Tatuagem

Chico Buarque & Ruy Guerra

“Tatuagem” é uma canção escrita pelo cantor e compositor brasileiro Chico Buarque e pelo cineasta Ruy Guerra para a peça de ambos intitulada ‘Calabar: o Elogio da Traição’, escrita em 1973.

A peça estava prevista para estrear em 1974, mas ficou seis anos censurada pela ditadura militar, só podendo estrear no início da década de 1980. Apesar da censura da peça, Buarque pôde lançar a trilha-sonora da mesma em 1973. O nome do disco seria o mesmo da peça, mas devido à censura imposta pelos militares, acabou sendo intitulado ‘Chico Canta’ (ouça adiante!).

A canção foi escrita pela perspectiva de uma mulher (algo muito comum nas composições de Buarque) que está loucamente apaixonada por seu namorado. Ela descreve esta paixão dizendo que quer se fixar no corpo dele “feito tatuagem”, se perpetuando em sua escrava.

Uma das versões mais reconhecidas da canção foi gravada por Elis Regina no aclamado álbum ‘Falso Brilhante’, lançado originalmente em 1976 (confira em ‘O tempo não apagou’). Em 1990, Maria Bethânia gravou a canção no álbum ‘Simplesmente’. Em 1999, Tânia Alves gravou a canção numa versão de bolero no álbum ‘Coração de Bolero’. Em 2005, Gil gravou “Tatuagem” em ‘O Canto da Sereia’.

Extraído de https://pt.wikipedia.org

Chico Buarque(1973)

 

X.X.X.X.X

 

Registrada no histórico disco Drama 3º ato (1973) – gravado ao vivo no Teatro da Praia RJ (confira em ‘O tempo não apagou’) – “Tatuagem” apresenta todo o sentimento de um sujeito que quer se entranhar corpo adentro, do outro. O uso da tatuagem, como metáfora desta vontade, porém, esconde desejos inconfessos.

A tatuagem (como desenho permanente na pele, marcado a frio, a ferro e fogo) é também uma forma de mostrar aos outros quem é o ‘dono’ daquele corpo. A tatuagem estabelece uma relação de fidelidade entre os amantes. Porém, ao evocar a serpente, o sujeito indicia traições inconfessas.

Portanto, há um sedutor paradoxo quando o sujeito diz: “também pra me perpetuar em tua escrava”. No jogo/embate erótico (cruz nas tuas costas que te retalha em postas, mas no fundo gostas), afinal, quem é escravo de quem? Quem canta querer ser tatuagem ou quem é tatuado? Pouco importa.

É com estes pensamentos – de posse e de desejo absurdamente passionais – que a interpretação de Bethânia exibe a parte mais clara da alma do sujeito da canção. Bethânia toma para si o movimento serpenteante do sujeito na carne viva do outro.

Pétala por pétala, as rimas e as respirações (extremamente marcadas pela ênfase na consoante ‘r’) criam a imagem da bailarina brincando no corpo do outro.

“Tatuagem”, composta para a peça ‘Calabar’, de Chico Buarque e Ruy Guerra, na interpretação de Bethânia, em que cada letra é meticulosamente dita, cantada e ouvida, arrebata o ouvinte que, seduzido, se deixa tatuar.

A canção fica na memória da pele (como um canto de sereia, ou reduzido a um esconderijo tatuado) e, vira e mexe, em carne viva, nos lembra dos (des)domínios dos afetos.

Extraído de http://365cancoes.blogspot.com.br

 

X.X.X.X.X

 

Chico Buarque: Tatuagem

Por que as canções de Chico são geniais? Porque através delas o nosso autor consegue descrever tão bem a alma feminina, o que nela está intrínseca desde a sua formação até a maturidade. A psicologia tem um significado através dos nomes latinos Animus e Anima para o homem. Chico Buarque consegue atingir a Animus feminina de uma maneira própria que o torna um gênio.

”Os termos foram introduzidos por Jung para simbolizar a característica contra sexual de cada indivíduo, parte do princípio da complementariedade, através do qual a psique se move. São imagens psíquicas, configurações originárias de uma estrutura arquetípica básica, provenientes do inconsciente coletivo. São subliminares à consciência e funcionam a partir de dentro da psique inconsciente, influindo sobre o princípio psíquico dominante de um homem ou de uma mulher.”

“A anima, sendo feminina, é a figura que compensa a consciência masculina. Na mulher, a figura compensadora é de caráter masculino, e pode ser designada pelo nome de animus” O animus e a anima são como parceiros invisíveis que podem ser conhecidos, ou não, do Eu do indivíduo.

“Tatuagem” é uma canção escrita pelo cantor e compositor brasileiro Chico Buarque e pelo cineasta Ruy Guerra para a peça de ambos intitulada ‘Calabar: o Elogio da Traição’, escrita em 1973. A música Tatuagem revela o desejo que o sujeito tem de se dedicar profundamente a um outro. Entretanto o uso da tatuagem para a realização desse desejo pode revelar desejos não confessados. Uma vil forma de mostrar para o outro quem é o dono daquele corpo, o que estabelece uma forma de fidelidade entres as partes. Na música de Chico e tão bem interpretada por Bethânia, o caráter melancólico e fúnebre da letra revela algo que não se completou que não se consumiu pelo intenso desejo. Assim, mesmo havendo a consumação das partes o forte desejo não foi suprido e se exprime na melancolia e na produção da tatuagem na pele.

Quero pesar feito cruz

Nas tuas costas

Que te retalha em postas

Mas no fundo gostas

Quando a noite vem

Quero ser a cicatriz

Risonha e corrosiva

Marcada a frio

Ferro e fogo

Em carne viva

Corações de mãe, arpões

Sereias e serpentes

Que te rabiscam

O corpo todo

Mas não sentes.

Nessa estrofe, ao mencionar serpente que significa traição, supõe-se os desejos inconfessos que se materializam e se revelam na tatuagem. Isso mostra uma vertiginosa contradição quando é dito: ”também pra me perpetuar em tua escrava”. No jogo erótico, ”cruz nas tuas costas, mas no fundo gostas”, levanta a questão; Quem é escravo de quem:  quem é tatuado ou quem canta quer ser tatuagem?

Extraído de http://liwro.blogspot.com.br

Tags: Buarque / Guerra / tatuagem /
  • Compartilhe:

Escreva um comentário:

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *