Pedro pedreiro

Chico Buarque

Chico já não era apenas “o irmão da Miúcha” quando, no começo de 1965, o escritor e psicanalista Roberto Freire – então à frente do recém-criado TUCA, o Teatro da Universidade Católica de São Paulo – lhe propôs um desafio: queria que ele musicasse o poema “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto, que o grupo ia encenar. Roberto conhecera Chico através justamente de Miúcha, sua amiga, que o arrastou para um show no Colégio Santa Cruz, aí por 1961, 1962. “Você precisa ouvir”, ela dissera, “umas coisas que o meu irmão mais novo está fazendo”. O escritor não ficou nada impressionado com “o tal do Carioca – tímido, gago, atrapalhado, super bonito mas tocando um violão danado de ruim”. Miúcha insistiu e nos primeiros meses de 1965 levou Chico à casa de Roberto Freire, numa noite em que lá estavam, entre outros, Alaíde Costa e Geraldo Vandré. Dessa vez ele cantou “Pedro pedreiro”, composta havia pouco – tinha sido apresentada numa daquelas producentes de Walter Silva no Paramount, o BO 65, no dia 29 de março (ouça adiante!). “Fiquei vidrado”, lembra Roberto.

O carro-chefe era “Pedro pedreiro”, que a partir daí ele seria solicitado a apresentar onde quer que aparecesse. “Só me deixavam cantar essa”, conta. Uma vez, nos bastidores do programa do Chacrinha, na TV Excelsior, um assistente do “Velho Guerreiro”, de nome Ramalhete, preocupado com a extensão da letra (sessenta versos), lhe propôs sem mais rodeios: “Não dá pra esse trem chegar mais cedo?” Não havendo acordo, o trem foi cancelado.

“Pedro pedreiro” – que Chico cantou para Tom Jobim no dia em que o conheceu, em 1966, levado pelo produtor Aloysio de Oliveira – não foi a sua única música onde passava um trem. Houve outra, bem anterior, a primeira que ousou cantar para Vinícius de Moraes.

…De algumas canções desses dois primeiros álbuns – “A televisão”, por exemplo – ele se sente muito distante. Outras, como “Pedro pedreiro” e “Olê, olá”, lhe parecem merecedoras de “certa indulgência, por conta da juventude”. E há uma, “A Rita”, que Chico ainda canta com prazer.

© Copyright Humberto Werneck in Chico Buarque Letra e Música, Cia da Letras, 1989

Extraído de http://www.chicobuarque.com.br/

Chico Buarque ao vivo(1965)

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Quando fiz “Pedro pedreiro” tive a sensação de que pela primeira vez estava compondo uma música realmente minha, que não era mais imitação da Bossa Nova. (Chico Buarque).

Segundo Chico Buarque, esta canção, “Pedro pedreiro”, feita em 1965, fazia parte do movimento de oposição à ditadura instalada pelo Golpe Militar de 1964. Naquela época, ainda era possível contestar através do cinema, do teatro e da música, enquanto fora de tais espaços tudo estava proibido. O mundo das artes ainda conseguia furar o esquema repressivo.

É interessante notar que Chico, a exemplo de Guimarães Rosa, a quem sempre admirou, criou uma palavra nova, inexistente no dicionário da língua portuguesa. Reservo ao leitor alguns minutos para que a encontre. A música “Pedro pedreiro” foi lançada no disco Chico Buarque de Hollanda, sendo também gravada em italiano.

A canção possui 60 versos e a palavra “esperando” aparece 36 vezes. E, como já naquela época, os meios de comunicação estivessem mais preocupados com os ganhos financeiros de que com a qualidade da mercadoria, um dos produtores do programa de Abelardo Barbosa (Chacrinha) dirigiu-se abruptamente ao cantor e compositor, referindo-se ao tamanho de sua canção, dizendo:

– Não dá para esse trem chegar mais cedo, não?

Chateado com o desrespeito do moço, Chico simplesmente apanhou seu violão e deixou a TV Excelsior, pois jamais estropiaria sua música para agradar a mídia. Não sabia o atrevido produtor da besteira que acabara de cometer, pois o sucesso de “Pedro pedreiro” foi tão grande que Chico Buarque foi convidado por Roberto Freire para musicar o auto de Natal do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, “Morte e vida severina” (1955). Chico tinha apenas 21 anos de idade à época.

A peça “Morte e vida severina” viria a ganhar o primeiro prêmio no “IV Festival Internacional de Teatro Universitário de Nancy – França”, sendo aplaudida pela plateia por mais de 10 minutos. (A palavra criada pelo compositor é “penseiro”).

Extraído de http://virusdaarte.net/

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No dia 5 de maio de 1965, chegou às lojas o primeiro disco de Chico Buarque de Hollanda, um compacto simples da RGE que apresentava “Pedro pedreiro” e “Sonho de um carnaval”. Na ocasião, às vésperas de completar 21 anos, Chico sonhava em cantar como João Gilberto, compor como Tom Jobim e fazer versos como Vinícius de Moraes.

Relevando-se a inexperiência do estreante, pode-se afirmar que os sonhos do autor de “Pedro pedreiro” não estavam assim tão distantes da realidade.

Ao longo de sessenta versos, este samba conta as (des)esperanças de Pedro, um operário de obras, que vive esperando por alguma coisa a palavra “esperando” é repetida 36 vezes no poema — que não acontece, mas, se acontecer pouco ou nada irá influir no curso de sua existência miserável: “Esperando, esperando, esperando / esperando o sol / esperando o trem / esperando aumento para o mês que vem / esperando um filho para esperar também / esperando a festa / esperando a sorte / esperando a morte / esperando o norte / esperando o dia de esperar ninguém / esperando enfim nada mais além…”

Marco inicial da carreira profissional de Chico Buarque, o alentado samba “Pedro pedreiro” seria, então, por ele repetido à exaustão em todas as suas apresentações, por exigência de seus primeiros admiradores (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Extraído de http://cifrantiga3.blogspot.com.br

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UM DOS PRIMEIROS SUCESSOS DE CHICO BUARQUE, EM LIVRO.

Um dos primeiros sucessos de Chico Buarque foi transformado em livro-objeto pelo artista plástico Fernando Vilela. O livro conta a história de “Pedro pedreiro”, que espera o trem que nunca vem. Ao imprimir a letra em um livro sanfonado, Vilela mostra ao leitor que, sem perceber, Pedro sempre esteve dentro do trem.

Extraído de http://www.casadapalavra.com.br/

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Adoro Chico Buarque. Sua interpretação para letras tão inspiradoras eleva ainda mais o resultado final dos seus trabalhos.

Uma de suas músicas mais marcantes pra mim se chama “Pedro pedreiro”. Narra a história de um trabalhador que espera, espera, espera… por algo que nunca chega. A letra é contada por um narrador/intérprete que observa Pedro em 3ª pessoa, do lado de fora de sua rotina circular. Independente da carga social que a música tem (aqui tem uma análise sobre isso), o que me fascina é o uso do ritmo e da sonoridade tão a serviço da narrativa e dramaticidade da história. Existe uma metáfora de luz no fim do túnel costurando a letra inteira e sendo apreendida pelo tal trem que não chega e pelo sol que Pedro espera.

“Esperando, esperando, esperando / Esperando o sol / Esperando o trem / Esperando aumento para o mês que vem”

Pedro, em um dado momento, também espera na sequência “A sorte / A morte / O norte”. A sorte representaria as possibilidades de desfechos positivos subordinadas ao rumo cego de sua vida. A morte seria intuitivamente o fim mas, quem sabe, também uma redenção num contexto tão randômico. O norte, por sua vez, seria, na linguagem do próprio pedreiro, um prumo, uma orientação evolutiva que projetasse um futuro digno e temporalmente relevante. Na sequência, esses três termos cadenciam a sonoridade da letra enquanto poema cantado, e acentuam a dramaticidade da narrativa com os cruzamentos de significados possíveis. Norte, por exemplo, é inclusive usado anteriormente como região onde Pedro nasceu.

