Menino das laranjas

Theo de Barros

À primeira vista, o que chama à atenção na canção “Menino das laranjas”, de Theo de Barros, gravada por Elis Regina no disco “Samba eu canto assim” (1965) (ouça adiante!), é a convivência das três vozes que se fazem ouvir na letra: a do sujeito que observa o menino vendendo laranjas para sustentar a mãe solteira; a da mãe que manda o filho vender as laranjas; e a voz do próprio menino gritando e oferecendo sua mercadoria.

As justaposições (entradas e saídas de cena) de cada voz mais parecem a montagem de um filme que é projetado aos olhos do ouvinte. Elis consegue jogar com as três vozes da canção, sem perder a dramaticidade da cena apresentada.

O canto e o gesto vocal de Elis Regina (cria de Ângela Maria que, por sua vez, é cria de Dalva de Oliveira) são impecáveis e precisos durante a troca de personagens: respirações, pausas, acelerações e desacelerações, apoiados pelo arranjo melódico, dão beleza à vida cruel de um menino que, tendo sua infância minada, vende laranjas para sustentar a si e à família.

Vem a pergunta: quem se acaba é a feira; são as laranjas; ou é o próprio menino? O engajamento social da canção fica evidente na complexidade da ignorância da mãe que, mesmo sem ter condições de sustentar os rebentos, engravida.

São muitos os “meninos da laranja”, que apanham (da vida e da mãe) se não trouxerem o necessário para casa. Mas, se de fato só damos aquilo que temos, esta mãe (lavadeira das roupas do povo da cidade) não pode dar outra coisa ao filho senão o adensamento da crueldade da existência.

Cabe ao sujeito, cantor, ao narrar a história deste menino (que é muitos), denunciar e iluminar a vida do outro, pois, enquanto durar a canção, os ouvintes estarão atentos à verdade do garoto. A canção instiga o desassossego em quem ouve e, quem dera, incute desejos de mudança no quadro social.

Extraído de http://365cancoes.blogspot.com.br

Elis Regina((1964)

 

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“Lugar de criança é na escola”. Esse lema tem unido as centrais sindicais e os movimentos sociais, com o objetivo de erradicar o trabalho infantil. Muito tem melhorado em nosso país, mas ainda há muito o que fazer, pois a renda infantil torna-se complemento à baixa renda familiar. É disso que trata o poeta nesta música.

Extraído de http://www.memoriasindical.com.br

 

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Este foi o primeiro sucesso nacional de Elis Regina, e também marcou sua estreia na gravadora Philips, após dois LPs na Continental e outros dois na CBS. Lançada antes por Geraldo Vandré na “Audio Fidelity” sem sucesso em seu primeiro LP, sem título (Confira em ‘O tempo não apagou’), “Menino das laranjas” saiu neste registro de Elis em fevereiro de 1965, no compacto simples 365068-PB, e um mês depois incluída no primeiro LP da cantora na Philips (P632742L). Interpretação arrasadora e clássica!

O próprio Vandré. em depoimento a Zuza Homem de Mello, reproduzido no livro “Musica popular brasileira cantada e contada por…” (Melhoramentos, 1976) diz que a música não fez sucesso na voz dele. Deve ter sido lapso de memória…

Extraído de Samuel Machado Filho

 

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Menino das Laranjas
Caio Flávio em 30/08/2010

Quando meu querido amigo, Aldo Di Julho, excelente músico, compositor e intérprete, me apresentou a este projeto, “Guarumusic”, pensei que essa seria uma ótima chance para comentar muitos dos vários aspectos da carreira de músico profissional, que vivenciamos ao longo de muitos anos, acompanhando e gravando inúmeros artistas brasileiros, e toda mudança que a indústria fonográfica sofreu ao longo dos anos. As razões e motivos que ocasionaram as direções seguidas pela música popular, desde as primeiras gravações até os dias atuais.

Confesso que fiquei na dúvida se seguiria uma ordem cronológica ou seguiria abordando separadamente os diversos segmentos que transitam pela música popular, ou ainda se pinçariam fatos e acontecimentos que marcaram ou tiveram determinada importância dentro da chamada MPB . E assim pensando, lembrei do início de uma das maiores intérpretes que esse país já ouviu, e de quanto refletia a situação que vivíamos na época.

No mesmo ano de 1965, que a consagraria com o 1º lugar no Festival da TV Excelsior de São Paulo, com a música “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Morais, a Pimentinha como ela era chamada, gravou um compacto simples pela Cia Brasileira de Discos / Selo Philips, onde uma das músicas era “Menino das laranjas”, de Théo de Barros.
Retrato da realidade da época, a letra dessa música poderia ter sido escrita nos dias atuais, tão verdadeiros são seus versos ainda hoje, isso sem contar a interpretação marcante daquela que seria porta voz de intensas reivindicações feitas através da música.

Inegável a atualidade dos aspectos sociais retratados nessa letra. Junte-se a isso o imenso swing dado na interpretação vigorosa de Elis Regina. Corria o ano de 1965, hoje passados 45 anos, podemos traçar uma analogia dos dois períodos, não só politicamente, mas na força que as canções tinham de atuar como um farol sinalizador para as manifestações populares, que nos dias de hoje infelizmente, raramente acontece.

Extraído de http://guarumusic.com.br

 

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No programa “Brasil Sonoro” levado ao ar no dia 30/07/2016, pela E-Paraná – 97,1 FM e 630 AM, a canção “Menino das laranjas” foi por nós lembrada no quadro ‘QUAL DELAS ?’ (ouça adiante!).

 

 

 

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