Valsinha

Vinicius de Moraes & Chico Buarque

Essa peça de Chico e Vinícius, composta na década de 70, foi uma dedicatória ao movimento hippie que vinha ganhando força. Os hippies daquela época pregavam o amor, a fraternidade, a liberdade de ação em plena época de forte repressão, viviam em grupos, usavam e abusavam do livre sexo e tudo mais.

Dá pra perceber direitinho essa alusão ao movimento quando a música nos apresenta um homem que chega diferente, que olha diferente, que para de maldizer a vida, que dança, que ama.

A princípio a música iria levar o nome de “Valsa hippie”, por ideia de Vinícius. Chico até aprovou de início, mas logo retrucou, alegando que o movimento vinha virando ‘modinha’. Então, Vinícius demasiadamente Vinícius, como tem a mania de colocar tudo no diminutivo… “Tá, Valsinha, então”.

Eu achei no site oficial dele duas cartas de Vinícius pra Chico – e vice versa – nas quais eles discutem a composição da “Valsinha”. Emocionante ler esse diálogo.

Notas sobre Valsinha

Por Vinicius de Moraes

Mar del Plata, 24/01/71

Chiquérrimo:

Dei uma apertada linda na sua letra, depois que v. partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três ideias que tive. Mandei-a em carta a v., mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo me disse que Sérgio morava em Buri 11, e lá foi a carta para Buri 11.

Mas como v. me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se v. concorda com as modificações feitas. Claro que a letra é sua, eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor estas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui no princípio estranhou um pouco, mas depois se amarrou à ideia. Escreva logo, dizendo o que v. achou.

“VALSA HIPPIE”

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar/

Olhou-a de um modo mais quente do que comumente costumava olhar/

E não falou mal da poesia como era mania sua de falar/

E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: /Vamos nos amar

Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar

E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar

Depois os dois deram-se os braços coma a gente antiga costumava dar

E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar

E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou

E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou

E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais

Que o mundo compreendeu

E o dia amanheceu em paz.

Vinicius de Moraes

Resposta de Chico:

Por Chico Buarque

Rio, 2 de fevereiro (sem o ano)

“Caro Poeta,

Recebi as suas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o Apesar de Você. Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gessy, e se não gostar, foda-se, ou fodo-me eu.

Valsa Hippie é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo o que há de hippie à venda por aí.

Valsa Hippie, ligado à filosofia hippie como você o ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser a filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou xingou mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.

Convidou-a pra rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e o tesão da t… final. “pra seu grande espanto”, você tem razão, é melhor que “pra seu espanto”. Só que eu esqueci que ia por itens. Vamos lá:

– Apesar do Orestes (vestido dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. E gostoso de cantar vestido decotado. E para ficar dourado o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao “ousar” que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ó poeta, não leve a mal a minha impertinência, mas você precisa estar aqui para sentir como a turma gosta, e o jeito dela gostar desta valsa, assim à primeira vista É por isso que estou puxando a sardinha para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, também dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.

– Ainda baseado no argumento acima, prefiro o abraçar ao bailar. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.

– A terceira é que mais me preocupa. Você está certo quanto ao “o mundo” em vez de “a gente”. Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último verso onde você diz “e cheio de ternura e graça” em vez de “e foram-se cheios de graça”. Agora estou pensando em retomar uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer “Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”. Só tem o probleminha da junção “em-estado”, o em-e numa sílaba só. Que é o mesmo problema do começaram-a. Mas você me disse que o probleminha desaparece, dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado “começaram a se abraçar” sem maiores danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente. Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando. Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, porque deu bolo como o Apesar de Você, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a Tonga, mas a Banda vendeu mais que o disco do Toquinho solando Primavera. Dê um abraço na Gessy, um p… no Toquinho e peça à Silvina para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.

Chico Buarque

Extraído do blog www.ame-o-poema.blogspot.com, de Othon César

X.X.X.X.X

De quebra, duas gravações: com Chico Buarque (ouça adiante!) e com Paulo Gracindo (ouça adiante!).

Chico Buarque(1971)

Paulo Gracindo(1975)

X.X.X.X.X

 

Valsinha”, composta por Vinícius de Moraes (melodia) e Chico Buarque (letra) em 1970/1971, é uma crônica poética sobre a quebra da rotina e a redescoberta do amor em um relacionamento desgastado. A canção narra um gesto simples de afeto — um convite para dançar — que transforma a monotonia de um casal em um momento de esperança e ternura.

Análise dos Aspectos Principais:

  • Narrativa de Transformação: A letra foca na mudança de atitude de um homem, provavelmente um bancário exausto e amargurado, que decide surpreender sua parceira com carinho ao invés da frieza habitual.
  • Simbolismo da “Valsinha”: O convite para rodar representa uma renovação emocional e um refúgio da dureza do cotidiano. A cena evolui de um ambiente doméstico maçante para uma dança na praça, simbolizando a libertação.
  • Contexto de Criação: Inicialmente concebida como “Valsa hippie” por Vinícius, a música foi polida por Chico, que preferiu uma abordagem que equilibrasse a “dureza” da vida com a ternura.
  • Harmonia e Melodia: A estrutura musical, frequentemente cantada em dó menor, utiliza acordes de dominante com sétima e nona menor, criando uma atmosfera que alterna entre a tensão do cotidiano e o relaxamento da dança.
  • Impacto Popular: A canção tornou-se um clássico (confira em “O tempo não apagou”, clicando aqui), sendo celebrada por unir o público e evocar sentimentos de esperança. 

Google

 

X.X.X.X.X

 

Renovação do amor e esperança em “Valsinha” de Chico Buarque

Em “Valsinha”, Chico Buarque opta por usar o verso “convidou-a pra rodar” em vez de algo mais direto como “disse vamos nos amar”. Essa escolha mostra o cuidado do compositor em criar uma narrativa de transformação sutil, onde o convite para dançar representa tanto um gesto físico quanto uma renovação emocional. O momento em que o homem, antes distante e amargurado, surpreende a parceira com esse convite marca o início de uma mudança profunda na relação, trazendo suspense e delicadeza à cena.

A letra retrata a redescoberta do afeto em um relacionamento desgastado pela rotina. O homem, que “não maldisse a vida tanto” e “nem deixou-a só num canto”, rompe com antigos hábitos negativos e propõe um novo começo. A mulher, ao se arrumar com um “vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar”, expressa esperança e o desejo de reviver a paixão. O casal dança na praça, observado pela vizinhança, e esse momento de felicidade íntima parece iluminar a cidade, sugerindo que o amor tem o poder de transformar o ambiente ao redor. Mesmo em um álbum com críticas sociais, “Valsinha” se destaca como um retrato sensível e universal da força renovadora do amor.

https://www.letras.mus.br/

 

X.X.X.X.X

 

Jairo Severiano

A Valsinha do Chico e do Vinícius

 

Segundo o Aurélio, a palavra “rodar” tem 25 significados, entre os quais “caminhar”, que Chico Buarque usa no final da primeira estrofe de “Valsinha”.

 

Um dia ele chegou tão diferente de seu jeito de chegar

olhou-a dum jeito muito mais quente de que sempre costumava olhar

e não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar

e nem deixou-a só num canto pra seu grande espanto convidou-a pra RODAR…

 

“Valsinha” é a quarta composição da dupla Vinicius-Chico, uma parceria ansiosamente desejada pelo poetinha, porém difícil de se formar por serem os parceiros mais letristas do que melodistas. Em 1970, Vinicius compôs essa valsa e entregou-a ao Chico, que logo fez-lhe a letra e passou a cantá-la em seus shows. Então, o poeta escreveu-lhe uma carta elogiosa, mas que propunha várias modificações, uma delas sobre o último verso da citada estrofe:

E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, disse vamos nos amar“.

Embora declarando-se “embananado”, Chico teve firmeza para contestar o mestre, rejeitando a maior parte das sugestões, como a do verso em questão, assim justificando-se:

“Esse homem da primeira estrofe (…) nunca soube o que é poesia (…) e está de saco cheio. Quer dizer, nesse dia ele chegou diferente, não maldisse a vida tanto e convidou-a “pra rodar…” CONVIDOU-A PRA RODAR, eu gosto muito, poeta, deixa ficar (…) rodar que é dar um passeio e é dançar. Se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense e o tesão” para a transa final…

As cartas que Chico e Vinícius trocaram estão no livro “Histórias das Canções – Chico Buarque”, de Wagner Homem.

https://musicabrasilis.org.br/

 

X.X.X.X.X

 

5 perguntas sobre a música “Valsinha”

Por Clara Albuquerque

O 5 perguntas de hoje traz cinco respostas sobre a música “Valsinha”. Confira!

Vinicius e Chico são os compositores de “Valsinha”

Quando e por quem foi composta? 

Em 1971 por Chico Buarque de Holanda e Vinicius de Moraes. A música é de Vinicius e a letra o próprio Vinicius assume que de Chico e que ele, apenas, deu uma “aparafusada geral”. O primeiro título, sugerido por Vinicius, para essa música foi “Valsa hippie”. Na época, os compositores trocaram muitas ideias por cartas dando forma à canção.

O que diz e pra quem diz? 

A letra é muito bela, traz a ideia de um amor resgatado, de uma postura diferente de olhar para o outro, mesmo após tanto tempo de convivência e do quanto este olhar interfere primeiro na forma de cada um olhar para dentro, depois, na forma como as pessoas passam a olhar para quem enxerga a própria beleza interior.

Que características lembram mais sua época? 

Pelas cartas trocadas entre Vinicius e Chico, nota-se uma característica muito peculiar de quem se preocupa com a música enquanto arte: o texto precisava ser bem escrito e as palavras precisavam obedecer a sua pronúncia natural, mesmo cantadas.

O que o Brasil estava vivendo quando foi composta? 

Foi o ano em que o Brasil se retirou da Organização dos Estados Americanos porque não conseguiu um plano conjunto de ação contra o terrorismo. Foi, também, o ano de inauguração do aeroporto de Brasília e da última partida do jogador Pelé, na seleção brasileira de futebol.

O que é capaz de despertar? 

Sobretudo, emoção. A melodia nos leva a ficar atentos à história que está sendo contada e, no âmbito do sentimento, traz a sensação de que todos, ao ouvirem, podem se identificar, ou mesmo, contemplar a beleza da mensagem da música.

 

X.X.X.X.X

 

Valsinha”, de Vinicius de Moraes, retrata como um simples gesto pode transformar a rotina de um casal. A letra mostra o momento em que um homem, cansado da monotonia, surpreende sua companheira com um olhar afetuoso e um convite para dançar.

 

 

Tags: Buarque / Gracindo / Valsinha / Vinicius /
  • Compartilhe:

Escreva um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Paulo Roberto Victer disse:

A gravação com Chico Buarque e simplesmente perfeita ! Pois ela vai num crechendo e nós vamos dançando e com a alegria desse casal, rodamos e gritamos loucamente com eles até o seu emocionante final !

Paulo Roberto Victer disse:

O nosso saudoso ícone Paulo Gracindo, relata o tema com a forma dos contos antológicos, que ouvíamos atentos, quando os mais velhos contavam, naqueles tempos que não voltam mais !

Renê Monteiro disse:

Música de enorme sensibilidade, que foi aqui,se é que ainda podia , acrescida de comentários e trocas de cartas elucidadoras do período