João valentão
Este samba-canção clássico foi inspirado em um pescador chamado Carapeba, muito amigo de Caymmi, e é considerado um dos melhores perfis humanos traçados pelo poeta seresteiro da Bahia. O João Valentão do título, aparentemente um homem rude e truculento, quando entra em contato com as coisas da natureza, se transforma em uma pessoa dócil, “que nunca precisa dormir pra sonhar”. Caymmi o gravou na Odeon em 28 de maio de 1953 (ouça adiante!), com lançamento em agosto do mesmo ano, disco 13478-B, matriz 9726. Tem várias regravações (confira em “O tempo não apagou”, clicando aqui).
Extraído de Samuel Machado Filho
Dorival Caymmi & Osvaldo Borba e Orquestra(1953)
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De Athos Schmidt em http://jornalggn.com.br :
Em 2002, eu queria cantar “João valentão” em uma apresentação na semana cultural da Associação Médica do Rio Grande do Sul. Comentei por telefone com um amigo, criado em Minas, “que pena que ele não estivesse ainda vivo”, senão eu pediria a ele a partitura de um arranjo, para que o pianista pudesse me acompanhar.
Esse amigo, cuja família é de Mar de Espanha, é que me contou que ele estava muito vivo em Pequeri.
No dia seguinte, de noite cedo, resolvi arriscar uma idéia maluca que me deu. Liguei para informações de Minas Gerais e disse que eu queria o telefone de Dorival Caymmi em Pequeri. Para minha surpresa, veio logo a gravação “o número solicitado é…”. Eu tomei nota. Ainda meio sem acreditar, liguei. Atendeu uma senhora, a quem eu disse que queria falar com o senhor Dorival Caymmi. “Quem é?” “Aqui é um médico, do Rio Grande do Sul, que gostaria muito de falar com ele”, respondi, meio atrapalhado. Ouvi “um momento, por favor”, com um arrepio na espinha.
“Alô – disse ele – “quem é?”
Eu me identifiquei e disse que queria cantar uma música sua. Perguntei pela partitura.
Ele não tinha partitura nenhuma, mas perguntou “o senhor conhece bem a minha música, doutor?” Eu disse que sim. “E esse pianista que vai lhe acompanhar não sabe seguir o senhor?”. Meio encabulado, tive que explicar que se tratava de um pianista clássico, daqueles que só tocam o que está no papel. “Ah!”, disse ele com um tom complacente, “que pena!”
Me perguntou se eu gostava das músicas dele. “É claro que sim, maestro” – e maestro era a única palavra que na hora eu encontrei para me dirigir ao mestre. Ele quis saber o que eu fazia, eu perguntava sobre como ele estava e disse que prazer e que orgulho estar falando pessoalmente com ele, que para mim era um ícone, um monstro sagrado da música, desde a minha infância.
Um homem simples, humilde, que parecia lisonjeado por ter sido lembrado depois de tanto silêncio.
Eu, lisonjeado pela permissão que ele dava de entrar de surpresa em sua casa e ser recebido de forma tão gentil.
Conversamos cerca de meia hora. Depois desligamos. Ele disse que ligasse para conversar sempre que quisesse. Eu também lhe dei meu telefone. Nunca mais nos ligamos, nem nos falamos de novo. Foi daqueles recortes da vida que ocorrem apenas uma vez, marcam… e bastam.
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Tipos da vida real inspiraram vários personagens que habitam as canções de Dorival Caymmi, como o amigo Zezinho (“Maracangalha”), a anônima dançarina de frevo (“Dora”) e o pescador Carapeba, modelo de “João valentão”.
Com um prólogo em andamento rápido e duas partes lentas, em ritmo de samba-canção, esta composição retrata a figura de João Valentão, um sujeito rude, brigão, mas que também tem seus momentos de amor e ternura.
Uma peça tipicamente caymmiana, “João valentão” ostenta versos do mais puro lirismo como os que encerram a segunda parte: “E assim adormece esse homem / que nunca precisa dormir pra sonhar / porque não há sonho mais lindo / do que sua terra / não há”.
Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br
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JOÃO VALENTÃO É UM CARA LEGAL
Eduardo Biz em 05/04/2010
Na revista ‘Veja’ dessa semana, o colunista Roberto Pompeu de Toledo escreveu um texto bacana sobre três grandes personagens da MPB, encontrados em canções célebres do repertório nacional. Um deles é “João valentão”, da música de Dorival Caymmi de mesmo título, que fui conhecer há alguns anos através de um DVD da Maria Bethânia, onde Nana Caymmi faz uma participação especial.
