Influência do jazz

Carlos Lyra

Em setembro de 1961, Carlos Lyra fundou, juntamente com Oduvaldo Viana Filho, Ferreira Gullar e outros companheiros, o CPC (Centro Popular de Cultura) da ‘União Nacional dos Estudantes’. Na ocasião, o compositor começava a considerar a bossa nova apenas uma forma musical moderninha de repetir as mesmas coisas românticas de sempre.

Isso se refletiu em sua produção que, sem se afastar de todo do romantismo, passou a tomar contornos nacionalistas, a partir de composições como “Mister Golden”, “Canção do subdesenvolvido” e este surpreendente “Influência do jazz”, que questionava tendências observadas em sambas da época (“Pobre samba meu / foi se misturando, se modernizando / e se perdeu…”). Bem sincopado, o samba mesclava tradição e modernidade, lembrando sua melodia, propositalmente, canções americanas como “Indian love call”, da opereta “Rose-Marie” e “You were meant for me”, do filme “Cantando na chuva”.

“Influência do jazz” foi lançado pelo Tamba Trio (Luís Eça, Hélcio Milito e Bebeto)(ouça adiante!) num programa de Zé Trindade, transmitido aos domingos pela TV Rio. O motivo da presença do Tamba no programa cômico era que seus componentes estavam iniciando carreira e o pessoal da televisão arranjara aquela brecha no horário nobre para apresentá-los, embora o conjunto e a música nada tivessem a ver com o humor do Zé. Em seguida, “Influência do jazz” tornou se sucesso, sendo até executado duas vezes no famoso show de bossa nova no Carnegie Hall, por Lyra e o Quarteto de Oscar Castro Neves (ouça adiante!) (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br

Tamba Trio(1962)

Carlos Lyra & Quarteto de Oscar Castro Neves ao vivo(1962)

 

X.X.X.X.X.X.X

 

Carlos Lyra e a influência do Jazz
Djacir Dantas, em 31/05/2015

Carlos Lyra acaba de encerrar uma temporada em Nova Iorque. Durante 4 dias o músico, de 82 anos, se apresentou no Birdland, tradicional casa de jazz, na companhia de Marcos Valle. Carlos Lyra foi um dos maiores nomes da bossa nova, junto com João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Mas houve um breve tempo em que Carlos Lyra ensaiou um afastamento.

Quando o disco de João Gilberto “Chega de saudade” foi lançado provocou uma febre nos alunos de violão, todos querendo aprender a nova batida. Carlos Lyra e Roberto Menescal tinham uma academia de violão, que logo ficou lotada, com todos atrás da novidade. Carlos Lyra, além disso, era compositor de três das músicas do álbum, duas em parceria com Ronaldo Bôscoli (‘Lobo bobo’ e ‘Saudade fez um samba’) e uma totalmente dele (‘Maria ninguém’).

O grupo formado por Lyra, Bôscoli, Menescal, Nara Leão, Oscar Castro Neves, Luiz Eça e outros fazia shows, em bases amadoras, esperando a oportunidade de gravar um disco, conforme um contrato assinado com a Odeon, mas que a gravadora vinha protelando.

Um belo dia veio a surpresa. Carlos Lyra assinara um contrato, individual, com a Philips. Vários motivos foram apontados para a deserção de Lyra. Bôscoli achava que tinha sido por ciúmes dele. Bôscoli era o mais velho do grupo, jornalista bem relacionado e era, de certo modo, o porta-voz da bossa-nova. Uma posição de preeminência que Carlos Lyra, compositor, cantor e violonista não reconhecia como justa. O contrato da Philips seria, assim, uma afirmação do seu valor.

E havia a questão política. Militante de esquerda, Carlos Lyra foi um dos fundadores de CPC, o Centro Popular de Cultura, da UNE, junto com Ferreira Gullar, Oduvaldo Viana Filho, Leon Hirszman e outros. Foi o autor da “Canção do subdesenvolvido”, junto com Chico de Assis, no compacto da UNE que fez carreira nos diretórios acadêmicos e ajudou a financiar o teatro da UNE, que seria incendiado nos primeiros dias do golpe de 1964.

Lyra estava incomodado com “o amor, o sorriso e a flor”, o “é sol/é sal/ é sul” que caracterizavam a bossa nova e marcava o seu afastamento, dizendo que a partir daquele momento o que fazia era “sambalanço”, palavra que chegou a registrar. A bossa nova, disse, era apenas uma forma moderninha de dizer as mesmas coisas. A Philips fingiu concordar. Apenas fingiu, pois quando o disco foi lançado, o título foi ‘Bossa Nova Carlos Lyra’. O sambalanço foi arquivado e Carlos Lyra não protestou. Pelo menos de público. Nem devia, porque o que o disco trazia era as boas e conhecidas músicas dos shows de bossa nova de que Lyra participara.

A influência da bossa nova foi crescendo e impregnando uma leva de novos músicos. Grupos instrumentais foram se formando, principalmente sob a forma de trios: Tamba Trio, Zimbo Trio, Jongo Trio e muitos outros. E a formação desses trios eram geralmente piano, baixo e bateria. O formato ideal para interpretações com cunho jazzístico. O que ocorreu quase de imediato. Então, a sequência na execução das músicas era exposição do tema, improvisos e retorno ao tema para conclusão. Exatamente como no jazz.

