Mulato calado

Marina Batista & Benjamim Batista(Wilson Batista)

“Mulato calado” consta como sendo de autoria de Benjamim e Marina Batista, esposa de Wilson Batista, a pedido do próprio. Tendo sido inclusive gravado por Aracy de Almeida (1947) (ouça adiante!) e Adriana Calcanhotto, entre outros, o samba retrata uma história dramática que exemplifica a realidade dos morros cariocas, ainda na década de 40. Revivida por Clementina de Jesus, em 1977, 30 anos depois de seu lançamento (confira em ‘O tempo não apagou’), apresenta integralmente personagens complexos do cotidiano brasileiro, acostumados a conviver com vida e morte na mesma sentença. “Vocês estão vendo aquele mulato calado, com o violão do lado, já matou um, já matou um…”.

Extraído de http://www.esquinamusical.com.br

Aracy de Almeida & Geraldo Medeiros e seu Conjunto(1947)

 

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‘Categorias raciais e gêneros musicais gravados no Rio de Janeiro dos anos 1930 e 1940′
Carlos Sandroni

Finalmente, em alguns sambas o mulato é louvado num tom que sugiro chamar de “conflitivo”. Nesses sambas, há inegável simpatia pelo personagem do mulato, mas essa simpatia não se liga ao amor e nem à representatividade nacional. Um exemplo maravilhoso é “Mulato calado”, de Wilson Batista, gravado por Aracy de Almeida em 1947:

“Você está vendo aquele mulato calado
Com um violão do lado
Já matou um, já matou um
Numa noite de sexta feira
Defendendo a sua companheira
A polícia procura o matador
Mas em Mangueira não existe delator
Me dou com ele, é o Zé da Conceição
O outro atirou primeiro, não houve traição
Quando a lua sumiu, terminou a batucada
Jazia um corpo no chão, mas ninguém
sabe de nada”.

O que gostaria de destacar na letra desse samba é a representação de uma solidariedade de grupo em torno do mulato e contra a polícia. É interessante notar que tal solidariedade é tanto mais forte quando os próprios ouvintes são incluídos nela. De fato, o narrador do samba nos transmite o segredo em torno do qual essa solidariedade é construída, ao apontar seu dedo para o matador, nos dois primeiros versos: “Você está vendo aquele mulato calado/ Com um violão do lado”. A palavra “aquele” é um dêitico demonstrativo, elemento da linguagem que, como mostrou brilhantemente Luiz Tatit (1986), é usado sistematicamente em canções populares com o objetivo de trazer a narrativa para o “aqui e agora”, como que forçando o ouvinte a interagir com ela. No caso, o narrador mostra, cantando, o “mulato calado” – aquele que não deve ser denunciado à polícia – ao ouvinte. Prova assim confiar nele, tornando-o, no mesmo gesto, mais um integrante da comunidade de Mangueira, onde não existe delator. A confiança ainda vai mais longe quando o narrador, no oitavo verso, pronuncia o próprio nome do matador (Zé da Conceição).

A solidariedade construída pelo samba entre seus ouvintes, o “mulato calado” e a comunidade de Mangueira (que bem pode ser tomada aqui como um representante metonímico de certo “povo brasileiro”) convive, porém, com a descrição de um conflito violento. Zé da Conceição atirou depois, a vítima atirou primeiro, a polícia atiraria se achasse o matador, e talvez mesmo sem achar atirasse também. Sambas “conflitivos” como esse existem em certa quantidade no período que nos ocupa (ainda não tenho estatísticas a oferecer).
Extraído de http://www.revistas.usp.br

 

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Para explicar como o samba, no início perseguido, se transforma em emblema do país, Sandroni acredita numa “estratégia conciliadora e não conflitiva”, ou como prefere “alguém que come pelas beiradas”. E essa ascensão social do samba não refletiu numa melhor qualidade de vida para a população de onde o estilo se criou. Como exemplo, Sandroni tocou um samba do Wilson Batista, ‘Mulato calado’, na voz de Aracy de Almeida, onde já nos anos de 30 se falava de – não me diga – um Estado dentro do Estado, no morro de Mangueira.

Extraído de http://semanadacancao.com.br

 

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Samba assinado por três Batistas: Wilson, Marina e Benjamin. Acompanhada por Geraldo Medeiros e seu conjunto, Aracy de Almeida o gravou na Odeon em 3 de fevereiro de 1947, com lançamento em março do mesmo ano, sob número de disco 12767-B, matriz 8183. Confira também o lado A, “Cidade do interior”. Direitos fonográficos reservados à Universal Music Ltda. ISRC: BREMI-4700011.

Extraído de Samuel Machado Filho

Tags: Batista / calado / Conceição / Mangueira / Mulato /
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Paulo Roberto Victer disse:

Samba muito interessante. Apesar de achar a voz da Aracy de Almeida pouco interessante, naquela época, era a voz feminina que cantava samba. A narrativa deixa claro que a vítima mereceu o que buscou, porque em Mangueira não existe delator.