Mania de você
A carreira de Rita Lee entrou em ascensão a partir de sua parceria com o músico e compositor Roberto de Carvalho, com quem aliás se casou. Isso já começou a acontecer no primeiro elepê, que trazia seis composições da dupla, melodias de Roberto e letras de Rita, entre as quais “Chega mais” (que virou nome de telenovela) e “Mania de você”.
“Foi em cinco minutos que a gente fez ‘Mania de você’. A gente tinha acabado de transar, ele pegou o violão e eu o caderninho e começamos: ‘Meu bem, você me dá água na boca…”, afirma a cantora em seu Songbook. “Mania de você” é uma balada com uma levada latina, de melodia fácil, sensualizada por algumas imagens picantes e marcada pelo refrão: “Nada melhor do que não fazer nada / só pra deitar e rolar com você.” A voz caliente e dobrada de Rita — que também tocou as flautas do refrão — e o arranjo leve e gostosamente dançante, na linha “latin” de Henry Mancini do filme “Bonequinha de Luxo” (“Breakfast at Tiffany’s”) foram decisivos para o sucesso rápido da composição (ouça adiante!).
Considerando o seu trabalho anterior, vinculado ao rock, Rita Lee realizou na ocasião praticamente um crossover em sua carreira, ampliando a faixa etária de seu público nas duas extremidades, a das crianças e a dos quarentões. Daí a subida de patamar, à qual Roberto de Carvalho deu base e sustentação indispensáveis ao acabamento sofisticado de seu novo estilo (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).
Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br/
Rita Lee(1979)
X.X.X.X.X
“Mania de você” (Rita lee, 1979), de Rita Lee e Roberto de Carvalho, é declaração da realização do desejo. Suas imagens (todas) voltadas para a consumação carnal, porém, escondem algo que transcende: vai além do instante cantado: apontam para um promessa de felicidade, com dia seguinte.
Há uma pulsão de eterno retorno do momento a dois; há a vontade de romper regras; e há um desejo permanente diferenciação. Isso pode ser pinçado dos versos “vestindo fantasias, tirando a roupa”. Aqui há a sugestão de construção de um tempo/espaço próprio do sujeito e de seu bem: longe das convenções (roupas ordinárias) e dentro da imaginação (construção constante de fantasias), que sustenta a relação livre das ervas daninhas da mesmice e da rotina.
Mesmo distantes fisicamente, os amantes fazem amor por telepatia: basta deixar a imaginação (em comunhão), dos dois, rolar. Juntos eles são muitos, podem criar (por e tirar) a fantasia certa para cada segundo do encontro amoroso. Mania relacionada à loucura: ideia fixa.
Mas “Mania de você” deixa nas sublinhas sua parte mais bonita: “a gente faz amor na melodia” revela, não apenas o carater metacancional (daquela canção que canta a si mesma), como também a certeza de que o amor (carnal, ou além) é uma construção sonora: fictícia (confira em ‘O tempo não apagou’).
Ou seja, enquanto cantam (a vida a dois) os dois fazem amor e, ao mesmo tempo, enquanto fazem amor, os amantes cantam a vida para si: cantar e amar se interpenetram e se imbricam.
Aliás, é a melodia caliente e tropical que (também personagem da cena) intensifica o clima de delícias (salivas e suores) das personagens: elas derretem de calor do fogo que arde sem se ver: tudo lateja.
Isso é radical e belamente mostrado quando a voz de Rita Lee “dialoga” com os acordes da guitarra de Roberto de Carvalho: cantos e contracantos adensam o erotismo. Deixas e respostas, gemidos e sussurros (da voz da cantora e da “voz” da guitarra), sobre e justapostos, revelam o momento de alegria e de luxúria, em perspectivas do encontro da felicidade comum.
O ócio é o facilitador do deitar e do rolar (de corpos) das personagens. Corpos liquefeitos no desejo: desenhados a cada instante revelador de possibilidades e de posições afetivas.
Extraído de http://365cancoes.blogspot.com.br
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