O que me importa

Cury

Marisa e um tal Cury - O Globo - 24/05/2000

João Pimentel

Ao gravar a balada “O que me importa”, que conhecera na voz de Tim Maia, Marisa Monte ficou intrigada por não ter informação alguma sobre o autor da música, creditada apenas a um tal de Cury. Sucesso em 1971 na voz de Adriana (ouça adiante!) – cantora que teve algum cartaz no período pós-jovem guarda – a canção foi gravada no ano seguinte por Tim (confira em ‘O tempo não apagou’). A versão de Marisa, em seu novo CD, “Memórias, crônicas e declarações de amor”, acabou trazendo à tona a história de José de Ribamar Cury Heluy, um descendente de árabes, filho de pai maranhense e mãe piauiense. Nascido no Rio Parnaíba, na fronteira entre os dois estados, chegou ao Rio com 17 anos, em 1963, para trabalhar no Banco do Brasil, e acabou se tornando testemunha e protagonista de parte da história da MPB. Cury soube pela imprensa da curiosidade da cantora e enviou um e-mail ao seu escritório. Anteontem, acabou conhecendo-a num encontro promovido pelo GLOBO, no Parque Lage.

Surpreendentemente, apesar da diferença de gerações e estilos, os dois descobriram muitas afinidades. Cury explicou que Adriana não fazia parte do grupo da jovem guarda, – a cantora só surgiu em 1969 com a canção “Vesti azul”, quatro anos depois de Roberto Carlos estourar com “Quero que vá tudo para o inferno”. Marisa, apesar de admitir ter gravado a canção buscando um clima da época, disse que seu novo trabalho fala das diversas formas do amor.

– Meu CD fala de amor e das sensações que estão em torno dele. Assim sendo, não posso deixar de falar do lado infantil que é muito presente. Em “Amor i love you” até a percussão remete a brinquedos. Mas, “Para ver as meninas”, do Paulinho da Viola, e a própria “O que me importa” são músicas densas – explicou Marisa, que também anda apaixonada pela fotografia e, a exemplo do que fez para a capa e encarte de seu disco e seu site na Internet, clicou as fotos desta reportagem com uma câmera digital.

Ouvindo atentamente Marisa, Cury emendou:

– Por trás do amor está a solidão. Daí ele acarretar tantos sentimentos distintos. Antes do amor somos sozinhos.

A cantora quis saber do compositor como ele conheceu Tim Maia e acabou descobrindo que as afinidades não paravam por aí. Vizinho de um radialista, Cury era o anfitrião de encontros musicais, em 1968, que reuniam músicos de diferentes vertentes, entre eles Jerry Adriani, Raul Seixas e o grupo Diagonais, então comandado pelo cantor e compositor Cassiano, outra das referências de Marisa.

– Adriana ia entrar em estúdio para gravar “O que me importa”. Uma semana antes, fui acordado de madrugada por ela ao telefone dizendo que um amigo queria me conhecer. Era Tim. Não acreditei e xinguei-o de tudo. Quando parei, ele disse que se não fosse vê-lo, iria para baixo da minha janela berrar meu nome até eu descer – lembra Cury.

Tim Maia, ao encontrar Cury, disse que não ia roubar a música porque era amigo de Adriana, mas que depois de um ano iria gravá-la. E foi esta versão que, quase três décadas depois, aproximou Marisa do desconhecido Cury.

– Sempre gostei muito de Tim Maia. O primeiro disco que tive foi o compacto de “Primavera”. E ele sempre dizia para procurar o Cassiano, grande compositor que teve pouca coisa gravada. Quando fomos fazer o tributo “Cedo ou tarde”, também me aproximei muito de Cassiano, que tem um baú de canções inéditas – lembrou Marisa.

Extraído de https://www.youtube.com

Adriana & Coro(1971)

 

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Seguindo a linha de leitura de Nelson Motta, autor da deliciosa biografia ‘Vale tudo – o som e a fúria de Tim Maia’, a canção “O que me importa”, de Cury, entra na obra de Tim naquele grupo denominado de “mela cueca”.

Sim, na obra de nosso, auto definido, “preto, gordo e cafajeste, formado em cornologia, sofrências e deficiências capilares”, há dois direcionamentos básicos: “Molha suvaco” – canção para dançar e ferver; e “Mela cueca” – canção para o sarro (amasso) gostoso.

Nas canções “mela cueca”, Tim Maia baixava, a mais não poder, a potência de sua voz trovão (cápsula de integração do funk com o soul), para fazer vibrar outras emoções em quem lhe ouvia. Sussurros de um grande sujeito em desamparo, soltos ao pé do ouvido, que comoviam. Havia uma (quase) contradição entre a figura exuberante do cantor e os timbres que ele conseguia, a fim de dar à canção o ritmo exato.

Gravada no disco ‘Tim Maia’ (1972) (confira em ‘O tempo não apagou’), “O que me importa” traz um sujeito em completa apatia: anestesiado diante do sofrimento do outro, que agora parece chorar aquilo que o sujeito, outrora, chorou. Típico fim de relação na qual um imprime, no outro, as mágoas que sufocaram os bons sentimentos.

Sem perspectiva (de vida: com o fim do amor), nada mais tem importância. O canto vira lamento, saudade de acontecimentos que não existirão e dor. Agora é tarde para qualquer tentativa de recuperação: o tempo dos dois juntos passou e, infelizmente, as belezas se apagaram dando lugar ao rancor, às cobranças e ao desamor.

Ter o carinho e a adoração do outro, já não tem mais razão de ser, quando o amor vacila. As lágrimas do sujeito agora minam pelos olhos do outro. E, talvez o mais importante, quando o sujeito quis ter seu nome cantado pelo outro (o que daria, e sustentaria, a vida do sujeito) isso lhe foi negado. Agora é tarde demais: os ouvidos já estão tapados, com a cera que isola o sujeito do canto da sereia.

Interessante atentar para o fato de que, no final, ao contrário do que superficialmente pode parecer uma revanche (“eu sofri, agora sofra”), quem mais sente a pressão do fim é o sujeito (dado à vida pela voz impagável do indomável Tim Maia em mergulho, sem paraquedas, dentro de si), justamente por ter acreditado e investido na possibilidade da relação.

Aqui sugiro outra direção (desdobramento do “mela cueca”) no cancioneiro de Tim Maia: a “molha beira”, ou seja, aquele tipo de canções feitas para quando a vida termina; feitas para ser ouvidas sozinho: feitas para chorar (molhar a beira dos olhos) no silêncio da noite, juntando os caquinhos de um velho mundo e imaginando “nós dois”.

Extraído de http://365cancoes.blogspot.com.br

 

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“O Que Me Importa” é uma canção relançada pela cantora e compositora brasileira Marisa Monte, com o objetivo de promover o álbum ‘Memórias, Crônicas e Declarações de Amor’ (confira em ‘O tempo não apagou’), lançado em 2001. A canção foi composta por José de Ribamar Cury Heluy.

Extraído de https://pt.wikipedia.org

Tags: Adriana / Cury / importa / que /
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