Se todos fossem iguais a você

Tom Jobim & Vinícius de Moraes

Em meados de 56, Vinícius de Moraes estava com a peça “Orfeu da Conceição” pronta, faltando somente conseguir um compositor para musicá-la e, se possível, orquestrá-la. Achava Vinicius que o nome ideal para a tarefa seria o de Vadico (Osvaldo Gogliano), parceiro de Noel Rosa que, convidado não aceitou.

Atendendo, então, a uma sugestão do crítico musical Lúcio Rangel, o poeta convidou Antônio Carlos Jobim, na época um jovem compositor e arranjador ainda pouco conhecido.

Começava assim a parceria Tom/Vinicius, uma das mais importantes da música brasileira, juntando o talento de um grande músico ao de um poeta consagrado e que deu como primeiro fruto “Se todos fossem iguais a você”. Romântica, requintada, até com uma certa tendência para o monumental, é a melhor composição do repertório criado para a peça. Lançada por Roberto Paiva no final de 56 chegaria ao sucesso no ano seguinte, quando recebeu várias outras gravações.

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br

 

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Samba-canção clássico da parceria Tom Jobim – Vinícius de Moraes, feito para a peça teatral “Orfeu da Conceição”, de autoria de ambos, respectivamente melodia e texto, encenada pela primeira vez no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com estreia em 25 de setembro de 1956. Um mês antes, foi gravado na Odeon um LP de dez polegadas, intitulado “Músicas de Orfeu da Conceição”, com orquestrações e regências de Jobim, ficando a interpretação por conta de Roberto Paiva (o violão deste registro é de Luiz Bonfá), lançado em novembro de 56 (ouça adiante!). De todas as músicas nele incluídas, a de maior sucesso foi exatamente “Se todos fossem iguais a você”, que recebeu inúmeras outras gravações: Lana Bittencourt, Maysa, Tito Madi, Elizeth Cardoso, Roberto Luna, Cauby Peixoto, Maria Creuza, Agostinho dos Santos…(confira em ‘O tempo não apagou’) Enfim, um êxito permanente e inesquecível da MPB. Direitos fonográficos reservados à Universal Music International Ltda. ISRC: BREMI-5600159.

Extraído de Samuel Machado Filho

Roberto Paiva & Luiz Bonfa & Tom Jobim e Orquestra(1956)

 

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Lindo (e preciso) texto de Drummond sobre Vinicius, publicado no Jornal do Brasil, capa do Caderno B, em 11 de julho de 1980.

“A música popular entra no paraíso!”

Deus – Quem é este baixinho que vem aí, ao som do violão, de copo cheio na mão?

São Pedro – Senhor, pelos indícios, só pode ser o vosso servo Vinicius, Menestrel da Gávea e dos amores inumeráveis.

Deus – Será que ele vem fazer alaúza no céu, perturbando o coro dos meus anjos-cantores, diplomados pela Schola Cantorum do mestre São Jorge, o Grande?

São Pedro (hesitante) – Bem… Eu acho, com a devida licença, que ele traz um som novo, mais terrestre, menos beatífico, é certo, mas com uma suavidade brasileira inspirada nos seresteiros seus avós, os quais já têm assentos cativos junto ao vosso trono, Senhor. Coisa mui digna de vossa especial atenção.

Deus – Hum, hum…

São Pedro – Posso continuar, Senhor?

Deus – Vá dizendo, Pedro. É sabido que você tem um fraco por essa gente que canta de noite, esteja ou não pescando, principalmente não estando.

São Pedro – Pois eu digo, Senhor, que esse baixinho aí, todo simpatia e delicadeza, é um de vossos bons servidores na Terra, pois combateu a maldade pela ternura, a injustiça pela fraternidade, e compôs os cânticos profanos que, elevando o coração dos ouvintes, fazem o mesmo que os cânticos sagrados.

Deus (surpreso) – O mesmo?

São Pedro – O mesmo, Senhor, porque vós permitistes ao homem trilhar a vida direta ou a vida indireta, conforme o gosto dele. Este poetinha escolheu a segunda, por inclinação natural, e manifestou à sua maneira própria o amor à humanidade, distribuindo-o de preferência, na medida do possível, a umas quantas eleitas.

Deus – Não terá sido antes dispersão do que concentração?

São Pedro – As duas coisas, mas unidas tão sutilmente! E essa unidade paradoxal, mas espontânea, produziu os hinos do amor carnal, nos quais foi glorificado o corpo que concedestes às criaturas, e por essa forma glorificou-se a vossa divina Criação.

Deus – Menos mal, se assim foi.

Então esse… como lhe chamas?

São Pedro – Vinicius, não o patrício romano, que o amor conduziu do paganismo à fé cristã, mas o de Melo Moraes, filho de pais que curtiam o ‘Quo Vadis’.

Este nasceu diretamente para o amor, e não precisou meter-se nas embrulhadas do paganismo de Nero para achar o rumo de sua alma.

Ele já estava traçado pelas estrelas de outubro, vossas mensageiras. Vinicius nasceu com a célula poética, e esta desabrochou em cânticos variados, na voz de seus lábios e na dos instrumentos. Com estes cânticos ele encantou o seu povo. E era um povo necessitado de canto, um canto tão necessitado mesmo!

Deus – Ele deu alegria ao meu povo?

São Pedro (exultante) – Se deu, Senhor! E para isso não precisava sempre compor canções alegres. Ia até o fundo das canções tristes, mas dava-lhes uma tal doçura e meiguice que as pessoas, ouvindo-as, não sabiam se choravam ou se viam consoladas velhas mágoas.

Era um coração se desfazendo em música, Senhor. Deu tanta alegria ao povo, que até a última hora de sua vida (esta não chegou a ser longa, mas se alongou em canção) trabalhou com seu fiel parceiro Toquinho para levar às crianças um tipo musical de felicidade. Morreu pois a vosso serviço, Senhor.

Deus (disfarçando a emoção) – Mande entrar, mande entrar logo esse rapaz. Vinicius entra rodeado de anjos, crianças, virgens e matronas que entoam mansamente:

Se todos fossem iguais a você,

que maravilha viver!

Uma canção pelo ar,

uma mulher a cantar,

uma cidade a cantar,

a sorrir, a cantar, a pedir

a beleza de amar,

como o sol, como a flor, como a luz,

amar sem mentir nem sofrer.

Existiria a verdade,

verdade que ninguém vê,

se todos fossem no mundo

iguais a você!

De vários pontos, vêm-se aproximando Sinhô, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Ciro Monteiro, Noel Rosa, Dolores Duran, Orfeu, Eurídice, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Portinari, Murilo Mendes, Mayza, Lúcio Rangel, Tia Ciata, Santa Cecília, Antônio Maria, Bach, Ernesto Nazaré, Jaime Ovalle, Chiquinha Gonzaga e outros e outros e outros que não caberiam neste relato mas cabem na imensidão do céu e som, e unem-se ao coral:

Teu caminho é de paz e de amor.

Abre os teus braços e canta

a última esperança,

a esperança divina

de amar em paz!

 

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