O tempo, fundamento maior da crítica, tem um uso particularmente notável. Porque entre as coisas que Pedro espera, existe um “filho pra esperar também”. Ou seja, por mais que o ciclo possa terminar em algum momento (com a morte de Pedro, por exemplo), é possível também que ele se perpetue numa próxima geração sugerindo que essa condição prossiga infinitamente. Via crítica social fica evidente o que isso significa. Mas minha ênfase é no risco que essa passagem da letra nos oferece sob o ponto de vista narrativo: o de que a música não tenha fim.

Pra mim a ironia maior do destino de Pedro é que o trem que representaria a tal luz no fim do túnel, também pode, caso ele siga cego em sua vida fortuita sobre trilhos desconexos, em vez de lhe salvar, fazer o contrário: lhe atropelar. Mais do que a luz no fim do túnel, o trem pode ser também a luz no fim da vida. E me conduzo aqui àqueles relatos dados por pessoas que voltaram de grandes apuros com a saúde, como coma ou outras situações extremas.

Atente-se ainda para o fato de que a história de Pedro é contada por um voyeur social (no caso, Chico). Ou seja, o que se passa na cabeça do observador não é absolutamente o que pode estar se passando na cabeça de Pedro, que provavelmente nem cogite uma outra vida. E, somado a isso, eu próprio, interpretando Chico que interpreta Pedro, faço ainda um terceiro grau de leitura neste metavoyeurismo que é ouvir a música e imaginar a história.

Pedro pedreiro também é “penseiro“, uma palavra inventada. Mas aí reside um dos poderes do poeta: o trânsito livre entre as regras gramaticais. Mesmo como palavra inventada, Penseiro é pura e simplesmente: radical Pensar + sufixo adjetivador ‘Eiro’. Portanto, o entendimento não é sequer minimamente prejudicado, uma vez que, apesar de ser palavra inventada, possui estrutura correta.

Ouçam a música, saibam a letra, conheçam Pedro. Mas não se enganem: no final, o trem, que parece estar chegando, está na verdade partindo.

Extraído de https://mperplexo.wordpress.com

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DIÁRIO DA ALDEIA 

A “espera” é uma afecção comum a todo ser humano. Desde que temos consciência da vida, esperamos por alguma coisa.

Esta expectativa foi magistralmente abordada por Chico Buarque na canção “Pedro pedreiro”.

Existem a espera pessoal e a espera coletiva.

Recentemente, a espera que afetava a todos era a da vacina, e agora, é a espera pela chegada do mês de outubro.

E virão outras… e mais outras… e mais outras…

Toninho Nascimento

 

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Pedro Pedreiro” é uma canção do músico brasileiro Chico Buarque, lançada em 1965 em seu primeiro compacto e incluída no ano seguinte no disco Chico Buarque de Hollanda.

Foi uma das primeiras músicas compostas pelo cantor e veio a público com a ajuda de sua irmã Miúcha. A música fala de um operário que espera o transporte público para chegar ao trabalho; a sua vida é descrita utilizando diversas vezes a palavra “esperando” – no total, repetida 36 vezes.

A canção foi, posteriormente, regravada pelo próprio Chico em italiano e lançada no álbum Chico Buarque de Hollanda na Itália.

