, o divino nos impõe uma dificuldade, uma nova possibilidade. No entanto, o poeta recebe essa dificuldade como um presente, e tenta, no esforço de retribuir, nomear os deuses, para assim estar disposto novamente ao presente divino. Assim é o movimento de dar, receber e retribuir.

Extraído de “O poeta e sua morada: notas de um samba de Nelson Cavaquinho”, de Carlos Augusto Santana Pereira

 

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Foi a primeira que eu gravei dele. Inclusive é a que abre o disco e também tem mais um motivo: depois que gravei essa música, ele me deu um cavaquinho dele de presente. Até então essa música era inédita (ouça adiante!).

Extraído de entrevista dada por Beth Carvalho

Beth Carvalho(1973)

 

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Nos sambas essa relação de pertença a um lugar aparece de forma explícita, como no samba “Folhas secas”, que é especial na obra do Nelson Cavaquinho e do Guilherme de Brito, seu parceiro, onde a morada é uma escola de samba, localizada em um morro específico, a Mangueira, que é o seu lugar onde a experiência da vida está ligada ao passado, ao presente e ao futuro. “Quando piso em folhas secas / Caídas de uma mangueira / Penso na minha escola / E nos poetas da minha Estação Primeira / Não sei quantas vezes / Subi o morro cantando / Sempre o sol me queimando / E assim vou me acabando / Quando o tempo avisar / Que eu não posso mais cantar / Sei que vou sentir saudades / Ao lado do meu violão / Da minha mocidade.” Aqui a morada é um lugar, uma comunidade que evoca, traz sentimentos, lembranças. Neste samba notamos que há a percepção da vida como um ciclo de eterno recomeços em meio às labutas diárias e encontros. As coisas são sinais; as aparências (folhas secas de uma mangueira lembrando a Escola de Samba símbolo do Brasil, por exemplo) revelam significados profundos, histórias, sentimentos, laços. Por um lado este samba vai mostrar a realidade do sinal, a percepção dessas folhas que caem e que quando pisadas o autor vai tomando contato com as lembranças que fazem-no rememorar fatos da vida. É uma espécie de maravilhamento diante do real que vai gerando uma relação de pertença àquele lugar. Por outro lado, o samba apresenta uma visão que valoriza a sacralidade do lugar, onde a realidade é percebida como provedora.

Extraído de José Eduardo Ferreira Santos.

 

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Neste samba, Nelson e Guilherme esquecem as tragédias do amor para homenagear sua querida Mangueira, ligando-a a uma reminiscência da juventude: “Quando piso em folhas secas / caídas de uma mangueira / penso na minha escola / e nos poetas de minha Estação”. Não abandonam, porém, a amarga obsessão pelo “fim”, tantas vezes presente em suas canções: “Quando o tempo avisar / que eu não posso mais cantar / sei que vou sentir saudade / ao lado do meu violão / da minha mocidade…”

Um dos grandes sambas da dupla, “Folhas secas” foi feito para Beth Carvalho, segundo Brito, que conta: “para nossa surpresa, o arranjador César Camargo Mariano levou a música para a Elis Regina (confira em ‘O tempo não apagou’) e as duas gravações saíram na mesma ocasião, quebrando o ineditismo da Beth.” (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jaime Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br/

 

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A música “Folhas secas” é uma composição de Nelson Cavaquinho, Nelson Antonio da Silva (1911- 1986) e Guilherme de Brito (1922-2006). É uma música predominantemente passional, fato intensificado pela interpretação de Elis Regina e, em menor grau, pela interpretação dos autores. Há, na interpretação de Elis Regina, uma clara desaceleração da canção, seu andamento é mais lento do que aquele que normalmente lhe é imprimido.

A canção fala da perda da mocidade e de suas consequências para o poeta: a impossibilidade de cantar e de celebrar a sua amada escola ‘Estação Primeira de Mangueira’, falando a primeira parte efetivamente do momento atual em que a velhice ainda não chegou definitivamente (embora o tom geral da canção possa levar a pensar que ela está próxima).

As folhas secas da árvore homônima em que provavelmente esteja pisando o poeta enquanto entoa a canção, fazem-no lembrar das muitas vezes em que “subiu” o morro de Mangueira.

Esteve presente na trilha sonora das novelas “Louco Amor” (1983 -Elis Regina), “O Homem Proibido” (1982 -Elis Regina)

Extraído de http://museudacancao.blogspot.com.br/

 

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Em “Folhas secas” (‘Todas as coisas e eu’, 2003) Gal Costa empresta sua voz à memória afetiva de um sujeito que, visionário, pensa no momento em que o tempo (tambor de todos os ritmos) avisará que o sujeito não pode mais cantar (confira em ‘O tempo não apagou’).

A canção de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, de viés, resgata nossa tradição sonora, pois presta digna homenagem àqueles cancionistas que saem de cena: seja pela imposição mercadológica, seja pela força do tempo (compositor de destinos).

A imagem desenhada na letra – de alguém (o eu da canção) pisando em folhas secas, caídas de uma mangueira, que lhe remete ao fulgor da sua Estação Primeira – apresenta o tempo (tão inventivo) que corre: o sujeito está no outono (folhas caindo); pensando na primavera (mocidade e vigor da Estação Primeira) e no verão (sempre o sol lhe queimando); e vislumbrando o inverno (o silêncio de sua voz ao lado do violão companheiro).

A idade (maturidade) do sujeito e a perspectiva do tempo (senhor tão bonito) se misturam para cantar o canto que se movimento para o silêncio.

O arranjo de Eduardo Solto Netto investe na cadência lenta e compassada, diferente do que deve ter sido a vida do sujeito, quando subia o morro e cantava com os poetas da sua escola. A voz de Gal auxilia na construção da imagem do sujeito grávido de saudade, mas que ainda tem voz para cantar.

A repetição melancólica de Gal para o verso “e assim vou me acabando”, que indica o fim da canção “Folhas secas”, simboliza também o fim do canto do sujeito: o fechamento de um ciclo de vida e, quiçá, a entrada do sujeito na memória afetiva dos ouvintes.

Muito se fala da falta de memória do brasileiro. De fato, basta, sem muito esforço, um olhar retrospectivo para perceber o quanto de importantes e decisivas figuras de nossa história estão esquecidas, mal guardadas nos livros de história. “Folhas secas” aponta isso ao mostrar que o tempo é contínuo: nosso passado é o que somos no presente. Se o presente é incapturável e o futuro é inexistente, como diria o sábio Tom Zé: “Tudo só se acha no passado”.

Extraído de http://365cancoes.blogspot.com.br

 

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