A volta do malandro

Chico Buarque

NA – Como você trabalha com ele?

Chico – Consegui bons resultados, mas é difícil explicar sem mostrar a música. Por exemplo: eu estava fazendo uma música, “A volta do malandro” (ouça e veja adiante!), e na minha cabeça havia duas batidas de violão completamente diferentes, um contraponto rítmico que me interessava. Eu tocava uma e ouvia outra ao mesmo tempo – ouvia na minha cabeça. Usando aquele gravador, ficou mais fácil: gravei a primeira batida, que era seca, constante, quase de rock, e em seguida a outra, sincopada. Depois, ouvi as duas juntas, e pronto: em cima delas arrematei a melodia. Na hora, eu não tinha muito clara a ideia do que ia sair, mas acabou ficando melhor do que eu imaginava.

NA – Então, esse recurso tecnológico – embora, como você mesmo diz, já um tanto antiquado, acabou influindo em seu processo de criação.

Chico – É, e às vezes tenho vontade de estudar música a fundo, de me tornar um músico mais completo, para dominar toda a linha de criação, do primeiro lampejo ao resultado final. A canção é enriquecida pelo trabalho dos músicos, do arranjador, do produtor, pelos recursos do estúdio, e isso me dá um pouco de ciúme. Muitas vezes, tenho ideias que não aparecem em uma gravação porque não sei verbalizar o que quero.

Fonte: Entrevista para a Revista “Nossa América”, 1989

 

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Trecho retirado do filme “Ópera do malandro” com coreografia de Carlinhos de Jesus utilizando a gravação de “A Gang”(1985) (ouça e veja adiante!).

Tags: Buarque / Gang / Jesus / malandro / Volta /
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