Fato que pareceu desagradar a Carlos Lyra que compôs “Influência do jazz”, uma música em que denuncia essa, aos olhos deles, expropriação do samba. Daí a letra: “Pobre samba meu / Foi se misturando, se modernizando e se perdeu / E o rebolado cadê? Não tem mais / Cadê o gingado que mexe com a gente / Coitado de meu samba, mudou de repente / Influência do jazz. / Quase que morreu / E acaba morrendo, está quase morrendo, não percebeu / Que o samba balança de um lado pro outro / O jazz é diferente, pra frente, pra trás / E o samba meio morto, ficou meio torto/ Influência do jazz. / E o afro-cubano, vai complicando / Vai pelo cano, vai / Vai entortando, vai sem descanso / Vai, sai, cai… no balanço! / Pobre samba meu / Volta lá pro morro e pede socorro onde nasceu / Pra não ser um samba com notas demais / Não ser um samba torto pra frente pra trás / Vai ter que se virar pra se livrar / Da influência do jazz.”

Este samba-denúncia de Lyra estava muito mais para bossa nova do que para o samba tradicional. Segundo Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello (A Canção no Tempo), “lembrando sua melodia propositalmente canções como “Indian love call” e “You were meant for me.” A canção foi executada pela primeira vez pelo Tamba Trio, justamente um dos que que sofriam essa pretensamente perniciosa influência. O que foi de certo modo profético, pois a música se tornou uma das composições de Carlos Lyra mais executadas no mundo afora, exatamente por grupos de jazz. É que existe uma contradição intrínseca entre a letra e a forma da música.

Um samba-jazz para denunciar a influência do jazz na bossa nova
Em 1964, veio o golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil. Carlos Lyra perdeu seu posto na Rádio Nacional e sua posição política não o deixava em posição privilegiada. Resolveu deixar o Brasil por algum tempo. Para onde? Para a pátria do jazz, os Estados Unidos. Lá se juntou ao grupo jazz de Stan Getz, com quem excursionou por vários países, em companhia de Chick Corea e Gary Burton. Como os americanos, japoneses, etc. não conhecem o português, ‘Influência do Jazz’, agora Jazz Influence, foi provavelmente ouvida como sendo um preito de admiração ao gênero.

Carlos Lyra voltou para o Brasil em 1971 e mora hoje no bairro de Ipanema. Nunca mais fez o mesmo sucesso do tempo da bossa nova. Daquele tempo para cá, fez terapia pelo método do grito primal e interessou-se por astrologia, chegando a publicar um livro sobre o assunto.

Reconciliado com a bossa nova, deixou para trás o “sambalanço”. Afinal, quem compôs ‘Minha namorada’, ‘Coisa mais linda’, ‘Marcha da quarta-feira de cinzas’ e, claro, ‘Influência do jazz’ tem todo o direito de descansar sobre os louros. Abandonou também a militância política. Diz ainda ser um admirador de Marx, mas não de Lênin, Stalin ou Fidel Castro. E convive com suas contradições ao se dizer “politicamente proletário, economicamente burguês e artisticamente aristocrata”.

Carlos Lyra não precisava se preocupar com a influência do jazz. O samba sobreviveu bem. Vamos ver se sobreviverá às hordas de músicas sertanejas, pancadões, pagodes, raps e funks que assolam a música popular brasileira já há algum tempo.

Extraído de http://blogs.portalnoar.com

 

X.X.X.X.X.X.X

 

Carlos Lyra e sua turma tinham preocupações sociais, acreditavam na música como instrumento de ação política, denunciavama jazzificação da bossa nova, criticavam sua americanização e “elitização” e buscavam as raízes populares na (re)descoberta de grandes sambistas cariocas como Cartola e Nelson Cavaquinho e de artistas populares nordestinos como Luiz Gonzaga, João do Vale e Jackson do Pandeiro. A sua “linha musical” basicamente seguia as ideias do Centro Popular de Cultura da UNE, do qual Lyra foi um dos fundadores e que reunia a fina flor da jovem esquersa carioca, de onde sairia boa parte do Grupo Opinião de teatro e do Cinema Novo.

“Pobre samba meu
foi se misturando, se modernizando e se perdeu
e o rebolado, cadê não tem mais…

e o samba meio torto, ficou meio morto,
influência do jazz…”
Reclamava Carlos Lyra em “Influência do jazz” com tanto talento e tão boa melodia, que a música acabou paradoxalmente se tornando um hit nos shows do Beco das Garrafas – a antítese do samba-social e reduto irredutível do samba-jazz -, onde recebeu exuberantes interpretações, naturalmente ultrajazzísticas. Coisas de Copacabana.

Extraído de Nelson Motta em “Noites tropicais”

Tags: Bossa / influência / Jazz / Lyra / Neves / Tamba /
  • Compartilhe:

Escreva um comentário:

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *