Não tenho lágrimas
As lágrimas não choradas de Wilson Baptista
LUCIANO HORTENCIO
Em 02/04/2014
O samba “Não tenho lágrimas” é uma das composições mais conhecidas e gravadas desse Brasil de meu Deus (confira em “O tempo não apagou”), gravada ainda por vários artistas estrangeiros, a exemplo de Xavier Cugat e Nat King Cole, que a incluiu no seu LP de 1959, “A mis amigos”.
No Brasil, a gravação original coube a Patrício Teixeira (ouça adiante!), seguido por Jorge Veiga, Luiz Bonfá, Jacob do Bandolim, Zaccarias e sua Orquestra, Emilinha Borba, Paulinho da Viola e muitos outros intérpretes importantes na nossa música brasileira.
O que poucos sabem é que “Não tenho lágrimas”, registrada por Maximiliano Bulhões e Milton de Oliveira, foi veementemente reclamada por Wilson Baptista como sendo da autoria de Max Bulhões o coro e a primeira parte, sendo a segunda parte de sua lavra.
Isso está consignado no livro de Rodrigo Alzuguir – Wilson Baptista – ‘O SAMBA FOI SUA GLÓRIA’.
Wilson escreveria sobre o encontro:
“Uma noite, há muitos anos, quando iniciava a minha gostosa carreira de compositor, entrei na porta da Leiteria Ópera, ponto de Artistas na rua Pedro I, quando me aparece Max Bulhões e me diz:
– Vem cá depressa. Ouça esse coro que eu fabriquei agora no bonde. Ainda não tem título, nem segunda parte, mas, se você tiver tempo, pode me ajudar….
– Pode fazer a segunda, que já tenho com quem colocar.
“Saí cantarolando o coro, cantarolando. Na hora de dormir, trabalhei. Trabalhei de manhã quando acordei. Até que acertei a segunda parte: “Estou certo que o riso não tem nenhum valor/A lágrima sincera é o retrato de uma dor/O destino assim quis, de mim te separar/Quero chorar e não posso/Vivo a soluçar“.
Rodrigo Alzuguir volta ao assunto ainda às págs. 186; 194; 195; 196 e 197. Segundo o autor, Wilson Baptista lutou e reclamou seus direitos de parceiro até sua morte.
No mesmo sentido o escritor Bruno Ferreira Gomes, em seu ‘Wilson Batista e sua época’, Funarte, 1985, às págs. 63 e 64:
“Wilson não era de lamentar a venda de uma música, especialmente porque quando ele as vendia por inteiro, nunca faziam sucesso. (…) Mas havia uma que, a todo momento, Wilson se queixava de que a roubaram dele. Tratava-se de “Não tenho lágrimas”. (…) Milton de Oliveira diz que de forma alguma a música é de Wilson, e que ele jamais contribuiu de qualquer maneira para a sua confecção. Disse que a primeira parte surgiu com Max Bulhões e eles fizeram juntos a segunda parte. A composição, segundo Milton de Oliveira, é de 1932 e ele tentou gravá-la com o cantor Leonel Faria nessa época. Aliás mostrou duas composições dele com Max Bulhões, sendo que a outra era “Sabiá laranjeira”. E disse que Leonel não quis gravar nenhuma delas, o mesmo sucedendo com Gastão Formenti, que alegou não serem músicas de seu estilo. Só, portanto, cinco anos após, o “Não tenho lágrimas” foi gravado, justamente com o “Sabiá laranjeira”, pelo cantor Patrício Teixeira.”
Trago o assunto à baila como uma curiosidade, bem como para mostrar a situação difícil em que viviam os compositores da primeira metade do século XX, mal pagos e sem o reconhecimento que mereciam, dependendo de cantores que, muitas vezes ganhavam o nome registrado como compositor simplesmente por gravar a composição. Ainda há que se notar um verdadeiro comércio de músicas, com adiantamentos e outros expedientes tais para ajudar na sobrevivência.
Extraído de http://jornalggn.com.br/
Patricio Teixeira & Coro & Conjunto Regional RCA Victor(1937)
X.X.X.X.X
Lançado em agosto de 37, “Não tenho lágrimas” agradou de saída, estendendo seu sucesso ao carnaval seguinte, quando foi um dos sambas vencedores. Segundo se comentou no meio musical da época, este samba teria estribilho de Max Bulhões e segunda parte de Wilson Batista. Milton de Oliveira entrara no lugar de Wilson por ter conseguido a gravação. Como “indenização”, Bulhões teria pagado trinta mil-réis a Wilson.
Igual a tantas outras, esta é apenas mais uma história de venda de samba, que ficou no disse-me-disse, sem comprovação. A verdade, porém, é que “Não tenho lágrimas” (também chamado de “Quero chorar”) permaneceu e tornou-se um clássico. Gravado despretensiosamente no original pelo cantor e professor de violão Patrício Teixeira, possui extensa discografia que inclui intérpretes internacionais como Xavier Cugat e Nat “King” Cole. Nat o gravou em 1959 no elepê “A mis amigos”, com o título de “Come to mardi gras”, graças à beleza de sua melodia (ouça adiante!).
Teoricamente, os últimos quatro compassos do estribilho (“Só porque não sei chorar / eu vivo triste a sofrer”) parecem um rabicho colado ao tema principal. Na prática, a despeito de aumentarem para vinte os tradicionais 16 compassos, esses últimos quatro compassos são um fecho “tipo breque” de tal originalidade que dispensariam até a segunda parte, menos criativa.
Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br
Nat King Cole(1959)
X.X.X.X.X
Clássico do samba, assinado por Max Bulhões e Milton de Oliveira. Foi imortalizado por Patrício Teixeira na Victor em 13 de maio de 1937 e lançado em agosto do mesmo ano, sob número de disco 34193-A, matriz 80403. O sucesso foi tanto que este desaguou no carnaval de 38, o que também aconteceu com o lado B, “Sabiá-laranjeira”, dos mesmos autores, também aqui conferível. Em 1959, “Não tenho lágrimas” foi regravado em português pelo cantor norte-americano Nat King Cole, durante temporada no Brasil, alcançando êxito mundial. Na França, por exemplo, recebeu o extravagante título de “Un soir de carnaval”. Houve uma continuação em 1943, “Já tenho lágrimas”, igualmente lançada por Patrício Teixeira, mas sem repercussão. Direitos fonográficos reservados à Sony Music Entertainment (Brasil Ltda. ISRC: BRBMG-3700024.
Extraído de Samuel Machado Filho
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