Trocando em miúdos

Francis Hime & Chico Buarque

Em “Trocando em miúdos” (1978), o tom arrebatador presente em “Pedaço de mim” cede lugar a uma leve ironia com que se percebe a intenção de encobrir o sentimento de perda. A suposta superação do desconforto gerado pela dissolução do relacionamento amoroso é sintetizada pelo próprio título do poema que se reveste de elementos do cotidiano.

Os elementos representativos da intimidade conjugal revelados pelas expressões “medida do Bonfim”; “disco do Pixinguinha”, “As marcas de amor nos nossos lençóis”, são dessacralizados através da conotação irônica emprestada por palavras que encobrem a dor contida e velada do eu-emissor: “Aquela esperança de tudo se ajeitar/Pode esquecer/Aquela aliança você pode empenhar/ Ou derreter”.

A dor da perda e o temor do descontínuo, que são tratados com intenso dilaceramento nos poemas analisados anteriormente, como “Eu te amo” ou “Pedaço de mim”, aqui evidenciam intencional esvaziamento do pathos, revelando-se apenas em alguns versos em que o teor dramático supera a ironia que tenta encobri-lo: “Mas devo dizer que não vou lhe dar/ O enorme prazer de me ver chorar/ Nem vou Ihe cobrar pelo seu estrago/ Meu peito tão dilacerado”.

A última estrofe retoma o tom de intencional desprendimento, e, através do verso “Eu levo a carteira de identidade”, há a sutil aceitação da descontinuidade, resgatada com o fim do relacionamento amoroso.

Sem fantasia – Masculino e feminino em Chico Buarque
Maria Helena Sansão Fontes – Editora Graphia, 1999

 

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Sabe quando você está num relacionamento lutando contra todas as correntezas, utilizando as ultimas forças e ignorando todos os fatos que mostram que o fim já aconteceu, mas ainda não foi reconhecido? Quando o medo da perda, do desconhecido, do vazio… é maior que o sentimento de dor que aponta no termômetro da relação mostrando que esta se encontra febril? Quando a vontade de ficar parece não ser recíproca e a coragem de conversar a respeito do assunto é nula?
Parece que é nesse estágio de perda amiúde que se encontra o sujeito de ‘Trocando em miúdos’ de Chico Buarque. Eu tenho quase certeza disso quando ouço… “Eu bato o portão sem fazer alarde;Eu levo a carteira de identidade; uma saideira, muita saudade; E a leve impressão de que já vou tarde”. Me parece uma saída típica, e não por isso menos digna, de quem cansou de sofrer ao tentar reconstruir sozinho o que só foi erguido porque existiam dois. Sem barulho… Para não chamar a atenção dos vizinhos, curiosos de plantão, para evitar perguntas que nunca terão uma resposta racional e para se refugiar na própria solidão que trará conforto, refúgio e força.

Se em primeiro momento, e apenas em primeiro momento, a letra de ‘Trocando em miúdos’ parece ser embutida de raiva, o decorrer da leitura mostra que o que o sujeito sente mesmo é tristeza, parecendo aquela forma de adorar pelo avesso, que Chico canta em ‘Atrás da porta’. Enfim… Acho que eu já troquei em miúdos, acho que raríssimos e mentirosos são os que dizem que nunca passaram por essa experiência e iludidos são os que acreditam que nunca vão passar por ela. Acho também que a música é muito linda e triste, acho a interpretação de Chico quase perfeita e acho que vocês vão gostar de ver ou rever (ouça adiante!).

Extraído de http://hera-musica.blogspot.com.br

Chico Buarque(1978)

 

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‘Chico Buarque’ é um álbum do músico brasileiro Chico Buarque, lançado em 1978.

O disco traz grandes sucessos do músico, entre os quais estão as músicas de protesto contra a ditadura militar “Cálice” (com participação de Milton Nascimento) e “Apesar de Você”, que tiveram grande repercussão na época.

Extraído de https://pt.wikipedia.org

 

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Música composta por Chico Buarque e Francis Hime. Em sua letra descreve com exatidão o fim de um relacionamento amoroso, a partilha dos bens, a dificuldade de se buscar a identidade pessoal após uma entrega amorosa. A letra é de uma poesia ímpar e muitos se identificam com alguns versos que traduzem com fidelidade o fim de um caso amoroso.

A música esteve presente nas trilhas sonoras das novelas “O Astro” (1977-1978 – com Francis Hime) e “Os Gigantes” (1979 – com Emílio Santiago (confira em ‘O tempo não apagou’)). Foi executada também na novela “Vidas Opostas” (2006-2007 – com Cláudio da Matta).

Extraído de http://museudacancao.blogspot.com.br

 

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Chico Buarque: trocando em miúdos
Em 22/04/2015 Luciana Nepomuceno

Uma coisa que sempre fiquei encafifada foi com esse lance de falarem que o Chico entende (ou não) a alma feminina. O primeiro “ué” é porque eu nunca vejo textinhos e textões, elogios ou debates sobre o Chico entender a alma dos trabalhadores, dos exilados, dos malandros ou, vá lá, a alma dos homens. Não. Experimenta aí, coloca no Google: Chico Buarque e a alma masculina; assim, sem aspas. Pra mim o primeiro texto que veio se chama: as mulheres do chico buarque, o segundo foi: sou mulher e o chico buarque não me compreende. Por aí vai. Já virei a página duas vezes e nada da tal alma masculina.

