Sabiá

Tom Jobim & Chico Buarque

Defendida por Cynara e Cybele, então recém desligadas do “Quarteto em Cy”, esta foi a grande vencedora do “Terceiro Festival Internacional da Canção (FIC)”, promovido pela TV Globo em 1968, tanto na fase nacional quanto na internacional. A gravação de Chico Buarque saiu em compacto simples da RGE (ouça adiante!), tendo no verso “Retrato em branco e preto”, também dele com Tom Jobim.

Extraído de Samuel Machado Filho

Chico Buarque(1968)

 

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A letra de “Sabiá” é inteiramente de Chico Buarque, embora Tom Jobim tenha achado que a composição pedia mais algum verso e que estava muito pequena, repetindo de forma insuficiente alguns trechos e, por isso, produziu um pedaço da letra, mas ela sumiu depois. Chico Buarque, em uma entrevista, declarou que o trecho com a letra de Tom Jobim chegou a ser gravado, e era algo como “Que a nova vida já vai chegar” e/ou “que a solidão vai se acabar”.

Mas essa não foi a única discórdia dos dois a compor “Sabiá”. Quando Chico apresentou a Tom Jobim, ele não gostou do fato de o letrista ter colocado a palavra sabiá no gênero masculino, segundo Chico, protestou: “É bom ‘uma sabiá’ “, ele falava, “porque é linguagem de caçador… caçador não fala ‘um sabiá’, fala ‘uma sabiá’, ‘uma gambá’…” Mas depois ele gravou a música “O Meu sabiá”.

Em 29 de setembro de 1968, a música foi apresentada no Maracanãzinho durante o III Festival Internacional da Canção, mas recebeu vaias quase unânimes que, segundo um repórter da Folha de S.Paulo, “…era a mais sonora já acontecida em toda a história dos festivais de música popular”. Humberto Weneck, em seu “Chico Buarque Letra e Música” escreve que a recepção foi pior do que a recepção que o público fez da canção “É Proibido Proibir”, de Caetano Veloso, feita duas semanas antes.

Embora o público cantasse “Pra não dizer que não falei das flores” (conhecida como “Caminhando”), de Geraldo Vandré, “Sabiá” acabou sendo premiada, mas criticada por sua “desvinculação da realidade nacional”, embora outros a examinassem como uma nova e premonitória “Canção do Exílio”.

“Sabiá” é vista como um retrato do problema de uma pátria configurada pela carência: “Quero deitar à sombra de uma palmeira que já não há. Colher a flor que já não dá”.

Ao contrário da “Canção do Exílio”, “a flor que já não dá” representa uma nação esvaziada. Segundo alguns críticos, Chico escreveu a letra da música sob influência de um pensamento de seu pai — Sérgio Buarque de Hollanda — que dizia “somos uns desterrados em nossa própria terra”, descrição aforista de uma realidade contundente e dolorosa.

Os analisadores também têm chamado a atenção ao fato de que, quando a música foi composta, Chico ainda não estava em exílio e, por isso, usou um eu-lírico imaginário, mas quando isso ocorreu e ele deixou o Brasil partindo para a Itália, pôde passar pela experiência de exílio e, assim, retratou os ocorridos em “Samba de Orly”, em parceria com Toquinho e Vinicius de Moraes.

Extraído de https://pt.wikipedia.org

 

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Análise “SABIÁ” – Chico Buarque e Tom Jobim

Nos Anos 60 era através da música que se criticava a ordem social, política e econômica. A “Bossa Nova” inovava por introduzir na música brasileira compassos novos e a influência do jazz. Mas a questão não estava relacionada somente a música, pois uma parte dos compositores dessa época eram bem politizados e era também o período da ditadura, o que em si já chamava a atenção do povo para os fatos políticos do país. Nessa época surge o tropicalismo (totalmente irreverente e anárquico).

A canção “Sabiá” foi recriada em cima da “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias. Na canção “Sabiá” a ideia do exílio tem um significado político e se refere a “uma sabiá” e a uma “palmeira” que já não mais existe. Há várias referências que nos levam a “Canção do Exílio”, como as palavras sabiá e palmeira, e ao mesmo tempo é uma crítica política a ditadura militar.

As palavras “noite” e “dias” que aparecem em “Sabiá”, nos remetem a da ditadura e ao tempo sombrio, mas também a esperança de tempos que ainda estão por vir.

O poeta conclui sua composição relembrando as dificuldades que teve que suportar durante algum tempo, tantos eram os problemas que se apresentavam, mas não conseguiu. Ele termina afirmando seu o amor à pátria:

“Que fiz tantos planos
De me enganar
Como fiz enganos
De me encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer”

Na música “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, estamos diante de um “eu” que vive um exílio forçado. Apesar de reconhecer que os valores de sua terra foram destruídos, esse “eu” insiste em querer voltar, na esperança que um novo tempo volte:

“Vou voltar
Vou deitar à sombra de uma palmeira
que já não há
Colher a flor que já não dá
E algum amor, talvez possa encontrar
As noites que eu não queria
E anunciar o dia
Vou voltar (…)”

A cada momento de crise nacional, precisamos retomar os nossos valores nacionais. E foi isso que Chico e Tom Jobim fizeram compondo “Sabiá”: retomaram os valores nacionais que também estão claros na “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, que devem ser lembrados sempre, inclusive nessa fase de manifestações em todos os lugares do Brasil.