Wikipédia

 

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Atualismo/atualização em Pedro pedreiro, canção de Chico Buarque de Holanda (1965)

  • Piero Detoni & Paula de Souza Ribeiro Detoni

Chico Buarque de Hollanda


A trajetória artística de Chico Buarque de Holanda, músico nascido em 1944 na cidade do Rio de Janeiro, é uma referência não apenas para pensarmos a MPB isoladamente, mas a própria cultura histórica nacional contemporânea. A obra de Holanda apresenta um enlace entre poética, instrumental e preocupações políticas e sociais, lembrando o momento em que inicia as suas performances, ou seja, o período da Ditadura militar no país. As suas canções, como a aqui em análise, isto é, Pedro pedreiro, estão dialogando com toda uma audiência em busca da criação de mecanismos alternativos de resistência antes aos diversos modos de opressão. Ou, pensando por outro lado, se voltam para aqueles que não perceberam a função das práxis política progressista.  

Ao lado de outros músicos como Gilberto Gil, Caetano Veloso, o conjunto Clube da Esquina, os Mutantes ou o rock de Raul Seixas, dentre muitos outros registros que coabitavam aquela cena, ele transformou a sua arte em um recurso diante das imposições do silêncio, ou melhor, das censuras. A arte, a partir das suas múltiplas linguagens, traz consigo potenciais de transgressão e de transformação. No caso do nosso artista, verifica-se uma consciência política aguda para o período, manifestando-se por meio da sua música a busca por mudanças, por liberdade e por democracia, além das suas letras chamarem a atenção para os graves problemas sociais vividos pela população brasileira.

É neste contexto, com datação para o ano de 1965, que Holanda lançou o seu primeiro compacto intitulado Chico Buarque de Hollanda. Nele, estão presentes 12 canções, sendo as mais conhecidas A banda, A Rita e Madalena foi pro mar. Nos deteremos em outra das canções do álbum, Pedro pedreiro, difundida não apenas musicalmente, mas presente junto às experiências históricas brasileiras. Mesmo que não se conheça a música, não é difícil que encontremos pessoas falando da espera de um tal Pedro. Ora, a materialidade desta música, entre outras de Chico, foi capaz de criar/incitar mundos possíveis. Em forma e conteúdo Pedro pedreiro interpreta e constrói Brasis.

Pedro é descrito como ‘penseiro’: alguém não alienado, não desconectado do mundo que o cerca (SANTOS, 2014). O seu pensamento dá o tom frenético e compulsivo da música, por onde se opera o atualismo (PEREIRA; ARAUJO, 2018). O sentimento de apressamento musical é decorrente da aceleração do seu pensar. Por um lado, a música manifesta a necessidade da ação social – da práxis não só individual, mas coletiva. Aquele pensar acelerado incorre na perda do raio de ação que possibilitaria a efetivação das demandas e dos sonhos do protagonista, que envolviam a justiça social. Eles podem “ficar para atrás”. Há, subterraneamente, uma convocação para o agir político, dado que Pedro está “esperando a morte/ou esperando o dia de voltar pro Norte” (SANTOS, 2014).

Que dizer, caso Pedro continue desenraizado, focado apenas no plano do pensar, somente a morte o aguarda. Contudo, embora seja alguém que pensa demais, e o ritmo da música ofereça essa interpretação, almeja-se uma mudança em sua realidade, que já aponta para uma atualização não automática: “Pedro não sabe mas talvez no fundo/espera alguma coisa mais linda que o mundo/maior que o mar”. Mas o atualismo prevalece na medida que se verifica a frustração dos seus desejos, sendo que o migrante se acomoda, mesmo forte como pedra: “O desespero de esperar demais/Pedro Pedreiro quer voltar atrás/quer ser pedreiro pobre e nada mais/ sem ficar esperando, esperando, esperando”.

A canção, com fortes traços do samba e da bossa nova, nos convida a uma apreciação crítico-musical sobre a qual consideramos relevante a análise e a interpretação artística e contextual (BASTOS, 2009). A música narra as (des)venturas de um operário que espera o seu transporte para trabalhar e, ao mesmo tempo, espera várias outras coisas. As palavras “espera” e “esperando”, que aparecem repetidas vezes, já nos trazem um vislumbre sobre o que o artista buscava ressaltar. Já nas primeiras estrofes, vemos que Pedro é uma pessoa “penseira”, como dito, que espera, mas que parece não perceber que essa espera pode o encaminhar para a inércia, isto é, sem atitude rumo à mudança, o que faria da espera quase interminável. Enunciado que não é de menor importância se pensarmos na música como uma convocação à ação no início da Ditadura militar.

