O velho ateu

Eduardo Gudin & Roberto Riberti

Conversando com o Velho Ateu

Chego à conclusão de que estou ficando cada vez mais louca. E confesso que adoro minha loucura. Quanto mais louca fico, mais me encontro. Tenho gostado da minha própria companhia. E quanto mais gosto da minha própria companhia, mais aberta fico para o coletivo. E se alguém discorda das ideias que brotam da loucura, as discordâncias (que são bem diferentes de discórdias) se transformam em alimento para a escrita.

Saí cedo para a labuta de sábado. Uma hora de viagem para chegar ao trabalho. Catei um cd na estante, liguei o som do carro e parti. Foi uma música do cd escolhido (ouça adiante!) que, naquele momento, despertou a loucura que alivia a dor da existência. A música é doída, mas a dor também abre o caminho para que a fantasia preencha a alma:

O Velho Ateu
(Eduardo Gudin / Roberto Riberti)

Um velho ateu
Um bêbado cantor
Poeta
Na madrugada cantava essa canção seresta
Se eu fosse deus
A vida bem que melhorava
Se eu fosse deus
Daria aos que não têm nada

E toda janela fechava
Pros versos que aquele poeta cantava
Talvez por medo das palavras
De um velho de mãos desarmadas

A imagem das janelas se fechando para a poesia foi muito forte para mim… A imagem do medo das ideias de quem pensa diferente… Me doeu a dor do poeta. Não tenho religião, mas adoro pensar sobre a existência de Deus. Abri minha janela e acolhi o poeta. Depois abri também a porta, engatei meu braço no dele e saímos dançando pela manhã que, de repente, virou madrugada. Sentamos na calçada, com um copinho de pinga e uma cerveja até a madrugada se confundir com a própria vida naquela conversa-voo:

Não acreditas em Deus, Poeta? O que ou quem é Deus? Há quem diga que foi Deus quem criou a humanidade… Também há quem diga que foram os homens que criaram Deus… Penso que não dá para negar a existência de Deus, mas não cabe no meu pensamento (nem no meu coração) o Deus construído dentro das religiões hegemônicas no Brasil. Nos meus sonhos de poetisa desvairada, Deus não é pai nem mãe, não é feminino nem masculino, não tem forma, mas no universo da poesia pode ter cor e cheiro… Deus é a energia vital de amor que circula no universo… É a melhor energia que existe por aí, no ar e dentro dos seres vivos… Creio que tanto esta energia é produto da humanidade, quanto a humanidade é produto desta energia.

Sabe aquela história “do pó viemos e ao pó voltaremos” e da tal “vida eterna”? Energia pura, essência em forma de poesia… A gente nasce dessa energia, a vida principia num poema absurdo e concreto, cujo ápice é o ato sexual… E quando a gente morre – um outro poema – o que fica é energia que alguns chamam de espírito: o que se amou, o que se lutou, os gestos de carinho… Seja debaixo da terra, seja no mar ou em forma de cinzas, a energia que fica continua a influenciar a vida…

Também já me fecharam as janelas, caro Poeta… Puro medo… Medo da minha loucura, medo da minha fantasia… Medo do caminho de liberdade que existe dentro do pensamento… É mais fácil ser escravo do que ser livre! Nem todo mundo sabe voar! Tenho pena deles, que não percebem que tudo é poesia!

As religiões não são ruins, meu amigo, elas também transformam essência em poesia… As parábolas são poemas… Há quem goste, há quem não entenda, eu sempre gostei de versos livres e gosto de poesia que liberta… Às vezes as Igrejas usam a poesia para colonizar mentes e corações… Algumas correntes religiosas até ajudam no processo de libertação e rompimento com o sistema, acho louvável e respeito imensamente, mas minha fome de liberdade é ainda maior, quero sonhar meus próprios deuses, quero ligar-me a esta essência através da arte, do amor, da diversidade, da pluralidade!

Tu não estás sozinho! E nem eu! Tu com as tuas ideias e eu com as minhas podemos sim compartilhar carinho! Qualquer hora a gente se encontra de novo, nas esquinas da fantasia…

Despedi-me com um abraço apertado e um beijo no rosto. A madrugada virou manhã novamente. Acordei do sonho que sonhava acordada, desliguei o motor do carro e fui trabalhar com a alma repleta de poesia.

Texto de Bianca Velloso no http://www.recantodasletras.com.br

MPB4(1979)

 

X.X.X.X.X

 

Samba de Eduardo Gudin, por sinal um de seus mais conhecidos trabalhos, em parceria com Roberto Riberti. Esta é a gravação original, com o próprio Gudin, faixa de abertura e um dos destaques do álbum “Coração marginal” (Continental, 1978) (ouça adiante!). “O velho ateu” possui regravações por Djalma Pires, MPB-4, Beth Carvalho e pelos próprios autores, entre outras (confira em ‘O tempo não apagou’). Direitos fonográficos reservados á Warner Music Brasil Ltda., uma empresa Warner Music Group. ISRC: BRWMB-0700200. 1978 – Continental 1-01-404-185-A1 – Eduardo Gudin – O velho ateu

Extraído de Samuel Machado Filho

Eduardo Gudin & Coro(1978)

Tags: gudin / MPB4 / riberti / velho ateu /
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EDUARDO REIS disse:

Beth também gravou… Clássico…

Salvador disse:

Edu, vá no “QUAL DELAS?” que você ouve com a Beth Carvalho.