A volta do malandro
NA – Você já teve alguma experiência de criação utilizando a tecnologia, ou limitou-se apenas ao violão?
Chico – Hoje em dia, dá para se ter um estúdio completo em casa. Eu, é claro, não tenho. Trabalhei, algumas vezes, com um gravador de quatro canais que permite fazer gravações superpostas. Há dez anos, esse gravador era uma novidade. Eu comprei há cinco, de segunda mão. Hoje, é peça de museu…
NA – Como você trabalha com ele?
Chico – Consegui bons resultados, mas é difícil explicar sem mostrar a música. Por exemplo: eu estava fazendo uma música, “A volta do malandro” (ouça e veja adiante!), e na minha cabeça havia duas batidas de violão completamente diferentes, um contraponto rítmico que me interessava. Eu tocava uma e ouvia outra ao mesmo tempo – ouvia na minha cabeça. Usando aquele gravador, ficou mais fácil: gravei a primeira batida, que era seca, constante, quase de rock, e em seguida a outra, sincopada. Depois, ouvi as duas juntas, e pronto: em cima delas arrematei a melodia. Na hora, eu não tinha muito clara a ideia do que ia sair, mas acabou ficando melhor do que eu imaginava.
NA – Então, esse recurso tecnológico – embora, como você mesmo diz, já um tanto antiquado, acabou influindo em seu processo de criação.
Chico – É, e às vezes tenho vontade de estudar música a fundo, de me tornar um músico mais completo, para dominar toda a linha de criação, do primeiro lampejo ao resultado final. A canção é enriquecida pelo trabalho dos músicos, do arranjador, do produtor, pelos recursos do estúdio, e isso me dá um pouco de ciúme. Muitas vezes, tenho ideias que não aparecem em uma gravação porque não sei verbalizar o que quero.
Fonte: Entrevista Chico Buarque para a Revista “Nossa América”, 1989
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Trecho retirado do filme “Ópera do malandro” com coreografia de Carlinhos de Jesus, utilizando a gravação de “A Gang”(1985) (ouça e veja adiante!).
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O papel do malandro em “A volta do malandro” de Chico Buarque
Em “A volta do malandro”, Chico Buarque resgata a figura clássica do malandro brasileiro, destacando sua habilidade de circular por diferentes ambientes sociais. Ao descrever o personagem que “caminha na ponta dos pés” e transita “entre deusas e bofetões, entre dados e coronéis, entre parangolés e patrões“, Chico evidencia tanto a esperteza quanto a necessidade de adaptação desse tipo popular. O malandro é apresentado como alguém que sobrevive em meio às desigualdades, usando a astúcia para lidar com as regras e brechas do sistema.
A canção traz um tom irônico ao chamar o malandro de “barão da ralé“, misturando a ideia de nobreza com a marginalidade. Isso reforça a crítica social presente na música, mostrando que, mesmo à margem, o malandro possui uma espécie de status próprio no universo popular. Ao afirmar que ele “deixa balançar a maré e a poeira assentar no chão“, Chico sugere que o malandro sabe esperar o momento certo para agir, observando e aproveitando as oportunidades. Inserida na peça “Ópera do malandro”, a música dialoga com obras de Brecht e John Gay, usando o arquétipo do malandro para expor as contradições e hipocrisias da sociedade brasileira, especialmente durante as mudanças políticas e sociais dos anos 1970.
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Chico Buarque sempre Chico, o tema Malandro na canção Meu Gori canta o malandro juvenil nessa faz homenagem ao maluco adulto tudo muito elaborado rsssss…..

