O mestre sala dos mares
João Cândido vive! O almirante negro, mestre-sala dos mares, foi mais que um marinheiro — foi símbolo de coragem, dignidade e resistência. Em 1910, liderou a ‘Revolta da Chibata’, erguendo-se contra os castigos corporais que ainda ecoavam o passado escravocrata dentro da Marinha brasileira.
24 de jun. de 2025
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Nos anos 70, os músicos Aldir Blanc e João Bosco compuseram uma canção em homenagem a João Cândido Felisberto, o almirante negro. O problema é que estavam exaltando um marinheiro rebelde em plena ditadura militar. A censura, claro, não achou graça nenhuma.
29 de nov. de 2022
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“O mestre-sala dos mares“ é uma canção composta por João Bosco e Aldir Blanc em 1974, em homenagem à figura de João Cândido.
A canção foi gravada pela primeira vez, pela cantora gaúcha Elis Regina em seu álbum de 1974 ‘Elis’ (ouça adiante!).
João Bosco e Aldir Blanc também gravariam a canção nos momentos seguintes, respectivamente nos álbuns ‘Caça à Raposa’ de 1974 (ouça adiante!), e ‘Nova História da Música Popular Brasileira’ de 1976.
Composição
Composta pela dupla João Bosco e Aldir Blanc em 1974. A canção representa lutas históricas do povo negro. A música é um espaço público de elaboração e difusão das memórias no pós-abolição.
A letra faz referência a João Cândido, um dos líderes da Revolta da Chibata, ocorrida em novembro de 1910. Tornou-se símbolo da luta antirracista representado em livros, filmes e documentários, enredo de escola de samba e peça de teatro. Na época, a Marinha Oficial Brasileira ainda usava a chibata como técnica de tortura e castigo aos marinheiros negros, que eram a maioria dos trabalhadores, apesar da escravidão ter sido abolida em 1888. O governo de Hermes da Fonseca reprimiu os revoltosos, prendendo grande parte dos marinheiros e expulsando João Cândido da organização.
Censura
Lançada durante a ditadura militar brasileira, a canção foi alvo de censura. Em entrevista para o jornal ‘Folha de S.Paulo’, Aldir Blanc contou que teve que comparecer em algumas oportunidades ao Palácio do Catete para dar explicações sobre a música. Originalmente, a canção iria intitular-se “O almirante negro”, sendo vetada pelo regime. Em nova tentativa, foi proposta a mudança do título da música para “O navegante negro”, também vetada pelo órgão de censura. A música foi autorizada, quando os músicos propuseram o nome “O mestre-sala dos mares”.
Desdobramentos
O líder da chamada Revolta da Chibata, e os demais participantes do movimento receberam anistia “post mortem” reconhecida pela Lei Nº 11.756,de 23 de julho de 2008. O almirante negro – o mestre sala dos mares, João Cândido foi indicado para ser inscrito no livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O PLS 364/2018 foi proposto pelo então senador Lindbergh Farias.
Em 2010 João Cândido foi homenageado com a inserção do seu nome no livro dos heróis e heroínas do Estado do Rio de Janeiro.
Elis Regina(1974)
Joao Bosco(1974)
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“Mestre-sala dos mares” é uma canção de 1974 de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizada por Elis Regina, que exalta João Cândido Felisberto, o “Almirante Negro”. Ele liderou a Revolta da Chibata em 1910 contra castigos corporais e o racismo na Marinha brasileira, tornando-se um símbolo de resistência e luta antirracista.
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Fui apresentado ao compositor João Bosco por um amigo comum, Pedro Lourenço, na época estudioso de literatura. Arte. etc. Pedro havia feito pesquisas sobre a vida de João Cândido e a ‘Revolta da Chibata’. Na mesma época, o MAU (Movimento Artístico Universitário) foi muito influenciado pelo cineasta Cláudio Tolomei, já falecido. Tomolei tinha um projeto de fazer um curta com João Cândido. Formamos uma espécie de quarteto (Bosco, Cláudio, Pedro e eu) estudando e conversando sobre a importância gigantesca da Revolta da Chibata e da figura histórica de João Cândido para a cultura brasileira. Baseado no conhecimento que Pedro e Cláudio tinham do assunto e no livro, um marco, de Edmar Morel, Bosco e eu resolvemos partir para uma estrutura de samba-enredo clássico, que pudesse inclusive ser confundido com os outros sambas-enredos do ano – o que realmente aconteceu e nos emocionou muito. As pessoas ouviam “O mestre-sala dos mares” e perguntavam: “Esse samba é de escola mesmo ?”
Tivemos diversos problemas com a censura. Ouvimos ameaças veladas de que o CENIMAR não toleraria loas e um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais, etc. Fomos várias vezes censurados, apesar das mudanças que fazíamos, tentando não mutilar o que considerávamos as ideias principais da letra. Minha última ida ao Departamento de Censura, então funcionando no Palácio do Catete, me marcou profundamente. Um sujeito, bancando o durão, ficou meio que dando esporro, mãos na cintura, eu sentado numa cadeira e ele de pé, com a coronha da arma no coldre há uns três centímetros do meu nariz. Aí, um outro, bancando o “bonzinho”, disse mais ou menos o seguinte:
– Vocês não então entendendo… Estão trocando as palavras como revolta, sangue, etc. e não é aí que a coisa tá pegando…
Eu, claro, perguntei educadamente se ele poderia me esclarecer melhor. E, como se tivesse levado um telefone nos tímpanos, ouvi, estarrecido a resposta, em voz mais baixa, gutural, cheia de mistério, como quem dá uma dica perigosa:
– O problema é essa história de negro, negro, negro…
Eu havia sido atropelado, não pelas piadinhas tipo tiziu, pudim de asfalto etc, mas pelo panzer do racismo nazi-ideológico oficial.
Decidimos dar uma espécie de sacolejo surrealista na letra para confundir, metemos baleias, polacas, regatas e trocamos o título para o poético e resplandecente “O mestre-sala dos mares”, saindo da insistência dos títulos com ‘Almirante negro’, ‘Navegante negro’, etc. O artifício funcionou bem e a música fez um grande sucesso nas vozes de Elis Regina e João Bosco. Tem até hoje dezenas de regravações (confira em “O tempo não apagou”) e foi tema do enredo “Um herói, uma canção, um enredo – Noite do navegante negro”, da Escola de Samba União da Ilha, em 1985.
Orgulho-me de, por causa deste samba, ter recebido a Medalha Pedro Ernesto, com João Bosco e o próprio Edmar Morel – infelizmente também já falecido – na presença dos filhos de João Cândido.
Aldir Blanc
Letra composta:
O Mestre-Sala dos Mares
João Bosco e Aldir Blanc
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar apareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar, na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos negros
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do marinheiro gritava, então:
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias,
Glória à farofa, à cachaça, às baleias,
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esqueceram jamais………
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
(Mas, salve…)
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Letra após censurada:
O Mestre-Sala dos Mares
João Bosco e Aldir Blanc
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar apareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar, na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do feiticeiro gritava, então:
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias,
Glória à farofa, à cachaça, às baleias,
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esqueceram jamais………
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
(Mas, salve…)
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
https://www.dhnet.org.br/
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Desarquivando o Brasil CLXVI: Aldir Blanc, a censura e a revolta
…outro samba, anterior, teve mais problemas. A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. No capítulo “Perseguição à população e ao movimento negros”, do tomo I, parte II, “Grupos Sociais e Movimentos Perseguidos ou Atingidos Pela Ditadura” do Relatório, a censura à canção “O mestre-sala dos mares” é mencionada como exemplo do racismo da doutrina de segurança nacional:
Um dos casos célebres foi o do samba “O mestre sala dos mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, que cantava o líder negro da ‘Revolta da Chibata’, João Cândido. O samba foi gravado por Elis Regina em 1974, com a letra alterada por força da censura.
O marinheiro João Cândido liderou essa revolta contra os castigos corporais, típicos dos que se usavam contra os escravos (como a chibata), que a Marinha adotava contra os marinheiros. A revolta ocorreu em novembro de 1910. A Marinha desrespeitou a anistia votada pelo Congresso Nacional, assassinou vários dos rebelados. João Cândido morreu no ostracismo, expulso das Forças Armadas.