Essa música sempre me chamou atenção, não apenas pela interpretação forte da Nana, mas pelas contradições que a letra carrega. Basicamente, como o próprio título sugere, fala sobre um brutamontes que não dispensa uma boa briga, mas cujo coração amolece no final do dia, quando chega cansado para o aconchego do lar.
Não sei explicar exatamente porque, mas acho que essa música tem um alto nível de identificação com nós brasileiros, e sinto um certo orgulho patriótico ao ouvi-la. Talvez seja porque “João valentão” é, simultaneamente, o bruto e o sensível, como nós também aprendemos a ser para conseguir viver num país tão problemático e também tão belo. Esse lance de “não precisar dormir pra sonhar, porque não há sonho mais lindo do que sua terra” me pega de jeito, ou vai ver só acordei meio tupiniquim hoje.
Extraído de https://blogalgunstormentos.wordpress.com
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No programa “Brasil Sonoro”, de Anildo Guedes, levado ao ar no dia 30/04/2016, pela E-Paraná – 97,1 FM e 630 AM, a canção “João valentão” foi por nós lembrada no quadro ‘QUAL DELAS ?’ (ouça adiante!).
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João valentão” é uma célebre música de Dorival Caymmi (1953) que retrata um pescador forte e briguento durante o dia, mas sensível ao entardecer. O termo representa a dualidade entre a coragem/rudeza (valentão) e a ternura/trabalho, simbolizando o homem comum, apegado à sua terra, ao mar e ao amor, com momentos de descanso e sonho.
Significado e Características (João valentão):
- A Dualidade: João é descrito como “brigão”, de “bofetão” e que “nem pensa na vida”, mas ao final do dia, relaxa, aprecia o mar e o carinho de sua companheira.
- O Pescador: Inspirado em um pescador real de quem Caymmi ouviu histórias, João é a personificação do trabalhador brasileiro, forte e corajoso.
- O Apego à Terra: A música destaca seu amor pelo lugar onde vive, sendo um hino ao pertencimento e à valorização das coisas simples.
Sinônimos e Ideias Relacionadas:
- Valente, briguento, valentão.
- Pescador, homem do mar, trabalhador rude.
- Protagonista da MPB, personagem icônico.
Usage Examples (Contexto da Música):
- “João Valentão é brigão / Pra dar bofetão / Não presta atenção e nem pensa na vida”.
- “Quando está em cena o Valentão, samba rasgado; quando aparece o João romântico, um lindo samba-canção”.
- “É quando o sol vai quebrando / Lá pro fim do mundo pra noite chegar” (momento de transição da personalidade de João).
O personagem, de acordo com o Jornal de Poesia, foi inspirado em um pescador real, forte e negro, que inspirava medo, mas que também era um ser de ternura.
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João Valentão setentão: o pescador que Caymmi levou nove anos para transformar em música
Pedro Paulo Malta
Dorival Caymmi foi um mestre não só na arte de compor, mas também na de criar personagens emblemáticos que estrelaram sua obra – em ritmo de samba, samba-canção ou canção praieira (três principais vertentes da música do compositor baiano). Como Dora, a rainha do frevo e do maracatu. Marina, a morena Marina, que já é bonita com o que Deus lhe deu. Ou Adalgisa, que avisa que a Bahia tá viva ainda lá… Tem o Pedro, que vivia da pesca e saía às seis horas, antes do sol raiar. E ainda outro pescador, brigão e sonhador, que tomou forma em “João Valentão”, sucesso gravado pela primeira vez há exatos 70 anos (28-05-1953), na voz do próprio Caymmi, com acompanhamento de orquestra. Mas que nasceu bem antes, como tinha de ser, numa beira de praia.
Isso no areal de Itapuã, na Bahia, onde Dorival passava temporadas com seus amigos desde a adolescência, no começo da década de 1930. Distante do centro de Salvador, a praia, onde hoje há a Praça Caymmi (inaugurada em 1953), é um local absolutamente fundamental na trajetória do compositor baiano: foi lá que se deu seu encantamento pelo mar, pelos pescadores e pelas histórias que transformaria em música na porção mais expressiva de sua obra: as “canções praieiras”.