A ilusão da espera do trem, a partir de uma leitura possível, está associada ao contexto histórico, à “(…) frustração de um projeto nacional integrador fracassado, são as bases contextuais para o desenrolar dessa narrativa. Pedro expressa o caráter efetivo dessa (des)ilusão sobre o desenvolvimento nacional” (SANTOS, 2014, p. 88).

Há, em meio à sorte de coisas a se esperar, na canção, a perspectiva de Holanda acerca dos problemas sociais enfrentados pelos trabalhadores daquele período. Por exemplo: o apelo à sorte decorre, muitas vezes, da falta de uma estrutura ou direcionamento público apto a atender às necessidades das classes trabalhadoras. A espera resultaria na falta de ação, sendo que a sorte enunciada talvez seja um dos momentos em que a crítica mais se intensifica. Mas esperar também é uma meditação, cabe destacar, como podemos perceber no agudo senso social do migrante Pedro pedreiro penseiro. Toda a música caminha, é possível assinalar, por essa ambiguidade do verbo esperar.

Holanda destaca, tanto na letra quanto na melodia em si, que essa espera não é sutil, natural ou consoladora para o personagem. Trata-se de uma espera que é aflitiva e até mesmo desesperadora, que causa ciclos de ansiedade e agonia e que termina sempre por voltar ao mesmo lugar, sem solução. Todo esse movimento está na mente de Pedro, por isso ele era um penseiro. Imaginem, ouvindo a música, a velocidade do seu pensamento. Há uma noção cíclica, uma repetição do mesmo, uma compulsão de um meditar sem ação. Pedro pensa demais, tomando os polos negativos e positivos do termo. Faltaria a ele a ação a o sentimento de transformar o mundo vertido como práxis.


Ouvindo Pedro pedreiro: uma acústica atualista

 

As canções, enquanto linguagem artística, manifestam-se dialógica e transversalmente. Neste texto, ressaltamos que a apreciação musical visa formas possíveis de verificação dos planos de historicidade que se enredam às composições. Pressionamos forma e conteúdo tendo em vista a música Pedro pedreiro. Daí a importância da escuta da composição e do arranjo da canção, o que nos faz compreender a música como uma linguagem análoga, em muitos sentidos, à verbal. (NASSIF; SCHROEDER, 2019).

Há um sentimento de ansiedade na música decorrente da rítmica e do enredo da mesma. O arranjo e o ritmo da música sugerem algo como a impaciência. Esse ritmo acelerado, a sua materialidade em termos de audição, indicam o atualismo temporal, isto é, uma aceleração tamanha que beira a imobilidade. Há um caminho duplo para se enxergar as performances de Pedro na canção de Holanda. Através do desejo por melhorias nas condições de trabalho, do descanso e da festa no carnaval, do aumento do salário e até mesmo da possibilidade de se ganhar na loteria. A canção, que se assemelha a um conto, sendo daí a outra face da sua mensagem, também é uma narrativa sobre o cotidiano de um trabalhador em meio a um contexto de emergência do regime ditatorial no país. É posto, então, luz alta nas ilusões e nas desilusões das classes trabalhadoras.

Devemos nos atentar, de todo modo, para o ritmo, a melodia e o arranjo da música, não apenas para a sua letra. São polos que se imbricam e se reforçam mutuamente. Se nos direcionarmos para a parte instrumental da canção, que conjuga samba e bossa nova, veremos, também, o seu conteúdo. Nesta parte do texto nos atentamos, assim, para as representações instrumentais, que são capazes de fazer ver coisas, personagens, ações e emoções. Isso se faz importante porque só é possível compreender os sentimentos de Pedro através da acústica da canção, da sua audição, que revela os seus sentimentos íntimos. Ora, a ideia de penseiro, de alguém com pensamento acelerado, só é capturada com maior intensidade caso nos desloquemos para a análise e para a apreciação instrumental, que é justamente por onde vemos que o pensamento acelerado de Pedro se aproxima do atualismo, conforme elaboração de Mateus Pereira e Valdei Araujo (2018).  