Extraído de http://nossoceutemmaisestrelas.blogspot.com.br

 

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As várias “Canções do Exílio” – Tom Jobim e Chico Buarque

Em 10/02/2012

Compositores também escreveram releituras da “Canção do Exílio”. Na MPB, o exemplo mais conhecido é a canção “Sabiá”, composta por Tom Jobim e Chico Buarque. A música foi composta pelo Tom, intitulada, a princípio, “Gávea”. Recebeu, em seguida, a letra de Chico Buarque e passou a se chamar “Sabiá”.

Apresentada no “III Festival Internacional da Canção”, em 1968, recebeu uma sonora vaia no Maracanãzinho, já que concorria com “Prá não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, a preferida pelo público. Foi taxada de alienada e desvinculada da realidade nacional por alguns e de nova “Canção do Exílio” por outros. Apesar de toda rejeição e polêmica, acabou sendo premiada.
Por ironia, no final do mesmo ano, os militares baixaram o AI-5 e fecharam o Congresso. Chico Buarque se viu pressionado a deixar o país. e o sabiá e a palmeira passaram a ser símbolos, também, do exílio político.

A referência ao sabiá e à palmeira já nos remete à “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, mas de uma forma mais triste, melancólica como que para mostrar que essa volta é impossível.

No reconhecimento de uma pátria esvaziada e sem perspectiva de modificação próxima, Chico usa a negação do símbolo palmeira:

“Vou deitar à sombra
de uma palmeira que já não há
Colher a flor que já não dá”

Na música “Sabiá”, os valores de sua terra foram destruídos, mas o “eu” poético tem esperança de voltar e encontrar um novo tempo capaz de modificar a realidade destruída. Durante toda a canção aparece a dualidade entre o desejo que se queria real e a realidade que se tem:

“Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá.”

Como numa visão premonitória baseada pela situação do país, o autor da letra percebia a solidão das noites de exílio que iria viver longe das palmeiras e sabiás:

“As noites que eu não queria
E anuncia o dia.”

Mesmo existindo o sentimento de perda, existencial e político, durante toda a música ainda há o desejo do regresso para o lugar de paz – a pátria. Se na “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, a pátria corresponde a um lugar de prazer, na música “Sabiá” essa pátria foi desfigurada principalmente na sua essência. O exílio é de todos. O regresso, então, seria a volta a uma realidade diferente do regime militar vigente na época:

“Vou voltar!
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir
Cantar uma Sabiá”

A esperança do regresso é viva e a saudade tem um sentido social: a recuperação da pátria perdida.

Extraído de http://ninitelles.blogspot.com.br

 

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Chico Buarque teve sua “Sabiá”, feita com Tom Jobim, soterrada por vaias quase unânimes no Maracanãzinho, a 29 de setembro de 1968, no final da fase brasileira do “III Festival Internacional da Canção”. “A mais sonora vaia já acontecida em toda a história dos festivais de música popular”, descreveu o repórter da Folha de S. Paulo. Maior mesmo que a que fora despejada sobre Caetano Veloso e sua “É proibido proibir”, duas semanas antes, no TUCA, na primeira eliminatória paulista do FIC.

Dessa vaia no Maracanãzinho Chico escapou – estava em Veneza quando os apupos dos torcedores de outra finalista, “Caminhando” ou “Para não dizer que não falei de flores”, de Vandré, ensurdeciam “Sabiá”, mesmo assim premiada. “Por favor, venha, não me deixe só”, pediu Tom num telegrama patético que o amigo interpretou como brincadeira. Mas pegou o avião e desembarcou no Rio no dia da vitória de “Sabiá” (que foi composta para a soprano Maria Lúcia Godoy (Confira em ‘O tempo não apagou’) e antes de ter letra se chamou “Gávea”) na finalíssima da fase internacional. O público havia esgotado seu estoque de vaias (veja e ouça adiante!), mas as críticas continuavam.

Comparada com o engajamento explícito da música de Geraldo Vandré, “Sabiá”, como “Bom tempo”, meses antes, era vista como uma canção desvinculada da realidade nacional. A pouca gente, naquele instante de exaltação, ocorreu tomá-la como uma nova e premonitória “Canção do exílio”.

© Copyright Humberto Werneck, Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989

Cynara e Cybele ao vivo(1968)

 

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LR: Como é que foi Sabiá ? A letra é sua inteirinha ?
CB: A letra é minha.
LR: Eu ouvi dizer que, quando vocês estavam fazendo a música, você viajou, e que o Tom completou os últimos versos.
CB: Não, essa história é a seguinte: eu fiz a letra, terminei a letra – e quando eu viajei, ou um pouco antes de viajar, o Tom achou que tinha que aumentar a letra , e eu ou não tive tempo, ou porque viajei, ou porque não concordei, não aumentei a letra – e dei a letra por terminada ali. Quando eu terminei a letra, ele achou que era insuficiente porque a música repete outras vezes, ele achou que pedia mais uma letra, e eu achei que não pedia. E aí ele fez à minha revelia, na minha ausência, um pedaço de letra, que depois sumiu.
LR: Você lembra ?
CB: “Que a nova vida já vai chegar”, uma coisa assim “que a solidão vai se acabar”, você lembra disso?
LR: Tinha esquecido, agora que você está falando me veio à memória.
CB: Isso ele acrescentou depois, eu não aceitei muito essa.
LR: Houve até alguma gravação em que entraram esses versos.
CB: Sim, chegou a ser gravado, essa é a parte dele que ele resolveu (fazer), mas depois acho que ele voltou atrás, porque mais adiante cantou mil vezes a música e nunca mais cantou esse pedaço.
LR: Exato…
CB: Eu nem falei nada pra ele, fiquei um pouco assim, né… porque não era o combinado.

Extraído de entrevista de Chico Buarque à Luiz Roberto Oliveira.

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