Até que, no verão de 1936, um desses tipos chamou sua atenção: “Uma pessoa querida, um pescador – eu nunca soube o nome dele – com apelido de Carapeba, nome de peixe”, como Dorival relembrou à sua neta, Stella Caymmi, na biografia “Dorival Caymmi: o mar e o tempo” (Editora 34, 2001). “Ele era musculoso, não era um galã, era pai do Aurelino, que era pescador, com quem eu me dava por causa da idade. Carapeba era um ídolo pra mim”.
Certo dia, Carapeba convidou-o para acompanhá-lo numa pescaria, saindo de barco às cinco da manhã, mas Dorival, não querendo perder o dia de praia com os amigos, não apareceu. No fim do dia, sua ausência foi cobrada pelo pescador na frente de todos: “Você disse que ia!” A reação mexeu com o rapaz, já então pensando em dedicar-lhe uma música. “Aí fiz o tipo que estava dentro de mim, passei pra ele um pouco de mim, botei aquela figura”, contou à neta Stella. Um início criado de supetão, “fazendo versos espontaneamente”.
João Valentão é brigão
Pra dar bofetão
Não presta atenção
E nem pensa na vida
A todos João intimida
Faz coisas que até Deus duvida
Mas tem seu momento na vida
Já na segunda parte, mais contemplativa, descreve o ambiente de Itapuã que o inspirou a compor a música. “Mas isso estou debaixo de muita estrela, aquele areal todo, aquela fresca da noite, aquelas meninas, aquela coisa toda, aquele cheiro”, relata Dorival em sua biografia, contextualizando as imagens que se seguem na canção: o sol que se põe “lá pro fim do mundo”, a noite que chega e o ronco das ondas na beira do mar. Só aí volta a falar no personagem.
É quando o cansaço da lida da vida obriga João se sentar
É quando a morena se encolhe, se chega pro lado querendo agradar
Se a noite é de lua a vontade é contar mentiras, é se espreguiçar
Deitar na areia da praia que acaba onde a vista não pode alcançar…
“Quando eu fiz ‘deitar na areia da praia’… Deitar na areia da praia é muito gostoso, não é? Aí parei”, contou Dorival a Stella Caymmi. “Eu pensava: ‘O que pode acontecer a ele? O que é que pode ser?’ Via uma coisa e não dava. Eu dizia: ‘Esquece’. Aí, um ano, um ano e meio…”, prossegue o compositor, com a falta de pressa que lhe é peculiar. “Tempo é um negócio assim de alto mistério, tempo pra mim é… O tempo não precisa de relógio, não precisa de medida nem nada. Se você pudesse acompanhar o sol, teria um elemento constante: o tempo. Então, tem um orixá no candomblé chamado Tempo, porque ele rege exatamente esse tempo que significa tudo de que a gente depende”.
Assim, o arremate da história veio nove anos depois, em 1945: Dorival Caymmi já no Rio de Janeiro (onde morava desde 1938) e artista de sucesso. Vinha no bonde do Grajaú, acompanhado do ator e radialista Paulo Gracindo e da cantora Aracy de Almeida, que reclamou: “Eu estou falando com você um negócio e você não está ouvindo”. É que ali, num banco no fundo do bonde, a história de “João Valentão” completou-se de estalo. “Eu tinha achado: e assim adormece esse homem, que nunca precisa dormir pra sonhar, porque não há sonho mais lindo do que sua terra, não há.” Cantou a música para amigos e um lhe sugeriu de trocar “sua terra” por “sua vida”, numa escolha que lhe tomou mais algum tempo. “Aí achei que terra abrangia melhor, encorpava melhor, adocicava melhor a coisa, o pé na terra”.
Entre os atrativos da composição de Caymmi estava sua estrutura: na abertura, um “frenético ritmo de samba-batucada”, como define Zuza Homem de Mello no livro “Copacabana” (Editora 34, 2017), intenso como as façanhas do Valentão – estas ressaltadas pela sequência de palavras no aumentativo. Até que, subitamente, quando se chega ao ponto em que o personagem tem “seu momento na vida”, o ritmo subitamente se altera: é num andamento mais lento, de samba-canção, que ficamos sabendo da faceta terna do pescador.
Uma estrutura que, segundo o músico e linguista Luiz Tatit, representa uma das “facetas mais esquisitas” que Caymmi apresenta em sua obra: “João Valentão” não é só samba; nem só samba-canção; nem só canção praieira – é tudo isso, com “uma primeira parte que nada tem a ver com a segunda”, como ele definiu ao jornal O Estado de S. Paulo (30-04-2004). “Na primeira, ele faz uma espécie de apresentação do que vai acontecer”, como experimentou também em “Canoeiro” e “Rainha do mar”.
Um dos primeiros a conhecer “João Valentão” em sua forma definitiva foi o escritor Jorge Amado, amigo-irmão de Caymmi, que, recordando a audição à Manchete (26-10-1963), definiu a canção como “um retrato do negro baiano – e retrato de corpo inteiro. Enquanto Caymmi cantava eu via não o negro João Valentão, mas muitos outros negros baianos que conheci na beira do cais, na feira de Água dos Meninos, no Largo das Sete Portas, no Mercado do Ouro. Recordei-me – perdoai-me a vaidade! – do negro Antônio Balduíno, que criei nas páginas do ‘Jubiabá’”.
Caymmi passou, então, a apresentar sua nova criação em shows na noite carioca e turnês pelo Brasil. Logo começaram a pipocar notinhas sobre quem iria lançar a música em disco: um postulante era Dick Farney, o outro seu rival Lucio Alves… Até que o suplemento cultural A Noite Ilustrada (25-03-1947) informou que “João Valentão” seria gravado mesmo por seu próprio criador, recém chegado “de uma excursão pelo Norte”. Mas pra que pressa…?
Só em 28 de maio de 1953 deu-se a gravação original, feita pelo próprio Dorival, com acompanhamento de Osvaldo Borba e sua Orquestra, no estúdio da Odeon, localizado no Edifício São Borja (Avenida Rio Branco, Centro do Rio). Já o disco – o 78 rotações de nº 13478 – saiu apenas em agosto daquele ano, com “João Valentão” no lado B – no A estava a primeira gravação de outro samba-canção de Caymmi, “Tão só” (em parceria com Carlos Guinle), gravado por ele na mesma sessão de 28-05-1953. Mas foi mesmo a história do pescador de Itapuã que largou na frente na preferência das emissoras de rádio.
Uma popularidade que se consolidou com o tempo, como se pode ver, por exemplo, nas sucessivas menções que a música recebeu nas enquetes promovidas pelas revistas da época. Como Manchete (03-10-53), que perguntou a personalidades da música quais “os 10 melhores sambas”: a composição de Caymmi foi escolhida por Radamés Gnattali (que escolheu também “Dora”) e Sílvio Caldas (que selecionou “Dora” e “Marina”). O samba-canção foi lembrado também em enquetes na Revista do Rádio – por Carlos Galindo (02-04-55) e Ismael Neto (28-05-55) – e na Revista do Disco – por Marlene (novembro/1954) e Gilberto Milfont (maio/1957). Já n’O Cruzeiro (03-09-55), o cartunista Péricles elegeu não só “João Valentão” (melhor samba), como Dorival Caymmi (melhor compositor).
Logo “João Valentão” ganhou novas interpretações, a começar pelo piano do concertista cearense Jacques Klein, que incluiu a música no LP de dez polegadas dedicado a Caymmi que fez em 1953 pela Sinter. Outras gravações saíram na sequência, como duas em setembro, por intérpretes paulistas: uma do cantor-locutor Osni Silva e outra de Juanita Cavalcanti – esta alterando a melodia original. Em novembro, foi a vez de a história ser recontada nas vozes terçadas das irmãs mineiras Neide e Nanci.
Já em 1955 a ode ao pescador Carapeba ganhou mais uma versão instrumental, com o Trio Surdina, e no ano seguinte veio a interpretação delicada da cantora e estrela de cinema Vanja Orico. Já em 1958 “João Valentão” foi relida ao piano por Ary Barroso e ganhou uma interpretação exuberante com Angela Maria – antecipando outra gravação marcante da música, lançada em 1965 por sua seguidora mais famosa, Elis Regina. Já Chico Buarque não gravou o “João”, mas o incluiu entre as três músicas que levaria para uma ilha deserta, como contou à revista O Cruzeiro, na edição de 18-03-1967 (as outras duas: “Amélia” e “Quando o samba acabou”).
Outras vozes femininas recontaram a história de João, como as paulistas Inezita Barroso (1979) e Ná Ozzetti (2001) e as cariocas Áurea Martins (2004) e Beth Carvalho (2007). Também do Rio são os conjuntos Sururu na Roda e Casuarina, que gravaram a música em 2004 e 2014, respectivamente.