A batida bem marcada da música, como uma bossa de uma nota só, nos lembra uma construção, tendo um som de ferramenta como o martelo. Pedro era pedreiro. Daí temos no pensamento de Pedro que as suas demandas, que estão em estado de aceleração reflexivo, se operam, sobretudo, através do trabalho. Pedro seria uma pessoa que espera várias coisas, mas mantém o seu ritmo trabalhador. Na verdade, Pedro não é somente um trabalhador individual, mas a representação mais ampla das classes trabalhadoras do país.

As suas emoções não são fáceis de serem controladas, daí a grande ansiedade percebida na representação instrumental. O uso de melodias expressivas ao final de certos versos sugere, a cada vez que retomada, uma emoção diferente: letargia, angústia, ansiedade, mas também esperança. Em certo momento da canção, Holanda acelera o andamento enquanto canta as tantas outras coisas mais que Pedro Pedreiro espera. É válido dizer que parecem 36 vezes derivações do vocábulo esperar no decorrer da canção.

O instrumental se torna outra “voz” do seu personagem, pois também se acelera gradualmente. Um desespero de esperar, como o próprio compositor canta. É interessante notar que, mesmo com esse prenúncio de uma mudança de andamento, a melodia volta ao andamento anterior. Aqui está o seu atualismo (PEREIRA; ARAUJO, 2018).  

Mais ao final da música há uma mudança de ritmo e de instrumentação. A cena de espera, de um tempo que não passa, dá lugar ao que lembra uma chegada do aguardado transporte. A voz de Holanda se torna ainda mais melódica, reforçando o anúncio.


Atualismo como espera


Há em Pedro pedreiro, contudo, alguma promessa a se cumprir. Essa disposição não é apenas individual, mas percebida metonimicamente enquanto classe. Haveria alguma espécie de “humanismo doce” em Pedro, que é contrastado com os conflitos de classe em que se insere e que se mostram difíceis de serem solvidos (BASTOS, 2009).

A canção de Chico Buarque volta-se para a espera. Ela relembra enredos e personagens de Kafka, dado que nos dois registros o que se tem é uma espera beirando a incompreensão, imobilizadora, que antecipando o futuro interdita o presente e torna o passado repetição. O que temos é “uma espera incompreensível que já é uma punição, a uma postergação indefinida que já é um suplício, a uma dívida infinita desde sempre impagável” (PELBART, 2021, 110). Recobremos os versos da canção de Holanda:

 

Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás

Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem


Vemos que Pedro pedreiro é um “penseiro”, ou seja, ele não age, mas espera – uma espera atualista, que o imobiliza numa gaiola. Assim sendo, o “tempo passa”. De tanto pensar, o tempo se esvai. Mas é um penseiro com muitos desejos, com vontade de ver as coisas sendo transformadas. Não é um penseiro descolado do real. Porém, ao menos na primeira parte da música, há um passado que não imprime conexão de sentido e um futuro impedido de se abrir como novidade. “Esperando, esperando, esperando”. Interessante a metáfora do “esperando o sol”. Ora, alguém que espera o sol parece estar vivendo em algum tipo de prisão. E quem espera o trem, metáfora temporal, aguarda pela do flexa do tempo que leva pra frente, que leva para o futuro. O atualismo apresenta-se nestes versos: “Esperando o aumento/ desde o ano passado/para o mês que vem”. Conforme Mateus Pereira e Valdei Araujo (2018), no atualismo as pessoas “parecem confiar em uma organização automática da realidade”. É uma velocidade imobilista, fechando passado e futuro, concentrando-se num estado de atualização que é, de certa maneira, imobilizadora. Esse atualismo é percebido no pensamento frenético e cíclico do penseiro Pedro.

