Vai passar

Francis Hime & Chico Buarque

No mais resguardado isolamento, Chico trabalha num cômodo espaçoso de sua casa, misto de biblioteca, escritório e sala de estar, que chama de estúdio. Se a composição é só sua, em geral letra e melodia nascem juntas – às vezes, em “enxurradas”, como ele diz. “Quando começa, desembesta.” Na esteira de “Deus lhe pague” veio “Construção”, “Brejo da cruz” desencalhou “Suburbano coração”, encalacrada havia muitos anos. Como não escreve música com suficiente desembaraço, Chico usa um pequeno gravador para fazer seus rascunhos sonoros, em fitas que vai guardando.

Um desses cassetes, pelo menos, contém uma preciosidade: o registro do momento exato em que surgiu o samba “Vai passar”, em 1983. Chico trabalhava no samba-enredo “Dr. Getúlio”, feito em parceria com Edu Lobo para o musical de mesmo nome. Letra e música estavam prontas, faltando apenas acertar o refrão. De repente, em meio aos compassos de “Dr. Getúlio”, começou a insinuar-se um outro samba; Chico se pôs a persegui-lo, ora com o violão, ora apenas com a voz, resvalando aqui e ali de volta ao refrão do musical – até finalmente encontrar:

“Ai que vida boa, olerê
Ai que vida boa, olará…”

Não foi além disso naquele dia. Uma segunda fita, gravada algum tempo depois, documenta o que Chico considera o auge de sua “ilusão coletivista”: a tentativa de fazer daquele esboço um samba de vários parceiros. Para isso reuniu em casa um grupo de compositores – Edu Lobo, Fagner, Francis Hime, João Bosco, Carlinhos Vergueiro, João Nogueira -, depois de um jogo do “Politheama”. Bem que tentaram, mas não deu certo: daquele berreiro não saiu um verso que prestasse. Nem tudo, porém foi esforço perdido: Francis, ao piano, conseguiu dar um jeito na melodia, cujo tom subia, subia e não voltava mais. Mas ainda não foi dessa vez que “Vai passar” ficou pronta. Posta de lado, Chico só a resgatou no ano seguinte, ao reunir material para um novo LP. Mostrou então aquele samba ao produtor Homero Ferreira, seu ex-cunhado, e ao arranjador Cristóvão Bastos, que ficaram entusiasmados. Ali mesmo, no estúdio, a letra foi terminada (ouça adiante!).

© Copyright Humberto Werneck, Gol de letras, em Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989.

Chico Buarque & Coro(1984)

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