Já entre os conterrâneos de Caymmi, destacam-se interpretações como as de Simone (1973), Caetano Veloso (1994), sua irmã Maria Bethânia (2004) e Gal Costa, que incluiu a canção em dois especiais de TV que gravou: na Globo (1981) e na Cultura (1994). Com “uma extraordinária melodia e uma letra comovente”, “João Valentão” está entre as preferidas de Gal, como disse a cantora ao Estado de S. Paulo (30-04-2004): “Talvez seja a canção mais bonita dele”.
Dorival Caymmi também regravou sua composição (1985), assim como seus dois filhos mais velhos. Da primogênita Nana Caymmi foram quatro registros, sendo dois de estúdio – com Gilson Peranzzetta (1986) e com Wagner Tiso (1994) – e dois ao vivo: num show da família Caymmi (1987) e na participação especial que fez no CD/DVD “Brasileirinho ao vivo”, de Maria Bethânia (2004). Dez anos depois, foi a vez de Dori Caymmi cantá-la, em belo arranjo de Mário Adnet, no CD “Caymmi centenário”.
“Herdei do papai o amor pelo Brasil”, disse Dori à já citada matéria do jornal O Estado de S. Paulo, destacando os quatro últimos versos de “João Valentão” como os que mais o comovem. “Sempre choro quando canto isso”.
E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo
Do que sua terra, não há
Pois foi justamente com estes versos, declamados por Dori, que Dorival Caymmi foi sepultado no Cemitério São João Baptista, no bairro carioca de Botafogo, em 17 de agosto de 2008 – dia seguinte a seu falecimento, aos 94 anos, em seu apartamento em Copacabana.
https://discografiabrasileira.com.br/
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Em “João valentão”, que compôs e gravou em 1953, Dorival Caymmi botou em cena alguns dos elementos espalhados em sua obra de poucos títulos, mas monumental para a cultura brasileira. O João também vive à beira da praia e não é só valentão, tem seus momentos de amor e ternura. O acompanhamento é da orquestra de Oswaldo Borba. Quando está em cena o Valentão, samba rasgado; quando aparece o João romântico, um lindo samba-canção. O fonograma também está no site Discografia Brasileira, do IMS.
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A dualidade do personagem em “João valentão” de Dorival Caymmi
“João valentão”, de Dorival Caymmi, apresenta um personagem inspirado no pescador Carapeba, figura real de Itapuã. A música destaca a dualidade de João: durante o dia, ele é conhecido por sua bravura e comportamento briguento, como mostram os versos “João Valentão é brigão / Pra dar bofetão / Não presta atenção e nem pensa na vida”. No entanto, ao entardecer, surge um lado sensível e contemplativo, evidenciado pela mudança no ritmo da canção, que alterna entre momentos agitados e suaves para refletir esse contraste.
O trecho “É quando o sol vai quebrando / Lá pro fim do mundo pra noite chegar” marca o momento em que João relaxa após o trabalho, ouvindo o mar e recebendo o carinho da morena. A menção à vontade de “contar mentira” e “deitar na areia da praia” faz referência ao costume dos pescadores de compartilhar histórias e aproveitar a simplicidade da vida à beira-mar. O verso final, “Porque não há sonho mais lindo do que sua terra”, resume o apego de João ao seu lugar de origem, mostrando que sua felicidade está nas pequenas coisas e no sentimento de pertencimento. Esse verso foi escolhido para o funeral de Dorival Caymmi, reforçando o valor afetivo e simbólico da música para o compositor e sua família.
https://www.letras.mus.br/
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A ternura de “João valentão”
Antônio Claudio Mariz de Oliveira
23 de janeiro de 2024
A música, seja ela de que gênero for, clássica, popular, nacional, estrangeira, nos provoca assim que é ouvida, uma sensação de agrado ou de desagrado. Salvo os musicistas e os críticos que analisam a melodia, o seu andamento, os acordes, o ritmo e demais aspectos, nós, os mortais, nos limitamos a gostar ou não, independente das razões das nossas preferências. Apreciamos ou não e ponto final.
No entanto, há algo nas canções populares que nos chama a atenção, por vezes mais do que a melodia. Trata-se das letras. Essas merecem uma análise que ultrapassa os limites do gostar ou não, e, obviamente, não implica em se ter melhor ou pior ouvido musical.
Nesse ponto me permito uma observação. Eu sempre fui desprovido de bom ouvido. Minha mãe era, ao contrário, dotada de excelente aptidão musical. Tocava violão, piano, durante algum tempo harmônica. Aliás, qual é a diferença entre harmônica e sanfona? Eu nunca soube.
Meu irmão, José Eduardo, seguiu os passos de minha mãe. Dotado de dom musical, que não se adquire, por ser inato, com seis anos dedilhava um piano. Tocava de ouvido, pois talvez não soubesse ler partituras.
Do meu pai herdei a desafinação. Ele não conseguia distinguir uma nota de outra, assim como eu, e sequer sabia assobiar, eu idem. Gostava muito de música e tinha as suas preferidas. As cantava alto e em bom som, agredindo os ouvidos de quem estivesse por perto. Dentre elas lembro-me de “Maria bonita”; “Maringá”; “A marcha do expedicionário”; “Chão de estrelas” e vários tangos, dentre esses “Adios muchachos”.
Devo esclarecer que as minhas dificuldades musicais não se davam por falta de esforço e de empenho da minha mãe. Ela sempre foi uma entusiasta esperançosa de que o filho um dia despertasse para a música. Suas esperanças duraram até o dia em que me deu um pandeiro e eu mostrei-me inepto até para esse instrumento.
Voltando às letras das músicas. As brasileiras nos apresentam facetas vinculadas às nossas realidades do passado, do presente, das várias regiões do país, dos nossos hábitos, feitos históricos, personagens, cidades, locais específicos, carências, mazelas, política. Enfim, todas as nuances e características do homem brasileiro e da sua sociedade foram e são retratadas por letras que abordam uma grande diversidade de temas. Românticas, de exaltação nacional, hilariantes, de apologia ao trabalho ou à malandragem, cantando as belezas de uma cidade, de um bairro, do sertão, das favelas, uma diversidade que abrange a vida em sua integralidade.
Eu pretendo, em outros escritos, tecer comentários sobre músicas específicas. Começo hoje. Trata-se de uma canção de Dorival Caymmi, “João Valentão”. Traça o retrato de um briguento com perfil desafiador e experiência nos confrontos físicos, não possui preocupação com a vida e com o futuro. “Não presta atenção em nada” e “a todos intimida”, as proezas de João e o seu jeito de ser compõem a identidade da música.
No entanto, existe uma parte de puro lirismo, sobre os seus sonhos embalados pela beleza de sua terra. Há um momento, fim do dia “quando o sol vai quebrando lá pro fim do mundo” e obriga “João a sentar” em companhia da morena quando a “noite é de lua” e ele tem vontade de “contar mentira e de se espreguiçar”. A canção termina com a belíssima mensagem de que João “nunca precisa dormir para sonhar” porque “não há sonho mais lindo do que a sua terra não há”.
https://www.migalhas.com.br/coluna/marizalhas/400730/a-ternura-de-joao-valentao
Eu só conhecia o samba, mas não conhecia a história do pescador Carapeba que inspirou o patriarca Caymmi de uma família de tantos herdeiros musicais confirmando o dito popular de que: “Filho(s) de peixe peixinho(s) é (são)”. Com todo respeito aos demais intérpretes de “João Valentão” eu continuo “tirando o meu chapéu” pro poeta Caymmi de tantos versos de sucessos como: “Marina morena Marina e Como é doce morrer no mar”. Eu voto na gravação original do poeta.
Eu sempre fiz questão de saber os compositores das músicas. E todas as músicas tem uma estória por trás da Letra.
Eu conheço várias estórias e João Valentão eu não sabia.
Muito bom.
Parabéns
Está canção nos dá a imagem do homem rude brigão por outro lado do homem terno tranquilo. O valente é pela vida que leva o brigão é dificuldade que enfrenta e o terno é Quando está com seu amor.
além da gravação original de Dorival Caymmi, do Trio Surdina (instrumental) e de Elis Regina , teve uma gravacao também de Nana Caymmi.Elis gravou Joao Valentão em seu álbum de 1965 Samba, eu Canto Assim, buscando consolidar seu repertório com compositores de grande peso da MPB .A interpretação destacou-se por um arranjo inovador de Paulo Moura, que trouxe toques de samba-jazz, evidenciando o talento de Elis em renovar clássicos. A Gravação com acompanhamento do Rio 65 Trio, amaciou a grandiloquencia da versão original, trazendo uma sofisticação rítmica tipica da época. uma obra de arte.