O que marca a ideia de atualismo é, e nos valemos da canção, a alta velocidade temporal, o que leva ao passado aumentado e sem pregnância e ao futuro atrofiado, disposição que resultaria, justamente, de um tempo presente imediatista e fugaz. Ora, Pedro espera o “carnaval” e a “sorte grande no bilhete da federal” “todo mês”. Essa forma de agir no mundo de Pedro nos leva ao que é anunciado pelos autores como atualismo: “se a própria mudança se torna a expectativa, o tempo pode desacelerar e se aproximar de um novo tipo de imemorial: o atualismo?” (PEREIRA; ARAUJO, 2018, p. 58).

​Pedro pedreiro, concordando com as teorizações de Peter Pál Pelbart (2021), que se ligam à conceituação de atualismo, tem uma espera torturante, colocando em suspenso a existência, que é bloqueada. Justamente de alguém que espera que coisas realmente significativas aconteçam para si e para a sua classe. O atualismo como espera de Pedro traz consigo um tempo engaiolado, quase morto; inclusive com uma perspectiva negativa voltada para o próprio corpo (compulsão por repetição). Parece que Pedro, que também pode ser compreendido metonimicamente em termos de classe, dito mais uma vez, está numa imobilidade forçada, que é o atualismo como espera da canção. Pedro pedreiro “esperando, esperando, esperando o sol/ esperando o trem/ esperando o aumento/ para o mês que vem/Esperando a festa/esperando a sorte/ E esperando a mulher de Pedro/ Esperando um filho/Pra esperar também”. Parece estarmos diante, neste atualismo, duma grande espera por coisa alguma, que às vezes nem se sabe o que é (mesmo que latente no íntimo do personagem). Podemos, através das reflexões de Pelbart, potencializar a definição de atualismo de Pereira e Araujo (2018) projetada para a canção de Chico Buarque: “(…) se mistura disciplinamento, submissão e tortura, o futuro desaparece, mas não em favor da experiência do presente, já que o presente foi justamente esvaziado de qualquer experiência, em favor de uma mera vivência, se tanto” (PELBART, 2021, p. 111).

O atualismo como espera de Pedro pedreiro dependeria de uma fusão entre um real efetivo e um real mais recente. Escreveram Pereira e Araujo: “sua constante atualização não abre espaço para o novo enquanto descontinuidade” (PEREIRA; ARAUJO, 2018, p. 164). Valemo-nos de mais uma reflexão dos historiadores brasileiros apontando para os significados do atualismo na canção: “O atualismo produz a sensação de que tudo que importa está ou estará disponível e presente” (PEREIRA; ARAUJO, 2018, p. 180). Pedro pedreiro aponta para uma ontologia do presente: o atualismo

A música trata, então, de dois âmbitos do esperar: a espera atualista e o desejo de atualização da espera como esperança. Atualismo e atualização são elementos temporais distintos. Por um lado, temos algo que causa angustia e aflição, que parece decorrente do penseiro de Pedro, que não se volta à práxis, mas à repetição do mesmo. As voltas cíclicas da espera de Pedro, somada ao seu ritmo quase inalterável de trabalho, reforça essa ideia. É como se Holanda dissesse que, se Pedro tivesse tomado alguma atitude para a mudança que queria, ela teria vindo com maior antecedência. Vejamos que é uma espera, mesmo em registro atualista, não alienante. A canção pode ser lida como uma ode à participação popular, às manifestações, aos levantes contrários às condições que causam medo e insegurança; voltando-se para a assunção de problemas de justiça social e de cidadania.

