Nunca

Lupicínio Rodrigues

Nunca” é um dos clássicos de Lupicínio Rodrigues, juntamente com “Vingança”, inspirados em Mercedes, também conhecida por Dona Carioca.

“Toda vez que uma mulher me trai, eu ganho dinheiro”, costumava dizer Lupicínio Rodrigues, afirmando que só escrevia sobre experiências vividas por ele ou por seus amigos. “As mulheres boazinhas nunca me deram dinheiro, só as que me traíram!”.

“O Som do Pasquim” (Ed. Desiderata, 2009) é um livro organizado por Tárik de Souza, reunindo algumas antológicas entrevistas que o pessoal do Pasquim, Ziraldo, Jaguar e Henfil, fez com cantores e compositores nos anos 70. Segundo Jaguar, “quando o jornaleco e a MPB estavam no auge, nem a Censura conseguia segurar!”.

Uma das entrevistas antológicas foi com Lupicínio Rodrigues, um dos cinco maiores compositores gaúchos de todos os tempos, que contou a história de uma série de suas canções. Lupicínio Rodrigues, pra quem não sabe, foi quem criou a expressão “dor de cotovelo”, sendo ainda responsável por classificá-las em dor de cotovelo federal (que só poderia ser curada com embriaguez total), estadual (suportável, que se ajeitava com o passar do tempo) e municipal (incapaz até mesmo de inspirar um samba).

Duas das músicas inspiradas numa “Dor-de-cotovelo Federal” são “Nunca” e “Vingança”, ambas inspiradas numa mesma mulher. Lupicínio Rodrigues contou ao pasquim a história:

Lupicínio: A mulher que me inspirou “Vingança” viveu comigo seis anos. E depois terminou namorando um garoto que era meu empregado, que tinha 16, 17 anos.

Pasquim: Foi passado pra trás por um garoto de 17 anos?

Lupicínio: Não foi bem assim. É que eu tinha viajado, ela mandou chamar o garoto. Disse que queria falar com ele. Ela mandou um bilhete. O garoto com medo de mim, quando eu cheguei, me entregou o bilhete. Disse: “Olha, a Dona Carioca me mandou esse bilhete. Eu não sabia o que ela queria comigo. Não fui!”. Entregou a mulher. Aí eu não disse nada, fiquei quietinho, inventei outra viagem, peguei a mala e fui embora.

Pasquim: Endoidou?

Lupicínio: Era época de carnaval, ela endoidou. Botou um “Dominó”. Dominó é aquela fantasia preta que cobre tudo. No carnaval, feito louca, foi me procurar. Uma certa madrugada, ela, num fogo danado – parece que deu fome, entrou num bar onde a gente costumava comer. Foi obrigada a tirar o “Dominó” pra comer, e o pessoal a reconheceu. Perguntaram: “Ué, Carioca, que você está fazendo aqui a essa hora? Cadê o Lupi?”.

Pasquim: Carioca por quê? Ela é carioca?

Lupicínio: É sim. Ela é viva, mora aqui. Aí ela começou a chorar. Eu estava num restaurante do outro lado. Uns amigos chegaram e me disseram: “Ô, encontramos a Carioca vestida de ‘Dominó’, num fogo tremendo. Começou a chorar e perguntar por ti. O que houve, vocês estão brigados?”. Aí foi que eu fiz “Vingança”. Na mesma hora, comecei, saiu (cantando): “Gostei tanto, tanto, quando me contaram…”

Pasquim: Foi uma ruptura pra valer?

Lupicínio: Eu sou muito amigo dos pais de santo, os batuqueiros lá de Porto Alegre. Em cada lugar que chegava ela botava fotografia minha, cabritas, aquele negócio todo para fazer as pazes. Aí eu fiz (canta) “Nunca, nem que o mundo caia sobre mim / Nem se deus mandar nem mesmo assim.”

Pasquim: O que essa mulher contribuiu para a Música Popular Brasileira não foi normal.

Quem ouve “Nunca” e “Vingança” percebe o quanto são canções amargas, de mágoa e desamor.

“Nunca” relata aquele que sofreu por amor e se recusa a perdoar, pois a perda da ilusão faz sepultar o coração… mas ao final recorre à saudade, como mensageira de um amor que o eu-lírico insiste em dizer que é passado (como foi sincero o meu amor / como eu a adorei, tempos atrás) mas que se confessa presente no final.

Extraído de http://www.eternasmusicas.com/

 

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Lupicínio Rodrigues é um cancionista que transita pela dor de cotovelo, aliás, como sugere o título do afetuoso livro da Rosa Dias: Lupicínio e a dor de cotovelo. Lupicínio dá voz a sujeitos que não negam a verdade da porção passional humana.