Ele ficou conhecido como “Almirante Negro” pelo povo. João Bosco e Aldir Blanc, no entanto, foram impedidos de chamá-lo assim pela censura – tornou-se um “navegante negro” – e a referência à tortura contra os negros foi silenciada: o verso, originalmente “rubras cascatas jorravam das costas dos negros”, teve que ser alterado para “rubras cascatas jorravam das costas dos santos”. Lembra Aldir Blanc que ele e Bosco foram acusados pelos censores de fazer “apologia ao negro”.
A ditadura militar era, claro, um regime racista, o que é comum entre regimes genocidas, como este o foi. Cito mais um trecho do Relatório:
A doutrina de segurança nacional era intrinsecamente racista […] O racismo dessa doutrina manifestava-se, entre outros fatores, na negação oficial do racismo e nas práticas discriminatórias do regime contra a população negra, que não se davam apenas no campo da segurança pública: havia a censura, que também seguia a ideologia do branqueamento e da invisibilização do racismo.
Fora do Brasil, no México, Elis Regina cantou a letra não censurada, com “marinheiro”, “Almirante Negro”, “fragatas” e a tortura aos negros. Na primeira versão do samba, que tinha como título “O dragão do mar”, foram passagens que incomodaram os censores.
O veto apontou conteúdo esdrúxulo e mensagem negativa, por causa do tema dos castigos de chibata na Marinha, as “lutas inglórias”, “o trabalhador do cais e sua negritude sofrida”, bem como a própria Revolta histórica dos marinheiros contra seus superiores: A letra teve de ser alterada e suavizada; “gritava não” decaiu em “gritava então”. Se a palavra “chibatas” acabou permanecendo, as referências aos negros foram cortadas, salvo em “o navegante negro”, embora aqui também esteja a mão do racismo da censura: deveria ser o “Almirante”, e não o “navegante”.
João Bosco ainda canta a letra modificada pela chibata. Elis, contudo, sempre foi a voz da revolta (entre outras canções no México, ela interpreta “Conversando no bar (Saudades dos aviões da Panair)”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, outra crítica à ditadura daquela época.
No livro de Luiz Fernando Vianna, Aldir Blanc: Resposta ao tempo – Vida e letras (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013), temos essa passagem do compositor sobre suas filhas mortas e outras perdas:
Tive duas mortes fundamentais muito cedo, as gêmeas. Isso me ancora a uma espécie de respeito pelo passado. Depois, começa a morrer tudo em volta. Meu caderno de telefones é um cemitério: uma cruz atrás da outra. Estou pressionado por essa evidência […]
De fato, ele partiu numa época de pandemia e de outras crises no Brasil e no mundo, em que parece “morrer tudo em volta”.
Postado por Pádua Fernandes
https://opalcoeomundo.blogspot.com/
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Resistência e memória em “O Mestre Sala dos Mares” de Elis Regina
Em “O mestre sala dos mares”, Elis Regina homenageia João Cândido, líder da ‘Revolta da chibata’, usando o termo “mestre-sala” no lugar de “almirante” para evitar a censura da ditadura militar e, ao mesmo tempo, valorizar a figura do mestre-sala como símbolo de dignidade e liderança no carnaval. Essa escolha reforça a importância de João Cândido como alguém que, mesmo diante da opressão, manteve sua postura e elegância, tornando-se um ícone de resistência.
A letra utiliza imagens marcantes, como “rubras cascatas jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas”, para mostrar a violência sofrida pelos marinheiros negros durante a ‘Revolta da chibata’. O refrão “Glória aos piratas, às mulatas, às sereias / Glória à farofa, à cachaça, às baleias” destaca personagens e elementos populares e marginalizados da cultura brasileira, valorizando o que normalmente é excluído da história oficial. Ao citar “todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais”, a música amplia a homenagem a todos que resistiram e lutaram, mesmo sem reconhecimento. O verso “tem por monumento as pedras pisadas dos cais” mostra que a verdadeira memória desses heróis está nos lugares e nas pessoas, não em estátuas, mas na história vivida pelo povo.
https://www.letras.mus.br/
desconhecia essa questao da censura, e bom tomar conhecimento, ainda mais em tempos do sucesso do Filme Ainda Estou Aqui que trata exatamente desse assunto
apesar de toda a genialidade da Ellis, me parece que a gravacao com Joao Bosco preserva o ritmo original, uma das perolas da musica popular brasileira
Muito bom!
História na canção! Cantando e aprendendo sempre!
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