Do primeiro incômodo decorre o segundo (que qualifica o primeiro). Porque não se fala que ele é um bom contador de histórias de mulheres? Porque não se diz que ele cria bons personagens de mulher? Nananinanão. O foco é na alma. No “mistério feminino”. Se alguém precisa conhecer a alma das mulheres é porque somos complicadas, enroladas. E, CLARO, um grupo homogêneo. Quede, pelo menos, alguém dizendo que ele conhece as almas (no plural) de uma mulher (singular, única, sujeito)? Nopes. É difícil, duro, um trabalho arrojado, mas alguém tem que o fazer (#ironiamodeon): descobrir a alma (singular) das mulheres (comuns, iguais, padronizáveis), fazer um inventário e passar a dica pros demais.
Isso me irrita como mulher e como uma das pessoas encantadas pelo talento do Chico.

Ninguém fala da “alma masculina” porque é o default da nossa sociedade. Aos homens está autorizado serem vários, serem personagens únicos, relevantes, nomes próprios até quando não são nomeados. Se em uma canção não há evidência de gênero, logo se deduz que é um homem o sujeito.

Um exemplo fora do universo da música, mas próximo dele e de nós, é a questão da literatura. Temos a Literatura, que é feita por “pessoas em geral”. E temos a literatura feminina, que é feita por mulheres (e não venham argumentar que o critério é outro, temática ou protagonismo ou whatever, nunca ouvi dizer que Madame Bovary fosse chamada de literatura feminina, por exemplo). Mas, ora, se as mulheres estão fazendo a dita literatura feminina, sobra quem pra fazer a Literatura maiúscula e universal? Ah, os homens. De literatura masculina ninguém quer batizar, né? Se não fosse triste e excludente, seria ridículo e risível (ou talvez seja todas essas coisas).
As mulheres, somos um pacote que precisa vir etiquetado. A essencialização do feminino com sua consequente generalização — a “alma feminina” é suposta estar em todas as mulheres – naturaliza tanto a prescrição de comportamentos (mulher age assim, mulher faz assado) como o julgamento e punições possíveis pra quem sai do padrão (do bem feito, não se dá ao respeito ao quem ele pensa que é tentando ser mulher, passando por todas as ações de exclusão e inferiorização das mulheres negras, com deficiência, índias, gordas, trans, etc.).

Nós, mulheres, podemos ser ditas, narradas, classificadas mas não dizer, narrar, protagonizar. Talvez (e uso o talvez por generosidade) por isso mesmo as canções do Chico onde o sujeito da enunciação é mulher e diz de si mesma não podem ser elogiadas no que são, precisamos ser recordados de que quem escreveu é um homem que “sabe” de todas e todas são uma, ou umas: tipos.

E tudo isso aí eu acho super injusto com a obra do Chico Buarque (sim, escrevi o texto todo só pra protestar no lugar dele). O que ele faz, muitas vezes, são canções sobre pessoas. Algumas canções sobre elas, outras vezes simulando que as pessoas dizem de si. Estamos tão desacostumados a ver mulheres como gente, como iguais, que precisamos (como sociedade) criar uma delimitação a parte para quando, em uma canção, é evidenciado que é uma mulher o sujeito.
Mulher não é isso, homem não é aquilo. Somos, homens, mulheres ou mesmo os que não se identificam com nenhum dos dois gêneros, o que fazemos de nós a partir do que é feito de nós pela época, lugar, contexto, oportunidades em que estamos inseridos. E vamos fazendo nossa época, lugar, contexto e oportunidades a partir do que somos e fazemos.

Eu não acho que o Chico entende a alma feminina porque não há esse objeto “alma feminina” pra ser encontrado, nem entendido, nem descrito, nem nada. O que eu acho é que ele apresenta discursos e personagens de pessoas, ora mulheres, ora homens, ora sem definição de gênero, de uma forma complexa, bela, intrigante e cativante. Acho que ele traz personagens humanos e envolventes, em situações que, vividas de forma particular mas com elementos históricos e contexto, nos tocam e provocam.

Extraído de http://blogueirasfeministas.com

Tags: Buarque / Hime / miúdos / trocando /
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Marcos disse:

Este é uma poema com uma mensagem política muito bem escrita. Marca de amor nos lençóis ( tortura)
Aliança pode empenhar ou derreter ( entregar nossas riquesas a estrangeiros.
Disco do Pixinguinha, pixinguinha compunha sem teor político. Neruda era comunista coisas escritas por ele serviam de prova.
Aceite a ajuda de seu futuro amor . E que íamos alugar a Brasil para os gringos.
Vou sair sem fazer alarde, era o exílio.
Levo a carteira de indentidade era quando entregavam o passaporte dentro do avião para partir.
Ele o Chico só mentiu quando disse que não iria cobrar pelo enorme estrago, cobrou e cobrou caro.