Daí, sem dúvidas, sua recepção com o público, pois, como Augusto de Campos afirmou: “para sua música-verdade, Lupicínio descobriu também uma voz-verdade”. Há na performance vocal do cantor, na gestualidade de sua voz, algo que confere verdade ao que é dito, afastando-se do mero pieguismo forçado e se aproximando de sentimentos “reais” porque passíveis de ser experimentados por qualquer ouvinte, qualquer humano.

De fato, com letras carregadas daquele tipo de paixão que não teme dizer as loucuras que faz para ver o outro feliz, Lupicínio toca os sentidos invisíveis, mas sem perder a compostura, que nada tem a ver com dignidade.

A dor (ou melhor, quando o sujeito encontra forças para juntar o que restou de si) é transmitida sempre com elegância. E a maioria das canções de Lupicínio canta esse momento: a consciência dilacerante das etapas gastas do amor.

“Nunca”, de Lupicínio Rodrigues, é um exemplo disso. Ressentido (com algo que o ouvinte não sabe ao certo o que é, mas supõe), o sujeito na duas primeiras partes da letra deixa a mágoa lhe dominar. Cada palavra parece ser usada para machucar o outro, em uma espécie de revide.

Na segunda parte, o sujeito já nem se dirige mais ao outro, pede à saudade (sempre ela) para transmitir o recado: o amor foi sincero, mas acabou. A saudade funciona como um detonador da vulnerabilidade do sujeito. É ela (alimentando a lembrança dos tempos de paz) que sustenta um coração sepultado.

Com excelente arranjo de Perinho Albuquerque, Zizi Possi gravou “Nunca” no disco Pedaço de mim (1979) (confira em ‘O tempo não apagou’). A cantora imprimiu a passionalidade correta que a canção pedia e recolocou as palavras amarguradas do sujeito criado por Lupicínio nas rádios. Palavras que pensamos em dizer quando nos deixamos dominar pelo avesso do amor.

Extraído de http://365cancoes.blogspot.com.br

 

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“Nunca”, uma das canções mais populares de Lupicínio Rodrigues, aniversariante desta sexta, 16/09/2016, foi lançada por Dircinha Batista em 1952 (ouça adiante!). Tendo recebido dezenas de gravações desde então, chegou às novas gerações através da versão – meio jazzy – de Zizi Possi, sucesso nacional em 1979. Na esfera instrumental, Paulo Moura, no mercado do disco desde 1956, interpretaria “Nunca” de forma definitiva em 1983, no disco “Mistura e Manda”. Reparem no comovente solo de cavaquinho que abre e fecha a música, a cargo de Jonas Pereira da Silva, que tocou com Jacob no ‘Época de Ouro’ (confira em ‘O tempo não apagou’).

Viva Lupi!

Extraído de Clayton Moreira da Confraria do Chiado

Dircinha Batista(1952)

 

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Depois da letra de “Vingança”, outro episódio com a ‘Carioca’ também virou canção. Trata-se de uma resposta negativa às tentativas da moça de reconquistar Lupicínio. Em certo momento, o compositor diz que “nem se Deus mandar” ele faria as pazes com ela. Segundo dizem, a moça havia levado uma foto dele para um pai de santo fazer um trabalho.

Na década de 1980, a canção voltou a ganhar notoriedade com a regravação de Zizi Possi.

Extraído de http://www.saraivaconteudo.com.br/

 

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No disco ‘Pedaço de mim’ de 1979, com arranjo impecável de Perinho Albuquerque, Zizi Possi gravou a melhor versão de ‘Nunca’ de Lupicínio Rodrigues, o inventor da dor-de-cotovelo, prática dos que cravam o cotovelo na mesa de um bar e choram o amor que se foi. Lupicínio consegue tocar aquelas cordas da alma que nunca deveriam ser tocadas, os sentidos mais escondidos, quase invisíveis. Constantemente abandonado pelas mulheres que nunca entenderam a sua paixão pela boemia, ‘Lupe’ como era chamado, buscou em sua própria vida a inspiração para suas canções, onde o amor, o desamor, a traição, o desejo de vingança, o ódio e a paixão desenfreada andavam sempre juntos. ‘Nunca’ é assim, expressa todo sentimento e melancolia por um amor perdido. E somente Zizi soube como ninguém, cantar a dor e a desilusão de forma tão genial.

Por Tamára Baranov

Extraído de http://jornalggn.com.br/

 

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Em 1952, Lupicínio gravou uma série de três discos pela gravadora Star, futura Copacabana, com seis composições suas, os sambas “Eu e meu coração”, “Sombras”, “Vingança”, “Eu não sou de reclamar”, “As aparências enganam”, “Eu é que não presto” e “Nunca” (confira em ‘O tempo não apagou’) e o baião-xote “Felicidade”, gravado com as Três Marias.

Extraído de http://dicionariompb.com.br/

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