Deve ser notado que a espera não possui apenas uma perspectiva negativa, na medida que, concordando com Reinhart Koselleck, a espera, tanto em um âmbito religioso quanto político, é a expectativa de um fim (PELBART, 2021). Fim da espera de Pedro? A espera como desejo de mudança, como esperança? Vejamos na própria canção:


Esperando o dia de esperar ninguém

Esperando enfim nada mais além

Da esperança aflita, bendita, infinita

Do apito de um trem


O apito do trem da história, “que já vem”, “que já vem”, “que já vem”, “que já vem”, indica dois caminhos possíveis para Pedro: a angustia atualista, sendo uma crítica ao esperar sem práxis, mas ao mesmo tempo uma atualização possível para um mundo outro que se anuncia, freneticamente aguardado para o penseiro, em forma de esperança.

 

Referências

 

BASTOS, Manoel Dourado. Notas de testemunho e recalque: uma experiência musical dos traumas sociais brasileiros em Chico Buarque e Paulinho da Viola (de meados da década de 1960 a meados da década de 1970. Tese (Doutorado em História) – Programa de Pós-graduação em História da Unesp, 2009, 292 f.

NASSIF, Silvia Cordeiro; SCHROEDER, Jorge Luiz. Apreciação musical para não-musicistas – Uma proposta a partir das ideias do Círculo de Bakhtin. Revista Vórtex, Curitiba, v.7, n.1, 2019, p.1-28

PELBART, Peter Pal. Tempos de Deleuze. Revista Limiar, vol. 8, n. 15, 1º sem 2021.

PEREIRA, Mateus; ARAUJO, Valdei. Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI. Vitória: Milfontes; Mariana: Editora da SBTHH, 2018.

SANTOS, Daniela Vieira dos. “Pedro Pedreiro”, “Bye Bye Brasil”, “Pelas Tabelas”:  rumo ao colapso do tempo histórico. Música Popular em Revista, Campinas, ano 2, v. 2, p. 82-109, jan.-jun. 2014.

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Música e Trabalho: “Pedro pedreiro”, de Chico Buarque

Em parceria com o Centro de Memória Sindical, o Prosa, Poesia e Arte publica, semanalmente, a seção Música e Trabalho. Nesta semana, Chico Buarque volta a aparecer – desta vez, com a canção “Pedro pedreiro”. Confira.

Editado 13/12/2019

Chico Buarque

Pedro, pedreiro, penseiro, são metáforas da rusticidade, da monotonia, do tédio, da incapacidade de intervir e da dureza do trabalho do operário. Na música a situação um operário da construção civil (pedreiro) é descrita, sobretudo, pela repetição da palavra “esperando”. O pedreiro Pedro representa a condição de vida da classe trabalhadora do povo brasileiro, sobretudo em meados da década de 1960, início da ditadura militar no Brasil.

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Pedro Pedreiro é uma famosa canção de Chico Buarque, lançada em 1965. A expressão simboliza o trabalhador brasileiro comum e sua exaustiva rotina. O personagem vive em um ciclo de esperança e frustração, aguardando por melhorias salariais, pelo trem, por sorte na loteria e por um futuro melhor que nunca chega.

Contexto e Significado Social

A letra utiliza a repetição incessante da palavra “esperando” para representar a paralisia, o cansaço e a sensação de impotência da classe operária. Composta no início da ditadura militar brasileira, a música é uma crônica social sobre a pobreza, a falta de perspectivas e as dificuldades de ascensão social enfrentadas pelos menos favorecidos.

Análise Poética

Ao chamar Pedro de “penseiro” (uma licença poética para pensativo), a obra destaca a dualidade do trabalhador: ele é o operário que executa o trabalho braçal duro na construção civil, mas também é um pensador consciente de sua dura realidade. A música termina com uma crítica à própria “esperança”, sugerindo que, por vezes, a espera contínua apenas imobiliza o indivíduo.

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Renê Monteiro disse:

Depois de tudo descrito acima, não há o que acrescentar.

Levy disse:

Chico nos entrelaçados de vida e morte sempre renasse a esperança a espera de não sei se vai acontecer.